Semana On

Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Especial

Promessas vazias

Teoria e prática entram em choque no discurso de Bolsonaro sobre o meio ambiente

Postado em 23 de Abril de 2021 - DW, Kennedy Alencar, Jamil Chade, Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Bolsonaro revelou na abertura da Cúpula do Clima uma insuspeitada preocupação com o meio ambiente. Cioso da necessidade de refrear o aquecimento global, antecipou em dez anos —de 2060 para 2050— a meta assumida pelo Brasil de zerar as emissões de gases do efeito estufa. Bolsonaro expressou-se em timbre respeitoso, ponderado e conciliador. Ou seja: estava completamente fora de si.

A fala de Bolsonaro seria perfeita como discurso de posse. Decorridos dois anos e quatro meses de mandato, o pronunciamento não fica em pé, pois a prática de Bolsonaro desqualifica as promessas de Bolsonaro. Até aqui, o capitão assegurava que não havia problemas ambientais no Brasil. Quando questionado sobre queimadas e recordes de desmatamento retirava culpados do bolso do paletó.

Para Bolsonaro, tudo não passava de um complô do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) com ONGs, mancomunadas com a mídia comunista; com os governos da Noruega e da Alemanha, que escondiam segundas intenções atrás de doações bilionárias para o Fundo Amazônia; e com líderes como francês Emmanoel Macron que, além de não ter competência para arrumar uma mulher bonita, tramava contra a soberania do Brasil na floresta. Isso não tinha como acabar bem.

Desde 1992, quando sediou a Eco-92, o Brasil recebia tratamento de potência ambiental. Perdeu prestígio. A Casa Branca acomodou Bolsonaro numa constrangedora 19ª posição na fila de oradores. O anfitrião Joe Biden cuidou de ausentar-se da videoconferência minutos antes da manifestação do capitão. Para bom entendedor, uma fugidinha basta.

Escorando-se em conquistas de governos que abomina, Bolsonaro declarou que o Brasil posicionou-se na "vanguarda do enfrentamento ao aquecimento global". E estendeu o chapéu: "É preciso haver justa remuneração pelos serviços ambientais prestados por nossos biomas ao planeta", ele disse. "Estamos abertos à cooperação internacional."

A diplomacia americana considerou bom, muito bom, excelente o posicionamento dessa versão inédita de Bolsonaro que estreou na Cúpula do Clima. A Casa Branca celebra a perspectiva de verificar os resultados práticos que o novo presidente do Brasil será capaz de apresentar —não em 2050, na meta de emissão de gases, mas no final deste ano de 2021, nas taxas de desmatamento da floresta amazônica.

Desde sua chegada ao Planalto, além de questionar dados científicos do Inpe, Bolsonaro avalizou o esvaziamento da máquina ambiental, desautorizou fiscais do Ibama, rasgou bilhões em doações internacionais, proibiu novas demarcações de terras indígenas, guerreou pela legalização de garimpos e madeireiras ilegais... Há poucos dias, mandou afastar da chefia da Polícia Federal no Amazonas o delegado que denunciou seu ministro do Meio Ambiente por defender criminosos pilhados na maior apreensão de madeira ilegal da história.

Nada como um passado como esse para desacreditar o futuro. Do modo como se expressou, Bolsonaro quis fazer crer que a proteção absoluta do meio ambiente no Brasil está ali, na esquina, radiosa, bem palpável, não apenas na retórica. O problema é que o futuro é um espaço muito impreciso, que qualquer um pode vender para si mesmo ou para outros crédulos. No futuro de Bolsonaro, cabem todos e tudo. Natural, pois o futuro não pode ser cobrado ou conferido.

O problema é que, para obter recursos internacionais, o presidente brasileiro precisaria responder a duas indagações singelas: Que fim levaram os anos de 2019 e 2020, futuro da campanha presidencial de 2018. O futuro, como se sabe, a Deus pertence. Mas os líderes mundiais e a plateia nacional se perguntam: a quem pertence o desastre ambiental ocorrido no Brasil nos últimos dois anos? Se retornasse à Terra, Jesus se apressaria em encarecer: "Incluam o Pai fora dessa!"

Com Biden ausente, Bolsonaro não desfaz desconfianças internacionais

A comunidade internacional recebeu com hesitação o discurso do presidente Jair Bolsonaro, apesar de reconhecer que existem sinalizações claras de que o Palácio do Planalto sabe que está sob pressão e que não havia mais espaço para acusações contra governos estrangeiros.

