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Domingo 28.nov.2021

Ano X - Nº 469

Coluna

A Última Floresta

A Cosmopoética Yanomami viva em ato

Postado em 21 de Abril de 2021 - Ricardo Moebus

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No conjunto das inúmeras atividades, eventos, debates, apresentações que aquecem o Abril Brasil Indígena online em 2021, aconteceu em 18 de abril o lançamento do longa–metragem “A Última Floresta”, dirigido pelo cineasta Luiz Bolognesi, com roteiro escrito em parceria com o líder indígena e xamã Davi Kopenawa Yanomami, tendo sido apresentado pela primeira vez no Brasil na 26º edição do “É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários”, após ter participado do festival de Berlim, como único representante brasileiro na mostra Panorama.

Sim, o filme é uma contundente denúncia da situação trágica atual que vivem os Yanomamis, tendo seu território invadido por uma multidão de garimpeiros, que somam dezenas de milhares, talvez 30 mil, talvez 40 mil homens, talvez mais. Isto no contexto da mais grave crise sanitária em um século, a pandemia do novo coronavírus COVID 19.

Uma tragédia que repete o quadro acontecido em 1986, quando da invasão do território Yanomami por também dezenas de milhares de garimpeiros, com disseminação de doenças, contaminação dos rios com mercúrio, destruição da floresta, pistas clandestinas de pouso, desaparecimento de peixes e animais em fuga para outros territórios, conflitos armados com comunidades indígenas, centenas quando não milhares de indígenas mortos.

Mas não é só isso, o longa “A Última Floresta” é também uma generosa aula da cosmovisão Yanomami, na perspectiva cosmopoética própria e marcante do Xamã Davi Kopenawa, também escritor, em parceria com Bruce Albert, do livro “A Queda do Céu – palavras de um xamã yanomami”.

O roteiro co-escrito por Davi Kopenawa confere ao filme uma atmosfera mítica, carregada de um realismo fantástico, que se confunde e se co-funde com o cotidiano da aldeia yanomami, que participa do filme com uma comovente espontaneidade.

O filme traz belíssimas imagens do ninho yanomami no seio da grande floresta amazônica, rodeada por gigantes de pedra, com sequências imagéticas e consequências semióticas, nesta disputa ferrenha por regimes de verdade que possam encontrar validade e cabimento neste nosso mundo globalitarizado e empobrecido pela imposição de uma única visão hegemônica pasteurizada do que seja o mundo e seus valores.

O roteiro, os escritos, as falas, as muitas vezes em que Davi Kopenawa tem vindo a público manifestar esta outra existência possível, com sua cosmopoética yanomami, nos revela não apenas que “Outro Mundo é Possível”, como preconizava o Fórum Social Mundial, mas que outros mundos já existem e estão aí resistindo para não desaparecerem.

Possa a força destas imagens valer mais que as milhares de palavras já escritas e muitas vezes ditas pelo xamã Davi Kopenawa, em sua verdadeira saga, jornada ao longo de dezenas de anos em defesa desta Última Floresta, que além de sustentar a própria viabilidade da vida neste delicado jogo da modulação climática, guarda também todo o encantamento de um mundo diverso, multidiverso, biodiverso, cantado em prosa e multiversos pelo seu grande representante vivo xamã Kopenawa.


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