Semana On

Domingo 17.out.2021

Ano X - Nº 463

Coluna

Nomadland

Entre a distopia e a utopia, a solidariedade a caminho

Postado em 28 de Abril de 2021 - Túlio Batista Franco

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Nomadland, ganhador do Oscar de 2020, conta com apenas dois atores profissionais, Frances McDormand (Fern) e David Strathairn (Davi), o restante são pessoas da via real, vivendo a narrativa de vidas precárias, idosos vivendo nos EUA, desprovidos de teto, emprego e renda. Nômades, moram em trailers e motorhomes. Trabalham eventualmente em atividades temporárias na agricultura, e serviços como a Amazon. Esta, a marca mais valiosa do mundo paga míseros dinheiros a idosos em busca de trabalho. A história contada pela premiada diretora chinesa Chloé Zhao, tem a cara, o som, a textura e gosto ácido, distópico, de um futuro que chegou, trazendo a barbárie capitalista, em corpos vulnerados, desprotegidos. Nesse tempo e lugar, a vida é vivida a cada dia. E assim dá passagem às existências.

É também um filme sobre a solidariedade. Estes corpos encontram potência neles mesmos e em suas memórias, atualizadas para o tempo presente.  Não carrega com ele o fim do sonho, a desesperança, mas uma vida governada por quem a vive, mesmo que a expectativa seja viver até o amanhã, e assim sucessivamente, um dia depois do outro. É sobre o fim de uma vida, e invenção de outra que se navega em fluxo. Vidas nômades. As longas cenas de estradas entre montanhas, o vermelho-azul do céu, e o deserto, retratam a solidão, e ao mesmo tempo abrigam os bons encontros, lembrança dos que já se foram.

Razões e desrazões marcam a experiência de ser alguém que guarda em si pensamentos e afetos de uma vida inteira, poderiam explicar que, embora silenciosos às vezes, reflexivos outras, as linhas de tristeza entrecruzam-se com as de alegria, dando potência aos corpos. As memórias presentificadas, vidas em fluxo, afetos amorosos, alimentam os encontros. “Lar é só uma palavra ou algo que você carrega com você?” Uma pergunta que é afirmação, feita pela “boa e velha amiga, Linda May” na mesa do refeitório da Amazon, quando está com Fern e o grupo de pessoas que ali trabalha. O território somos nós. Que força!

Os poucos metros quadrados de um trailer, onde estes corpos encontram abrigo, é para eles, um espaço de liberdade. Uma retroalimentação de energia, força e alegria que vem da amizade, solidariedade e generosidade, e vão se fazendo como linhas curvas que dão suporte ao fluxo das vidas.

Há um movimento por direitos, que ganha expressão quando as pessoas se encontram, elas e seus motores em eventos de intercâmbio. Junto a um contexto árido de produção da vida, a história é entrecortada por belas imagens, que exploram o estar na natureza, quebrando a suposta solidão, porque a natureza é a outra do encontro permanente de si. A estrada, o campo, a montanha, as pedras. O corpo nu sobre a água que escorre na cachoeira. O paradoxo da existência entre a crueza da barbárie, a doçura da solidariedade, a liberdade que marca estas vidas.

Memórias de um tempo, de relações, afetos: _ “O que é lembrado, vive”, disse Fern. É da lembrança de suas aulas que surge uma criança a lhe declamar um fragmento de Macbeth, do Shakespeare: _ “Amanhã, e amanhã, e amanhã e todos os nossos ontens iluminaram para os tolos o caminho até a morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve”. Independente da barbárie capitalista, há a força da solidariedade, os afetos amorosos, existências que se produzem nos fluxos da vida.

“Cambia, todo cambia”: Mercedes Sosa.

Niterói, 29.04.2021


Voltar


Comente sobre essa publicação...