Entre os pontos positivos, diplomatas envolvidos nas negociações climáticas destacaram a decisão de Bolsonaro de antecipar em dez anos a neutralidade de carbono no Brasil, para 2050. Além disso, ele prometeu zerar desmatamento ilegal até 2030 e dobrar orçamento para fiscalização e monitoramento. Também foi recebida com uma certa dose de alívio a decisão do presidente de não fazer acusações contra líderes de outros países.

Para organizadores da COP 26, no final do ano, Bolsonaro sinaliza que está disposto a negociar, ou pelo menos evitar um isolamento ainda maior. Diplomatas americanos também comemoraram de forma contida o tom do brasileiro, acreditando que se trate de uma brecha que poderá ser aproveitada. "Mas a hesitação ocorre por conta da dificuldade em levar Bolsonaro a sério", alertou um negociador.

Segundo fontes diplomáticas, o que foi dito ainda não é suficiente. O Brasil não deu sinais e nem detalhes sobre o que pretende fazer para atingir as metas sinalizadas. O que governos e agências internacionais insistem é que, a partir de agora, o Planalto terá de "provar" que não se trata apenas de mais um discurso.

"A "prova" não será num próximo discurso. Mas em dados mensais de desmatamento, que serão acompanhados de perto", alertou um negociador europeu.

Um dos temores de capitais europeias e mesmo na ONU é de que o desmatamento ilegal não seja erradicado, como prometido. Mas que áreas para que isso ocorra sejam ampliadas e regras flexibilizadas.

Quanto à promessa de aumentar recursos, o que entidades querem saber é o que isso representa em termos aos volumes de financiamento dessas mesmas agências. Na ONU, relatorias denunciam o fato de que, nos últimos dois anos, Bolsonaro desmantelou sistemas de fiscalização, cortando recursos de forma ampla.

Lugar sem prestígio

O lugar da participação de Bolsonaro na cúpula também foi alvo de comentários. Se por anos o país era um dos líderes no debate e um dos primeiros a falar nas reuniões, desta vez Bolsonaro ficou em uma posição intermediária na fila, atrás mesmo da Argentina e outros países emergentes.

A lista de oradores, sempre um ponto crítico no protocolo diplomático, começou com o anfitrião Biden, seguido imediatamente por Xi Jinping, líder chinês. França, Rússia, Alemanha, Itália, Ilhas Marshall, Bangladesh, Indonésia, Reino Unido, África de Sul e outros tomaram o microfone antes do Brasil.

Biden sequer estava na sala quando Bolsonaro falou. Naquele momento, ele havia ido para o Salão Oval, receber informações sobre inteligência. O presidente americano voltaria para outras sessões do debate.

Reações ao discurso

"Sabemos que essa retórica é uma mentira. O projeto de morte e destruição de Bolsonaro continua o mesmo: retirada de nossos direitos, legalização de crimes socioambientais e a descontinuidade das políticas de proteção à floresta amazônica. Até agora não houve sequer um diálogo desse governo com os povos indígenas para enfrentamento às invasões de nossas terras, por isso é legítimo o nosso pedido de um canal direto com o governo norte-americano para assuntos ligados à Amazônia brasileira. É fundamental que o presidente Joe Biden estabeleça um diálogo junto ao governo brasileiro com bases na garantia da preservação da vida e da biodiversidade do planeta em contraponto ao fortalecimento de políticas anti-indígenas", Sonia Guajajara, coordenadora executiva da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil).

"O Brasil sai da cúpula dos líderes como entrou: desacreditado. Bolsonaro passou metade de sua fala pedindo ao mundo dinheiro por conquistas ambientais anteriores, que seu governo tenta há dois anos destruir. Não seriam três minutos de discurso numa videoconferência que poderiam reverter isso. O fato é que ninguém mais acredita em Bolsonaro. O atual governo completou com louvor o Projeto Pária, alijando o Brasil de uma agenda na qual um dia fomos protagonistas e que deveríamos liderar", diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

"Só o fato de Bolsonaro ter sido convidado foi um aspecto interessante", disse Astrini. "Porque ele sequer merecia o convite", afirmou, lembrando que Biden já tinha deixado a conferência quando Bolsonaro finalmente fez seu discurso. "O fato de Bolsonaro ter falado em desmatamento zero foi um absurdo. Em seus dois anos de mandato, o desmatamento aumentou 47% sem ter havido controle algum. A Amazônia foi entregue aos criminosos ambientais”.

