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Terça-Feira 15.jun.2021

Ano IX - Nº 447

Coluna

Turismo de isolamento combina trabalho e férias distante de casa

Temporada em imóveis alugados é opção para se manter em segurança na pandemia e aliviar a mente. Ideia não é passear no destino

Postado em 21 de Abril de 2021 - Nathalia Molina - Estadão

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Foi viajar para dar um tempo: era como se dizia antigamente sobre a pessoa que, cansada da rotina, tinha ganhado a estrada – e até o mundo. Atualmente, por causa da situação crítica em que se encontra o Brasil em relação à covid-19, o máximo que se pode fazer é planejar o futuro. Sem desbravar destinos, explicam os especialistas, a gente ajuda a diminuir os números da pandemia e tem a vida (e as viagens) de volta o quanto antes. Até lá, dar um tempo só se for com a gente mesmo, em turismo de isolamento.

“Isso pode ser seguro sim. Posso me transferir de um grande centro populacional para um lugar onde o distanciamento social é naturalmente mais fácil. É uma opção interessante para quem tem condições, e até recomendável para a pessoa não pirar, mas desde que tomadas algumas precauções importantes”, afirma Fernando Aith, professor titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP). “Casa alugada é mais seguro do que hotel ou pousada porque você tem domínio de quem está entrando e não é obrigado a cruzar com mais pessoas.”

Segundo Aith, é indicado levar produtos de limpeza de casa. “Mas a carga viral nos ambientes vai diminuindo em 72 horas. Já sabemos que o maior problema da contaminação é pelo ar, no contato com os outros.” O aluguel de imóveis onde se possa estar na natureza, mantendo o distanciamento, passa a ser uma opção em tempos em que a interação entre seres humanos é proibitiva. Enquanto a vacinação em massa não ocorrer no Brasil, o que infelizmente é esperado, na melhor das hipóteses, só para o segundo semestre de 2021, casas no litoral ou no campo surgem como alternativa para um turismo de isolamento.

Diante desse cenário e da possibilidade de trabalho remoto, Guilherme Finotti saiu da capital paulista e alugou uma casinha na cidade mineira de Gonçalves há pouco mais de um mês. “Hoje tem uma infraestrutura que não existia, e a chegada do 5G vai mudar radicalmente a nossa relação com o campo”, afirma o advogado, que atua como mediador na área jurídica. “Como viajo muito, a minha ideia é ter uma base em um lugar onde eu goste de estar e usar o Airbnb quando for a São Paulo ou para passar uma semana na praia, em Ubatuba.”

Ele conta que, antes da pandemia, não via isso ocorrendo a curto ou médio prazo. “A minha profissão em particular exige um contato humano, não só analítico. Houve a necessidade de adaptação, e a gente percebeu que dá para fazer isso sem perder qualidade. Em um ano, foram mais de 10 mil reuniões na empresa onde trabalho. Isso foi crucial para me dar segurança”, conta.

Workcation ou flexcation: trabalho e férias juntos

Na era da covid, tudo muda em uma velocidade espantosa. No entanto, assim como o trio composto por máscara, álcool em gel e distanciamento social, o conceito de anywhere office parece ter vindo para ficar. O escritório, que na expressão em inglês era atrelado ao espaço físico de casa (home office), agora pode ser realizado de qualquer lugar com conexão à internet. Dessa tendência, nasceram variações específicas para o turismo, que juntam vacation (férias) com work (trabalho) ou flex (flexível): workcation e flexcation.

De acordo com levantamento da Booking.com, dois em cada cinco (44%) brasileiros estão interessados em combinar trabalho com férias, e quase metade (47%) fez isso ao menos uma vez em 2020. A pesquisa online foi realizada em novembro com 47.728 pessoas em 28 países, sendo quase 2 mil do Brasil. Enquanto a praia é o lugar predileto para workcation para 63% dos brasileiros, 56% desejam ficar em um lugar de natureza onde possam ir a parques. A acomodação divide opiniões: 22% escolhem hotéis e pousadas; 22%, resorts; e 21%, apartamentos, casas ou vilas.

No meio de 2020, a professora Helena Costa alugou por duas semanas uma chácara perto de Brasília, na região rural de Paranoá, para curtir as férias dos filhos, Clarice e Eduardo, hoje com 5 e 2 anos, respectivamente. “A gente teve de esperar porque as casas estavam sempre com muita demanda. As crianças correram soltas. Só o fato de ter mais espaço... A gente olhava a imensidão do cerrado, fazia geleia das frutas do pomar”, diz a coordenadora do Laboratório de Estudos de Turismo e Sustentabilidade da Universidade de Brasília (Lets/UNB).

