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Domingo 17.out.2021

Ano X - Nº 463

Coluna

Como fugir da realidade e se viciar na vida dos outros

O ‘reality show’ é uma das versões pós-modernas da encenação da vida humana

Postado em 28 de Abril de 2021 - Theresa Hilcar

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Nunca entendi o interesse das pessoas por reality shows. Sou tão alheia ao assunto que levei um susto ao ler que a edição do BBB está no número 21. Ou seja, há 21 anos milhares de brasileiros se postam em frente suas telinhas como espectadores da vida alheia, acompanhando histórias, ensaiadas ou não, de homens e mulheres jovens, com corpos sarados e mentes vazias.

Desde os primórdios da civilização, o ser humano mostra necessidade de representar cenicamente seus dramas pessoais e vicissitudes existenciais. O "reality show" é uma das versões pós-modernas da encenação da vida humana. Tais programas televisivos são o retrato da contemporaneidade. 

Em rápida pesquisa, descubro que alguns analistas da psique humana acreditam que o tal retrato é a revelação da morte do sujeito, perceptível na fugacidade das experiências vividas, na desvalorização da história e no culto à imagem e à superficialidade. 

E o que leva milhões de pessoas se tornarem “viciadas” nestes programas? Em artigo escrito pela psicóloga Marilia Pereira Bueno Millan, intitulado “Reality shows - uma abordagem psicossocial”, encontrei a seguinte análise: “Por meio da sedução do espectador, mobilizam-se aspectos primitivos de seu psiquismo, fazendo com que ele se sinta narcisicamente poderoso e onipotente e se acredite dono do destino dos participantes do programa”. 

Em tempos de Pandemia, o número de telespectadores que já era enorme multiplicou-se. A solidão, o maior tempo livre e a necessidade de se conectar com as pessoas tem aumentado a procura por programas desta natureza, talvez até na esperança de encontrar espelhos. 

O tema me lembra o sociólogo francês, Jean Baudrillard, com quem tive o prazer de conversar durante passagem por Belo Horizonte, em meados dos anos 1990, e suas contundentes críticas à sociedade de consumo e aos "reality shows".  Para ele, a partir do momento em que a TV e as mídias se tornam incapazes de dar conta dos acontecimentos insuportáveis do mundo, descobrem e exploram a banalidade existencial.

Ainda segundo Baudrillard, é possível relacionar tal banalização à quantidade de estimulação sensorial a que somos expostos de maneira ininterrupta, sem oportunidade de processar, elaborar e pensar criticamente sobre o que nosso aparato perceptivo é capaz de absorver. 

Há, então, um empobrecimento do contato com nossa própria subjetividade e a concomitante alienação das experiências cognitivas e afetivo-emocionais. Permanecemos no nível mais superficial da senso-percepção, abdicando das sofisticadas potencialidades de nosso aparato psíquico.

As análises são intelectualmente perfeitas. E modestamente, faço coro a cada argumento usado. No entanto, e num momento de absoluto momento de enfado – ou seria de angústia? -, me vi esta semana diante de um desses programas de reality. 

E ao contrário do confinamento do BBB, o programa americano leva o espectador ao universo hollywoodiano de mulheres lindas, ricas, famosas e consumistas, e atende pelo nome de The Real Housewives of Beverly Hills.

Logo no primeiro episódio fui abduzida pela série. Assisti não a uma, mas a três temporadas (são 10 no total) em menos de três dias. A bem da verdade, a ideia de fugir para um lugar seguro, sem o vírus da doença, das perdas e da indiferença, nunca foi tão interessante e sedutora como agora. 

Para escapar da dura realidade brasileira, onde tudo parece ficção de má qualidade, vale até uma imersão na sofisticada – e às vezes dramática - rotina das belas donas de casa de Beverly Hills. Como não é possível fugir indefinidamente, tenho que voltar o quanto antes ao rés do chão. E por mais difícil que seja, vou sair do sofá e desligar o canal. Porque como qualquer droga isto também vicia!


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