Astrini classificou o anúncio de que a fiscalização contra o desmatamento será intensificada de "uma vergonha". Ele lembrou que funcionários do Ibama acusaram o governo de conivência com madeireiros ilegais. Além disso, o governo o órgão de emitir multas desde outubro de 2019. "Bolsonaro fez o que sempre na cúpula do clima, ele mentiu e pediu dinheiro", acusou Astrini, acrescentando que o governo Bolsonaro até agora nada fez para salvar o clima.

"Bolsonaro não respeita seu próprio povo e nosso direito ao território. Sob seu governo, o reconhecimento de comunidades quilombolas caiu ao menor patamar da história. Para nós, sua palavra não tem valor algum e a pandemia nos mostrou seu lado mais sombrio. Seu governo negou aos povos indígenas e comunidades quilombolas o acesso universal à água potável. Este é Bolsonaro e qualquer acordo com ele está fadado ao fracasso", declarou Biko Rodrigues, articulador nacional da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas).

"É preciso que os grandes chefes de Estado entendam que a Amazônia é a casa de milhares de povos e comunidades tradicionais. Somente é possível cuidar da floresta reconhecendo e valorizando seus verdadeiros guardiões. A grande ignorância por parte do governo Bolsonaro é não reconhecer que a gestão da Floresta Amazônica não cabe somente ao governo, mas a todos os cidadãos e, principalmente, aos povos e comunidades tradicionais, que são partes dessa floresta e mantêm viva e pulsante. Por isso, é que precisamos ser ouvidos e participar das discussões sobre o futuro da Amazônia", afirma Joaquim Belo, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas.

"O Presidente Bolsonaro mais uma vez fez um discurso que não condiz com a realidade de seu governo. Desde o 1o dia de seu mandato, seu governo tem se esforçado para destruir as políticas de proteção socioambientais, adotando falas racistas que incentivam a violência contra povos originários, quilombolas e outras populações ribeirinhas e das florestas, reconhecidamente os principais defensores das florestas. É preciso lembrar que durante seu governo, tivemos desmatamento e queimadas em níveis históricos, projetos de lei que colocam em risco a própria sobrevivência desses povos e da democracia, como os PLs que alteram a legislação de licenciamento ambiental e as que permitem atividades empresariais como a mineração em terras indígenas, o que tem demonstrado o racismo climático como forma de atuar de seu governo. Suas políticas e falas, ao contrário do afirmado hoje, tem agravando a crise climática ainda mais", disse Julia Neiva, da entidade Conectas Direitos Humanos.

Sergio Leitão, da organização ambientalista Instituto Escolhas, disse em entrevista à agência de notícias alemã KNA que o Brasil perdeu a chance de se livrar de sua imagem ruim nas questões ambientais. Ele ressaltou que, por um lado, Bolsonaro "não anunciou uma única medida concreta"; e por outro, não disse "como o pouco que prometeu poderá ser ser alcançado".

A organização de direitos humanos Human Rights Watch (HRW) denunciou o que chamou de "promessas vazias" de Bolsonaro, lembrando que "seu governo sabotou as agências ambientais, acusou sem provas organização da sociedade civil de crimes ambientais e enfraqueceu os direitos dos povos indígenas".

"Essas políticas têm contribuído para o aumento das taxas de desmatamento na Amazônia brasileira, um ecossistema vital para conter as mudanças climáticas", afirma a HRW, em comunicado.

"O problema é que ele tem zero credibilidade e o mundo sabe de sua ação sabotando a capacidade do Brasil de atingir essas metas", alertou Daniel Wilkinson, um dos representantes da entidade.

O Greenpeace reclama que o presidente apresentou "metas impossíveis de serem cumpridas pela sua política de destruição" e que, em sua fala, "como de costume, o presidente voltou a apresentar promessas vazias e contrárias a tudo que seu governo tem feito, enquanto colhemos os amargos frutos de sua política antiambiental".

O comunicado divulgado pela entidade destaca também que Bolsonaro "passou boa parte do tempo se vangloriando da posição de liderança do Brasil no debate ambiental por conquistas no passado e, pelo jeito, se esqueceu em falar o que aconteceu desde que assumiu o poder". A organização cita "o aumento do desmatamento e queimadas, o desmonte dos órgãos ambientais, a perseguição dos ativistas".

