Semana On

Domingo 25.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Brasil

Com desemprego em alta, Bolsonaro tortura número do IBGE para afastar culpa

Inadimplência, renda em queda e inflação ameaçam a economia

Postado em 15 de Abril de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL), Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues (O Estado de S. Paulo) – Edição Semana On

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Diante de um desemprego recorde, Jair Bolsonaro resolveu atacar novamente não as suas causas, mas o IBGE, que informa o tamanho do problema. É como se um médico, diante de uma febre, blasfemasse contra o termômetro ao invés de ministrar o remédio correto.

Neste caso, há uma dose maior de cinismo, pois o médico deixou que o quadro do paciente chegasse a um estado crítico com sua omissão e negligência.

"Estamos criando empregos formais, e bastante, mês a mês, mas tem aumentado o desemprego por causa dessa metodologia do IBGE, que atendia ao governo da época. Esse tipo de metodologia, no meu entender é o tipo errado. Vou sofrer críticas do IBGE, mas eles podem mudar a metodologia", afirmou, em entrevista à CNN, no último dia 8.

Para Bolsonaro, a metodologia do IBGE, que segue padrões internacionais, é errada porque não favorece o seu discurso. E, portanto, precisa ser mudada. Tal como acusou o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de mentir sobre o desmatamento na Amazônia porque as imagens de satélite não corroboravam as mentiras que ele contava.

Governos autoritários, quando colocados contra a parede, reduzem a transparência de informações às quais a sociedade tem acesso a fim de adaptar a realidade à sua narrativa. Como a realidade não entrega a redução do desemprego no ritmo que Bolsonaro espera, ele demonstra a vontade de torturar os números até que gritem o que ele precisa ouvir.

O presidente reclama que é impossível o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia estar publicizando saldos positivos de contratações e o desemprego estar crescendo. Sua reclamação não procede.

A taxa de desocupação depende de uma série de variáveis. Por exemplo, a quantidade de pessoas que já estavam procurando emprego sem sucesso. Mas também o montante que estava fora da força de trabalho e volta a procurar emprego ou inicia agora a busca pelo primeiro emprego.

Quem não está procurando emprego não é considerado desempregado pela metodologia da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, do IBGE, que segue padrão internacional. Desempregado é quem está tentando encontrar emprego e não consegue. Ou seja, 14,3 milhões de pessoas. Quando a economia dá sinais de melhora, as pessoas voltam a procurar serviço. E, portanto, retornam à fila do desemprego se não encontram.

Bolsonaro defende que como trabalhadores ambulantes não têm mais como vender produtos por conta da pandemia, passaram a procurar emprego, inflando os números. Ele não apresenta dados para corroborar a sua tese, claro. E ignora que a questão é bem maior e mais complexa que isso.

Não cita, contudo, que ele seria o culpado pelo naco de trabalhadores informais que estão indo à rua se expor ao coronavírus graças à sua demora para retomar o pagamento do auxílio emergencial e ao valor miserável pago nesta etapa - de R$ 150 a R$ 375 por domicílio.

Sem contar que um benefício ridiculamente baixo não será capaz de ajudar a economia, como aconteceu na primeira onda da pandemia, após o Congresso ter pressionado para o governo aumentar de valor.

Além disso, os dados do Caged estão sendo criticados por especialistas após mudança de metodologia promovida recentemente pelo governo, ampliando a base de referência. Ou seja, não são comparáveis e podem estar inflados.

Toda vez que o Caged é divulgado, auxiliares de Bolsonaro têm feito festinha e tentado capitalizar nas redes sociais. Mas quando os dados da PNAD Contínua vêm a público, é só ranger de dentes e blasfêmias.

Bolsonaro precisa parar de brigar com números e passar a trabalhar para ajudar a reduzi-los. Não há um complô contra ele ou contra a população, apenas má fé por parte dele quanto à estatística.

Uma de suas icônicas declarações ("E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre") encontra tração em uma parte da sociedade, que não o responsabiliza pelas mortes. Prova disso é que o último Datafolha apontou que apenas 43% da população consideram-no o principal culpado pela pandemia.

Mas se a montanha de 345 mil cadáveres não tem recaído totalmente sobre suas costas, o mesmo não pode ser dito sobre a cordilheira de 14,3 milhões de desempregados. Ele é o presidente e, portanto, o responsável pela política de geração de empregos - que, aliás, não existe em seu governo - e pela economia.

A sua omissão e o seu negacionismo estenderam a gravidade da pandemia por mais tempo que a média mundial. Ao lutar contra o isolamento social e demorar meses para comprar vacinas em número suficiente, ele manteve a covid-19 martelando a economia.

Culpa governadores e prefeitos pela crise econômica oriunda da crise sanitária, mas é ele o arquiteto do desemprego prolongado.

