Semana On

Segunda-Feira 21.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Brasil

Brasil chega a 400 mil mortos: 'grande dia' para a necropolítica

Por imunidade de rebanho, Bolsonaro mandou país à morte, diz membro da CPI

Postado em 29 de Abril de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

Ilustração: Alexandre Teles Ilustração: Alexandre Teles

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O Brasil ultrapassou as 400 mil mortes por Covid-19.  O alto patamar é o resultado mais palpável da estratégia de Jair Bolsonaro de espalhar o vírus para atingir imunidade de rebanho e acelerar o fim da pandemia.

A imunidade coletiva não veio e, segundo especialistas, nem chegará do jeito que o presidente pensa. Mas o efeito colateral dessa estratégia assassina, as centenas de milhares de corpos, está aí - apesar de muitos bolsonaristas acharem que pedras foram sepultadas no lugar de pessoas.

No último dia 28, fez um ano que Bolsonaro, frente a um questionamento por mortes, disse: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre". Parece até que foi hoje. Nada mudou.

Todos os dias chegam notícias de pessoas queridas que se foram por causa de uma doença evitável se tivéssemos governo. E todos os dias me pego pensando o que será, nos próximos anos, dos filhos que elas deixaram e das biografias que elas não terminaram. E todos os dias sinto uma tristeza ao lembrar que o carrasco não tomou o poder pela força, mas foi eleito, avisando a todos que a morte teria centralidade em seu governo. E todos os dias agradeço pelo fato de que ainda não perdi a capacidade de me espantar frente a uma parte da população que acredita em cloroquina, mas não em vacina.

É difícil explicar para alguns amigos jornalistas de fora do país como é viver sob um governo que persegue a morte o tempo inteiro e das mais diferentes formas.

Onde um presidente da República se diverte de jet ski quando o Brasil atinge os primeiros 10 mil mortos por covid. Onde um ministro da Economia reclama do aumento da expectativa de vida dos brasileiros, afirmando que, desse jeito, a conta pública não vai fechar. Onde um ministro do Meio Ambiente defende sem nenhum pudor que as mortes da pandemia sejam usadas como cortina de fumaça para impor o desmonte da proteção ambiental, condenando esta e as futuras gerações. Onde membros da cúpula do governo elogiam publicamente um notório torturador e assassino da ditadura, chamando-o de herói.

Fosse o presidente capaz de sentir empatia, iria à TV, nesta quinta, para pedir desculpas. Como governa um país que vive uma catástrofe humanitária, ele tem responsabilidade pelo bem-estar do povo. Mesmo que não fosse o culpado (e ele é o principal culpado), uma pessoa decente faria isso.

No último dia 27, foi no sentido oposto: "Eu não errei em nada". Sob a ótica da promoção do vírus, ele não errou mesmo. Fez tudo o que tinha planejado para sabotar o combate à covid e seguir com seu plano que se resume em "pegar, pegou, morrer, morreu, bola pra frente que tem reeleição no ano que vem".

A ultrapassagem dos 400 mil mortos foi um Grande Dia para Jair. Ele comemorou?

Imunidade de rebanho

"Bolsonaro prefere a acusação de ter cometido erros diante da covid-19, é mais confortável para rebater. Pois ele deliberadamente adotou ações para estimular o contágio da população e perseguir a tese da imunidade de rebanho."

A avaliação é do médico e senador Rogério Carvalho (PT-SE), suplente de seu partido na CPI da Pandemia - que deve começar os trabalhos nesta semana, analisando as ações e omissões da administração federal durante a crise.

"Pretendemos apontar que o presidente sistematicamente expôs o povo à morte para cumprir essa tese", afirma.

Diante da informação revelada com exclusividade por Rubens Valente, colunista do UOL, de que a Casa Civil da Presidência da República enviou uma tabela com 23 acusações frequentes sobre o desempenho do governo na pandemia a 13 ministérios, pedindo respostas para subsidiar a defesa, Carvalho alerta que aquilo é visto como falha é parte de uma estratégia.

"Esse governo é ruim, não tonto. Do ponto de vista da politica, ele é um grande jogador. Quando quer, empurra o debate público para longe do que não quer que seja visto. Por isso, não podemos perder o foco naquilo que ele fez, mais do que no que deixou de fazer. Ele agiu como genocida, foi deliberado", afirma.

Em sua avaliação, Bolsonaro desde cedo abraçou a tese de que o coronavírus deixaria de circular quando uma ampla parcela da população fosse infectada naturalmente.

Carvalho, que é doutor em Saúde Coletiva pela Universidade de Campinas (Unicamp), diz que empresários bolsonaristas e conselheiros, como o ex-ministro Osmar Terra, garantiram que alguns milhares morreriam com isso.