Mentiras

A exemplo do que fez na ONU em setembro passado, Bolsonaro voltou a mentir num palco internacional ao afirmar que determinou "o fortalecimento dos órgãos ambientais". Ele também fez promessas que não serão levadas a sério diante do histórico de destruição do Meio Ambiente patrocinado por seu governo.

Trocando em miúdos, as verdades ditas por Bolsonaro, como lembrar avanços do Brasil na preservação ambiental "nos últimos 15 anos" e mencionar o programa de biocombustíveis, são méritos de governos anteriores (administrações petistas, basicamente). As mentiras, como afirmar que o governo está na "vanguarda global" da proteção ao Meio Ambiente quando o desmatamento da Amazônia bate recordes, são obras de Bolsonaro.

A fala defensiva e mentirosa foi um recibo de que ele sentiu o peso do isolamento internacional construído por um governo de destruição da política externa, do meio ambiente, da saúde pública, dos direitos humanos e por aí vai.

Como levar a sério a promessa de Bolsonaro de que se empenhará para acabar com o desmatamento até 2030 se ele e o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) fazem exatamente o contrário?

Bolsonaro e Salles destruíram as áreas de fiscalização do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais). O ministro do Meio Ambiente prometeu passar a boiada faz um ano e não aconteceu nada para impedir a meta de destruição ambiental assumida numa reunião ministerial.

Como sempre acontece, haverá análises de que Bolsonaro mudou o tom, suavizou, pode mudar de rumo, talvez haja um ponto de inflexão porque prometeu aqui e acolá, talvez possa mudar agora que a pressão aumentou etc. Já se viu o que ele fez na pandemia, não?

Não só o Brasil, mas o mundo inteiro está careca de saber que Bolsonaro é pura conversa fiada. Ele dizer que vai proteger o meio ambiente é tão verdadeiro quanto uma nota de três reais. Biden, por exemplo, decidiu sair da conferência na hora do discurso do presidente brasileiro, um gesto de desprezo para dar recado globalmente.

Mas vamos ser justos. No meio ambiente, Bolsonaro prometeu o que está entregando: terra arrasada e porteira aberta para criminosos ambientais.

A melhor maneira de voltar a preservar o meio ambiente no Brasil é tirar Bolsonaro e Salles do poder. Devido à omissão das autoridades que podem contribuir para isso, a tarefa vai ficar mesmo a cargo do eleitor no ano que vem.

Bolsonaro ameaçou Biden com pólvora, mas só mostrou cinzas da Amazônia

A Cúpula de Líderes sobre o Clima seria a primeira vez em que Jair Bolsonaro encontraria, mesmo que virtualmente, Joe Biden, presidente dos Estados Unidos. Caso o presidente norte-americano tivesse assistido ao discurso do presidente brasileiro, poderia cobrar de Bolsonaro que repetisse o que disse, em novembro passado, quando ameaçou mostrar sua "pólvora" para o norte-americano. Mas não vai, pois o único pó escuro que tem para mostrar são cinzas e fuligem.

"Assistimos há pouco a um grande candidato à chefia de Estado dizer que, se eu não apagar o fogo da Amazônia, levanta barreiras comerciais contra o Brasil. E como é que podemos fazer frente a tudo isso? Apenas a diplomacia não dá, não é, Ernesto [Araújo, demitido por fazer muita porcaria]? Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona", disse o presidente em uma ameaça que causou vergonha alheia transnacional.

Biden havia afirmado, em um debate eleitoral com Donald Trump, que o Brasil poderia sofrer consequências econômicas significativas caso não parasse de destruir a floresta. O que nem era uma previsão, mas uma constatação, uma vez fundos de investimento já estavam tirando dinheiro do país por conta do nível acelerado de destruição da região.

Insatisfeito com a meta de vergonha alcançada na primeira declaração, Bolsonaro resolveu dobrar a meta e deu outra declaração.

"Ele [Biden] está querendo, parece, romper o relacionamento com o Brasil por conta da Amazônia. Sabemos que alguns países do mundo têm interesse na Amazônia. E nós temos que fazer o quê? Dissuadi-los disso. E como você faz a dissuasão disso? Ter Forças Armadas preparadas", afirmou.

