Semana On

Terça-Feira 17.mai.2022

Ano X - Nº 487

Poder

Renan Calheiros será o relator da CPI da Covid-19 e aumenta pressão sobre Bolsonaro

Inação e desinformação do Governo Federal agravam a pandemia no Brasil

Postado em 16 de Abril de 2021 - Naiara Galarraga Gortázar (El País), Ricardo Noblat (Veja), Marina Oliveira (Congresso em Foco) - Edição Semana On

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Salivam os senadores dispostos a acuar o governo tão logo a CPI da Covid seja instalada. De todos os lados, voluntariamente ou não, lhes chegam contribuições preciosas.

Procuradores da República do Amazonas apontam a omissão do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello na escalada da pandemia naquele Estado, e se preparam para processá-lo.

Segundo eles, no final de dezembro último, Pazuello foi informado da gravidade da situação, e nada fez, salvo recomendar o tratamento precoce da doença.

O ministro Benjamin Zymler, relator no Tribunal de Contas da União do processo sobre a conduta do Ministério da Saúde durante a pandemia, se diz convencido de que ocorreram muitos erros.

Do mesmo tribunal, o ministro Bruno Dantas admitiu que há provas para “impor condenações severas” a Pazuello. Ainda não foram porque ministros governistas pediram vista do processo.

Dos 11 titulares da CPI, seis são de partidos da oposição ou que se dizem independentes. Os independentes serão alvo de assédio financeiro por parte do governo.

Mesmo assim, quanto mais mortes colecione o vírus por falta de vacinas, mais se agravará o estado do governo. O loteamento de cargos seguirá a pleno vapor.

Renan na presidência

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) será o relator da CP . A informação foi confirmada na manhã desta sexta-feira (16) pela assessoria de imprensa do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que assumirá a vice-presidência do colegiado. O senador Omar Aziz (PSD-AM) será o presidente da comissão de investigação.

Os senadores ainda precisam decidir se a CPI trabalhará de forma remota, semipresencial, ou totalmente presencial. Renan Calheiros afirmou que essa discussão está sendo usada pelo Planalto para ganhar tempo e "empurrar com a barriga" a investigação.

"Não haverá problema algum em fazer semipresencial. A maioria das coisas em CPI podem ser feitas remotamente", disse o emedebista na última quarta-feira (14).

O senador Omar Aziz, também na quarta-feira, afirmou que a comissão deve se valer de todos os protocolos sanitários e da tecnologia para começar as atividades o quanto antes. "Esta comissão tem um perfil mais independente do que pró-governo. O Senado não tem Centrão, é muito independente. Será uma CPI muito isenta, sem procurar crucificar ninguém. Mais voltada para identificar problemas e buscar soluções", disse.

Inação e desinformação

A pandemia não dá trégua no Brasil, e o aumento sistemático de mortes e contágios nos últimos meses colocou o país como epicentro mundial. Ultrapassa as 3.000 mortes por dia. Entre as múltiplas causas da gravíssima situação, uma distingue o Brasil dos demais países: a inação do Governo liderado pelo presidente Jair Bolsonaro e sua promoção de curas ineficazes, o que tem causado mortes evitáveis e agravado a epidemia a ponto de levar os hospitais ao colapso, diagnóstico compartilhado por um estudo publicado pela revista Science e pela ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF).

“A falta de vontade política no Brasil é inaceitável”, disse em entrevista coletiva na quinta-feira (15) Meinie Nicolai, diretora-geral do MSF, que tem equipes trabalhando na crise sanitária no Brasil e em outros países. “A P1 [variante] por si só não explica a situação atual do Brasil”, disse em referência à chamada variante brasileira, que é muito mais contagiosa do que a cepa clássica e está muito difundida no Brasil. Em seguida Nicolai comparou a situação brasileira com a da África do Sul. “Lá também a P1 apareceu e eles têm muito menos gente vacinada, mas o esforço coordenado das autoridades fez com que tivessem menos casos”, detalhou. A diferença entre os dois países é enorme. Membros do BRICS têm população semelhante, mas o Brasil acumula mais de 13 milhões de casos, enquanto a África do Sul tem seis vezes menos, de acordo com a publicação digital Our World in Data.