Entretanto, o país ultrapassou os 400 mil óbitos nesta semana. E o número seria ainda maior se Estados e municípios não tivessem batido de frente com o presidente e assumido medidas de isolamento social.

Além disso, há mutações do vírus que podem reinfectar que já se contaminou anteriormente.

"O fato de Bolsonaro não ter usado máscaras, incentivado aglomerações, tachado a pandemia de gripezinha, promovido aquela bobajada de cloroquina e ivermectina, evitado investimento em comunicação preventiva, enfrentado governadores foi para colocar em prática essa tese, mostrando para as pessoas que elas deveriam se expor", afirma.

Carvalho diz que a tese de imunidade de rebanho valeria para doenças benignas, não para uma com alto poder de contágio e letalidade. E que, no ano passado, houve amplo relaxamento quando a primeira onda ficou sob controle.

"Manaus acreditou que havia alcançado a imunidade de rebanho e aconteceu o que aconteceu."

Lista de 23 acusações é pequena e insuficiente

Um senador que adota posição de neutralidade quanto ao governo, e pediu para não se identificar, comentou com a coluna que a lista de 23 acusações é apenas aparentemente extensa.

Ele disse estranhar que algumas coisas ficaram de fora por parte da Casa Civil. E não sabe dizer se isso foi incompetência ou proposital.

Por exemplo, o item 21 traz a seguinte acusação que o governo quer refutar: "O presidente Bolsonaro pressionou Mandetta e Teich [ex-ministro da Saúde] para obrigá-los a defender o uso da hidroxicloroquina".

Contudo, as questões mais duras envolvendo esse tema são outras.

Passa pela distribuição de remédios ineficazes como política pública; a existência de investimento duvidosos para a sua produção, incluindo suspeitas de superfaturamento; e a realização de campanhas promovendo tratamento ineficaz com dinheiro público por parte da Secretaria de Comunicação (Secom) e do Ministério da Saúde sob a gestão Eduardo Pazuello.

Ou o item 9, que afirma que "O Governo demorou a pagar o auxílio-emergencial". Tão duras quanto as críticas sobre a fome causada pelos 96 dias entre Jair Bolsonaro interromper o pagamento do benefício, entre 31 de dezembro, e sua retomada, em 6 de abril, está também o valor do auxílio.

Na primeira onda, ele foi de R$ 600/R$ 1200 por domicílio, o que foi reduzido para R$ 300/R$ 600 quando ela arrefeceu no segundo semestre. Contudo, na segunda onda, mais mortal que a primeira, o valor pago tem sido de R$ 150/R$ 250/R$ 375 por domicílio - o piso é insuficiente para comprar 23% de uma cesta básica em São Paulo, de acordo com o Dieese.

A transferência desses baixos valores, que não garantem que uma família fique em casa com tranquilidade, tem levado o governo a ser acusado de sabotar o isolamento social.

Análise

O estágio civilizatório de uma sociedade é o resultado da análise de tudo o que sobra para ser desenterrado na posteridade. No futuro, quando a arqueologia fizer suas escavações à procura de sinais que ajudem a entender a decadência do Brasil, encontrará em meio aos ossos dos mortos por Covid-19 evidências de que não foram apenas os erros que produziram uma tragédia sanitária no Brasil, mas o modo como o país agiu depois de cometer esses erros.

A pandemia do coronavírus é uma tragédia planetária. No Brasil, o vírus produziria cadáveres em qualquer circunstância. Mas nenhum país chega à marca de mais de 400 mil mortos por acaso. Há método na insanidade brasileira. O país parece ter feito uma opção preferencial pelo erro. Bolsonaro, porém, declarou na terça-feira, em frente ao Palácio da Alvorada: "Eu não errei em nada." Algo de muito errado acontece quando um administrador público acha que está sempre certo.

Para o presidente, a pandemia era uma "gripezinha" que estava no "finzinho". E a segunda onda não passava de "conversinha". Em função desse negacionismo, o Brasil convive com dois flagelos: a escassez de vacinas e o excesso de cloroquina. Imaginou-se que a livre circulação do vírus conduziria à imunidade coletiva. O que se verificou foi o surgimento de uma nova cepa do vírus, mais letal do que a primeira.

A despeito de tudo, Bolsonaro continua desprezando a máscara e enaltecendo a cloroquina. O presidente rejeita a ideia de se vacinar sob holofotes, para dar o exemplo. Com a sinceridade de quem não sabia que estava sendo gravado, o general Luiz Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, disse ter tomado a vacina escondido, tamanho é o receio de desagradar o capitão.

Num ambiente assim, o pior não são os erros que levaram o Brasil à marca dos 400 mil mortos, mas a perspectiva de chegar aos 500 mil cadáveres sem perceber que há um remédio infalível para cada culpa: reconhecê-la.


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