“Nem todo mundo precisa sequer estar de férias. Bruno, meu marido, conseguia ir trabalhar porque dá em média meia hora de carro.” A experiência rendeu pinturas feitas por Helena, que voltou com a família em setembro para mais três semanas. “As donas da casa têm duas aquarelas minhas na parede.” Atualmente, como o contexto da covid no Brasil mudou drasticamente, Helena diz que a situação exige cuidados incomparavelmente maiores e pede que não se viaje no momento. “Temos de ter nossa parcela de responsabilidade.” A coordenadora do Lets/UNB, no entanto, acredita que muitas pessoas seguirão em trabalho remoto em 2021, o que possibilita hospedagens longas quando a pandemia estiver mais controlada.

Foi o que motivou Larissa Castro, professora de Direito Constitucional da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) a sair de Goiânia em janeiro, em busca de autoconhecimento e saúde mental. “Tirei do papel o plano de virar nômade”, conta. Em 2020, ela faria um ano sabático para dar a volta ao mundo, mas veio a pandemia. Ficou em casa até setembro. Quando os números da covid caíram no Brasil, Larissa botou o carro na estrada e se mudou para Arraial do Cabo, no litoral norte do Estado do Rio.

“Escolhi lá porque tinha barreira sanitária: só entrava morador e quem alugou casa. Depois, fiquei em Itamambuca (SP) para aprender a surfar e me mudei para Paraty (RJ) para aprender a velejar. Nem ao centro eu vou”, diz a professora, a bordo do veleiro onde ficou por uns dias. “Meu critério é boletim epidemiológico. Os casos aqui estão subindo. Vou voltar para Arraial.”

Viagem sem galera e com isolamento

Todas as pessoas ouvidas nesta reportagem ressaltam a importância do distanciamento social. “É isolamento. Tem coisas que dá para conciliar, e outras, não. O hospital mais próximo de Gonçalves está a 80 quilômetros. É importante que a gente tenha a noção de que precisa preservar a população da covid”, afirma o advogado Finotti, que se mudou para a cidade pequena em Minas Gerais.

O Airbnb lançou uma página neste mês para vizinhos de imóveis alugados pela plataforma denunciarem aglomerações e festas. Com a pandemia, a empresa reduziu para 16 o máximo de pessoas, mesmo em casas capazes de acomodar mais. Desde maio de 2020, cresceu a procura por lugares no campo ou na praia, a até 300 quilômetros dos centros urbanos, com infraestrutura para conciliar férias e trabalho.

Para quem busca algo assim, há também hotéis que oferecem casas separadas, caso do Village Mata Encantada. No litoral sul da Bahia, tem unidades tradicionais ou na árvore. “Hóspedes de todas as Regiões do Brasil que ficam conosco de duas a quatro semanas preferem as villas, que têm casas maiores, com ambientes arejados, varanda e cozinha completa. Não precisam sair do resort para nada”, diz o proprietário do hotel, Ueli Schweizer.

Destinos como o Vale do Café, no sul fluminense, reúne diversas possibilidades para se isolar na natureza. Com seis suítes, a Fazenda das Palmas passou a hospedar visitantes e prefere receber só uma família por vez. Tem piscina, campo de golfe e haras e organiza workshops sobre cultivo orgânico.

Cuidados com saúde e limpeza máxima

Além do wifi gratuito e bom, Airbnb e Booking.com perceberam que a segurança sanitária passou a ter extrema relevância para quem busca hotéis ou imóveis para ficar. Por isso, a Booking.com criou um filtro sobre limpeza para parceiros que fizeram atualizações recentes em políticas de higiene. O Airbnb informa que desenvolveu um protocolo para a higienização de todos os cômodos da casa, com orientações de especialistas, incluindo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos.

“Se for a um hotel, você só troca de toalha, mas não deixa o funcionário entrar. A boa política é ter o mínimo de limpeza externas”, recomenda o professor de Saúde Pública da USP. Mas Aith lembra que é fundamental verificar a taxa de ocupação com que trabalha o estabelecimento. “É importante saber se estão respeitando os níveis máximos de lotação, para não ir a um lugar cheio.”

O especialista recomenda ainda perguntar antes da viagem sobre as refeições. “É melhor não ter buffet. E o café da manhã nem é na mesa, é no quarto. Quanto menos favorecer juntar pessoas no espaço fechado, melhor. Só se tiver um espaço aberto, aí tudo bem oferecer ao ar livre.”


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