O presidente sabe que nem os EUA, nem ninguém vai invadir a Amazônia, mas aproveitou a declaração de Biden para excitar seguidores de extrema direita e desviar o foco da responsabilidade sobre os impactos causados por suas ações na região, além de justificar um aumento no repasse de recursos às Forças Armadas, que ele vê como "meu Exército" particular.

"Por que se um dia algum país, alguma potência, resolver fazer uma besteira contra o Brasil, a gente vai fazer o quê? Vai fazer o quê? Vai ficar quieto, né? E daí? Vai fazer o quê? Vai meter o rabo entre as pernas?", questionou.

O mais irônico é que essa retórica do presidente não sobrevive a uma análise do seu próprio histórico. Verás que um filho teu não foge à luta? Difícil acreditar que o verso do Hino Nacional se aplique a ele se até de debate eleitoral fugiu, mesmo com os médicos garantindo que tinha condições de participar no segundo turno de 2018.

O Brasil sempre garantiu o respeito à sua soberania junto à comunidade internacional através do diálogo realizado por uma diplomacia independente e respeitada e pela demonstração de boa vontade representada através de compromissos internacionais. Durante a gestão Bolsonaro, contudo, nossa diplomacia passou a ser vista como vassala não dos Estados Unidos, mas especificamente de Trump. Também passamos a ser considerados párias ambientais e vilões da mudança climática e uma ameaça sanitária global por causa do descontrole do coronavírus.

Bolsonaro não chamará Biden para a chincha. Vai tentar distensionar e apagar a má impressão inicial. O Tio Sam também está nessa toada, por interesses geopolíticos e comerciais.

Bolsonaro levou um pacote de mentiras para entregar aos colegas. Como a de que vem combatendo firmemente o desmatamento, quando, na verdade, foi responsável pelo enfraquecimento da fiscalização, a desregulamentação das regras ambientais e a sensação de liberdade total por madeireiros, garimpeiros e pecuaristas que operam de forma ilegal.

E, se não a pólvora, levou outro pó escuro para a reunião.

O cenário de fantasia narrado pelo presidente brasileiro está construído sobre uma montanha de cinzas de árvores e de fuligem que cai do céu das cidades trazida da Amazônia pelo vento. Mesmo por teleconferência, não tem como Bolsonaro não cheirar queimado.

Nome do desastre ambiental do Brasil é Bolsonaro, Salles é apenas o apelido

O maior erro que se pode cometer na área ambiental é atribuir a Ricardo Salles toda a responsabilidade pela ruína ambiental que produziu nos dois primeiros anos do atual governo as mais altas taxas de desmatamento na Amazônia Legal desde 2008. Salles é mero coadjuvante, um vaqueiro que passa os bois. Bolsonaro é o protagonista, o dono da boiada.

O Ministério do Meio Ambiente é um dos que receberam o selo de ideológico que transforma pedaços da Esplanada em puxadinhos do Planalto. Nessa pasta, o capitão esgrimiu basicamente as mesmas ideias que manejou durante quase três décadas vida parlamentar. Com uma diferença: Na Câmara, Bolsonaro discursava para as paredes. No Planalto, arruinou em dois anos a boa imagem internacional que o país levou 29 anos para construir.

Com altos e baixos, o Brasil vinha conquistando uma imagem de mocinho ambiental desde a Eco-92, a conferência mundial das Nações Unidas sobre meio ambiente que o Rio de Janeiro sediou. Sob Bolsonaro, tornou-se rapidamente um vilão planetário.

Herança Maldita

É comum que presidentes da República sejam acusados pelos sucessores de deixar um legado amaldiçoado. Bolsonaro inovou. Em apenas 28 meses, produziu uma herança maldita para si mesmo. Agora, pressionado por uma conjuntura adversa que foi potencializada pela derrota de Donald Trump nos Estados Unidos, o capitão promove no setor ambiental o mesmo cavalo de pau retórico que executou na crise sanitária.

O problema é que, a exemplo do que sucede na pandemia, o novo discurso sobre Meio Ambiente tende a imunizar o governo Bolsonaro contra as críticas com a mesma taxa de eficácia da cloroquina no tratamento contra a covid-19. O que o mundo espera do governo brasileiro no momento é um bom lote de resultados práticos, não o plano caça-níquel redigido em cima do joelho para obter $ocorro internacional.

