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Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Governo Bolsonaro afirma que ampliará agenda ultraconservadora pelo mundo

Secretária de Família do governo afirmou a parceiros internacionais que as autoridades em Brasília estão comprometidas ao combate do que chama de ‘ideologia de gênero’

Postado em 23 de Abril de 2021 - Jamil Chade - UOL

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Ângela Gandra, secretária de Família do governo de Jair Bolsonaro, afirmou a parceiros internacionais que as autoridades em Brasília estão comprometidas em expandir a agenda ultraconservadora pelo mundo, levando as pautas antiaborto e de combate ao que chamam de "ideologia de gênero" para novas organizações internacionais.

A informação foi dada pela secretária em um evento no dia 12 de março, no qual participaram também entidades americanas que apoiavam o governo de Donald Trump, movimentos ligados a grupos religiosos e mesmo partidos xenófobos, como o espanhol Vox.

Reportagem publicada pelo UOL revelou a participação do governo brasileiro no encontro e o programa apresentado pela secretária, o que levou entidades do movimento LGBTI+ a denunciá-la e pedir esclarecimentos. Após a publicação, os vídeos com as intervenções de representantes de governos e das entidades foram retirados do ar.

"Ideologia de gênero" é um conceito pejorativo usado pelo campo ultraconservador, muitas vezes ligado ao fundamentalismo religioso, contra os avanços nos direitos sexuais e reprodutivos e na igualdade de gênero, em especial a população LGBTQIA+. Defensores da moral costumam se referir à "ideologia de gênero" como ameaça à sociedade, posicionam-se contrários ao direito ao aborto e usam o conceito de "família" para impor uma agenda que, na realidade, tolhe direitos de quem não se alinha a esse posicionamento conservador.

Ao destacar o compromisso do governo Bolsonaro sobre o tema, a secretária garantiu que as autoridades não se limitarão a implementar as medidas no âmbito doméstico. "Vamos levar para a OEA (Organização dos Estados Americanos) e para a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), em seu tempo", disse Ângela Gandra.

Até agora, a pauta ultraconservadora do governo havia se concentrado em atuações na ONU e na OMS. No caso da OEA, a missão brasileira passará a ser chefiada pelo braço direito do ex-chanceler Ernesto Araújo, Otávio Brandelli.

No caso da OCDE, o Brasil sequer faz parte e uma adesão do país ao organismo deve levar pelo menos mais dois anos para ocorrer.

Fontes no Itamaraty confirmaram que, apesar da mudança na postura do novo chanceler, Carlos França, em relação aos temas relacionados com a China e o clima, a pauta de costumes não deve ser tocada.

De acordo com a secretária, de fato, programas sobre a "primeira infância, desde concepção" seriam reforçados na agenda internacional, além de o "combate à ideologia de gênero".

O evento no qual a brasileira explicou seu plano era um seminário virtual intitulado "Uma resposta política à 'ideologia de gênero'", promovido pela organização internacional "Polítical Network for Values", uma plataforma de representantes políticos que defende valores como "a proteção da vida humana, o casamento, a família, a liberdade religiosa e de consciência".

No ano passado, ao lado do governo de Donald Trump, o Brasil fez parte de uma iniciativa para frear qualquer expansão da questão de educação sexual na agenda internacional. O projeto ficou conhecido como Consenso de Genebra.

Com a derrota de Trump, Joe Biden anunciou no primeiro dia de seu mandato que estava retirando os EUA da pauta ultraconservadora. Mas, em emails internos, a administração americana indicava aos demais países que o projeto seria mantido e que a condução seria liderada a partir de agora pelo Brasil.

De acordo com os emails, foi o próprio governo brasileiro que se colocou à disposição para liderar o projeto.

"Estamos firmes no Consenso de Genebra, estamos recebendo mais demandas de países que querem estar conosco", disse a secretária, há um mês.

Ao terminar sua participação, a brasileira ainda ouviu um elogio da mediadora do evento, que indicava que "agora é muito importante a liderança do Brasil" e o papel que o país assume nos organismos internacionais.


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