A ONG sanitária acusa as autoridades de “terem deixado os médicos entregues à própria sorte na linha de frente”. Os hospitais de quase todo o país estão superlotados e os profissionais de saúde improvisam UTIs como podem. E ainda há médicos que prescrevem medicamentos sem eficácia comprovada que o Governo federal promoveu com entusiasmo e que estão causando sérios estragos e até mortes.

O Brasil continua em uma curva ascendente, batendo um recorde (negativo) após o outro enquanto a epidemia perde intensidade em muitos outros países. Em janeiro, um estudo da Universidade de São Paulo, publicado pela primeira vez por este jornal, acusou Bolsonaro de liderar “uma estratégia institucional de propagação do vírus”. Outras acusações não vão tão longe. Mas aqueles que apontam diretamente o Governo Bolsonaro como responsável pela acelerada disseminação do vírus são cada vez mais explícitos.

“A resposta [do Governo] federal [ao vírus] tem sido uma combinação perigosa de inação e negligências, incluindo a promoção da cloroquina como tratamento apesar da falta de evidências científicas”, conforme descreveu nesta quarta-feira na Science a equipe liderada da pesquisadora brasileira Marcia Castro, da Escola de Saúde Pública da Universidade de Harvard. A equipe afirma que “nenhuma narrativa sozinha explica a propagação do vírus” no Brasil, mas cita expressamente a influência da politização no grau de adesão às recomendações básicas.

Também contribuíram para a disseminação do vírus o tamanho e a desigualdade do Brasil, onde as conexões regionais não foram interrompidas durante os picos e as autoridades locais impuseram e flexibilizaram as restrições como bem entenderam. Tudo isto deu asas ao coronavírus.

O Reino Unido e os Estados Unidos, liderados no início da crise por negacionistas como Bolsonaro, corrigiram o rumo. O primeiro quando Boris Johnson voltou ao poder depois de quase ter morrido de covid-19. O segundo quando Donald Trump perdeu as eleições.

O Brasil foi o primeiro país onde, em nome da liberdade, houve manifestações contra as restrições. Mais de 350.000 mortos depois, os protestos contra os confinamentos ainda estão sendo realizados, enquanto o presidente insiste que “a fome mata mais que o vírus”. Cientistas e médicos brasileiros insistem há meses que sem um confinamento estrito de três a quatro semanas é impossível conter a transmissão.

O MSF cobra do Governo Bolsonaro, que está no quarto ministro da Saúde, um plano de gestão coordenado e nacional, diretrizes claras, uma campanha de informação para promover as medidas básicas de eficácia comprovada (uso de máscara, distanciamento social e lavar as mãos) e um plano amplo de testes para detectar novos casos e isolá-los. O Governo, por sua vez, está concentrado em conseguir vacinas, ainda que tardiamente, apesar de a OMS insistir que apenas as vacinas não vão deter a emergência.

O MSF afirma que, sem uma mudança imediata de rumo por parte do Governo federal, a catástrofe continuará a se agravar: “A transmissão se acelerará, haverá mais pacientes em estado grave, mais pressão sobre os hospitais e mais mortos”.

Bolsonaro começou banalizando a epidemia como “uma gripezinha”, declarou que “de algo se tem de morrer” e, para seus compatriotas assustados com os recordes de mortes, espetou há um mês: “Chega de frescura, de mimimi”. Apenas as queixas públicas da elite econômica o convenceram da necessidade de promover a vacinação. E foram essas mesmas exigências que criaram o clima para que o Supremo Tribunal Federal ordenasse ao Senado a abertura de uma CPI que ainda não começou a trabalhar. Os parlamentares mostraram muito mais rapidez para aprovar uma lei que permite que os empresários importem vacinas por conta própria para suas famílias e empregados. A única exigência é que doem metade para o SUS.


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