Há propostas que são tão inovadoras que só serão devidamente compreendidas daqui a um século. Não é o caso das teses de Bolsonaro para o Meio Ambiente. Estas só podem ser perfeitamente entendidas no século passado. Algumas foram camufladas sob terminologia moderna. Por exemplo: "Bioeconomia".

Para ambientalistas respeitados, a bioeconomia é a exploração responsável da biodiversidade amazônica para levar desenvolvimento econômico à região. Para Bolsonaro e seu preposto no Meio Ambiente, significa favorecer madeireiros e garimpeiros que trafegam à margem da lei. Tramita no Congresso projeto enviado por Bolsonaro para regulamentar a mineração e a pecuária em terras indígenas.

Retórica destoa da Prática

Bolsonaro agora fala em intensificar operações de fiscalização e controle ambiental. Algo que não orna com a desmontagem que seu governo promoveu em órgãos como Ibama e ICMBio. Tampouco combina com a advocacia administrativa que Ricardo Salles realizou em benefício de madeireiros pilhados na maior apreensão de madeira ilegal da história. Está em desarmonia também com portaria editada sob Salles para submeter multas lavradas por fiscais do Ibama à censura dos chefes.

A prática ambiental do governo harmoniza-se perfeitamente com os compromissos assumidos com deputados e senadores da bancada ruralista. Bolsonaro recebeu-os para um café da manhã em julho de 2019. Fez a seguinte saudação: "Ao longo de 28 anos dentro da Câmara eu acompanhei e, mais do que isso, eu acredito que votei 100% com a bancada ruralista. Muitas vezes as questões nasciam ali como se fossem um parto de rinoceronte: era imprensa batendo em vocês, eram ONGS e eram também governos de outros países."

Bolsonaro afirmou aos comensais que o Brasil errou muito na área ambiental, pois "foi deixando acontecer" a criação de reservas indígenas e de unidades de conservação ambiental. Já naquela época, pronunciou uma frase que se revelaria uma variante precoce do célebre enunciado de Salles sobre a conveniência de aproveitar a pandemia para ir passando a boiada. Disse Bolsonaro no desjejum de 2019: "Nós temos que não fazer. Primeiramente, é desfazer o que foi feito para depois fazer." Muito já foi desfeito. Há muito por fazer.

O capitão informa ao mundo que precisa de $ocorro. Esclarece que um naco do dinheiro que espera receber será usado num programa de regularização fundiária (pode me chamar de legalização de terras griladas, inclusive em reservas indígenas).

Elogio à matança de índios

Vale a pena atrasar o relógio para ouvir um discurso que o deputado Jair Bolsonaro pronunciou na Câmara em novembro de 1992. O então presidente Fernando Collor acabara de formalizar a reserva indígena Ianomâmi. E o capitão: "...Com a indústria da demarcação das terras indígenas, assim como Quebec quase se separou do Canadá, num curto espaço de tempo, os Yanomamis poderão, com o auxílio dos Estados Unidos, vir a se separar do Brasil."

Dois anos e cinco meses depois, em abril de 1998 Bolsonaro discursou assim na Câmara: "A cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema em seu país. Se bem que não prego que façam a mesma coisa com o índio brasileiro."

Um personagem assim precisaria virar-se do avesso para que suas promessas de realizar um governo ambientalmente responsável fossem levadas a sério. Teria de nascer de novo para obter dinheiro estrangeiro para seus projetos.

Ricardo Salles diz ser possível reduzir o desmatamento no Brasil em até 40% se os Estados Unidos e outras nações estrangeiras repassarem para o governo Bolsonaro US$ 1 bilhão. Em declaração feita à BBC, o ministro Norueguês do Meio Ambiente, Sveinung Rotevatn, foi ao ponto:

"A Noruega e outros países enfatizaram em conversas recentes com o Brasil que a comunidade internacional está preparada para aumentar o financiamento ao Brasil assim que o Brasil apresentar resultados na redução do desmatamento. Diminuir o desmatamento no curto prazo é uma questão de vontade política, não de falta de financiamento adiantado."

A Noruega era responsável por 90% das doações bilionárias que financiavam o Fundo Amazônia, gerido pelo BNDES. Bolsonaro e Salles implodiram o fundo. Enxergavam nele um ninho de ONGs. Afugentaram os doadores. Agora, passam o pires.


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