Bolsonaro sabe disso e essa é uma das razões pelas quais ele ataca tanto quarentenas e lockdowns. Quer empurrar todo mundo para a rua, com o vírus à solta, para que o país volte ao normal e sua reeleição não seja prejudicada. Como não é assim que as coisas funcionam, a fatura disso vai cair no seu colo. Mais cedo ou mais tarde.

Inadimplência, renda em queda e inflação ameaçam a economia

Dívidas em patamares recordes, atrasos em pagamentos, inflação alta e renda achatada. Estes são apenas alguns dos pontos de pressão sobre famílias e empresas brasileiras em 2021. Enquanto o País passa pelo pior momento da pandemia de covid-19, com picos de mortes, a situação da economia se agrava.

Dados do Banco Central mostram que, em dezembro, o comprometimento da renda das famílias brasileiras com dívidas bancárias chegou a 31,1%, pico da série histórica. O dado reflete a parcela dos salários usada para pagar juros e amortizações de empréstimos. Ou seja: a cada R$ 100 de renda, sobram menos de R$ 70 para o pagamento das demais despesas. O endividamento das famílias também é recorde: 56,4% da renda total.

Para a economista Isabela Tavares, especialista em crédito da Tendências Consultoria Integrada, as ações do governo federal para manter a renda das famílias em 2020 contribuíram para segurar as dívidas e a inadimplência. Com o fim de parte dos auxílios, na virada de 2020 para 2021, cresceu a pressão sobre o orçamento das famílias.

Esse agravamento não é surpresa. “Houve medidas na área de crédito e o auxílio emergencial, que sustentou a massa de renda. Em 2021, sem as medidas emergenciais, já se esperava uma reversão”, diz Isabela.

As dívidas bancárias são outro ponto de pressão. Os dados mais recentes do BC mostram que, por ora, a inadimplência segue em níveis controlados, tanto para famílias quanto para empresas. Em fevereiro, a inadimplência atingiu 4,1% entre as famílias e 1,6% nas empresas. Os dados consideram o crédito livre, que excluem financiamentos com dinheiro do BNDES e da poupança (como o crédito imobiliário). 

Mas a situação não é confortável. Isso porque o BC só considera como inadimplência os atrasos de mais de 90 dias. No ano passado, os bancos promoveram renegociações de dívidas e deram carência para o pagamento de prestações, o que fez o indicador cair no segundo semestre. 

Em 2021, os atrasos já começam a crescer. O BC aponta que, em fevereiro, os atrasos entre 15 e 90 dias – ou “pré-inadimplência – chegam a 3,65% (famílias) e 1,69% (empresas). Em dezembro, os porcentuais eram de 3,24% e 1,52%, respectivamente.

Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) indicam que, de março a dezembro de 2020, as renegociações somaram R$ 971,5 bilhões. O valor das parcelas suspensas somou R$ 146,7 bilhões. Em 2021, essa fatura poderá ter de ser paga.

Mas, agora, os bancos não têm à disposição um mecanismo que facilitou as negociações em 2020, quando o governo desobrigou a realização de provisões para perdas ao renegociar débitos. Em outras palavras, os bancos não tiveram de guardar recursos para o caso de inadimplência.

Em meio às dificuldades para pagar dívidas, famílias e empresas enfrentam a escalada da inflação. O IGP-M, o “índice do aluguel” da Fundação Getulio Vargas (FGV), acumula alta de 31% nos 12 meses até março. O IPCA – índice oficial de inflação – também está em aceleração. Em março, a alta acumulada em 12 meses atingiu 6,1%. Preocupado com o avanço dos preços, o BC elevou a taxa Selic de 2% para 2,75% ao ano. Só que o juro mais alto aumenta o custo de quem luta para quitar dívidas.

Renda

Enquanto os produtos sobem de preço, a renda segue achatada. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a massa de rendimento do trabalho somou R$ 211,4 bilhões no trimestre encerrado em janeiro de 2021. O valor é quase 7% inferior ao do mesmo período do ano anterior.

Para o economista Mauro Schneider, da MCM Consultores, a situação econômica em 2021 não é necessariamente pior do que a de 2020. O problema é que o governo tem espaço menor no Orçamento para medidas de auxílio. “Com as famílias ocorre a mesma coisa. Quem estava em boa condição tinha reservas no ano passado”, diz. “Mas parte desses recursos também foi consumida.”

Apesar de a dívida bruta brasileira estar próxima de 90% do Produto Interno Bruto (PIB), Schneider diz não descartar auxílios emergenciais mais “gordos”. “Tudo depende da vontade política em questões ligadas a gastos públicos. Olhando os números no detalhe, seria possível gastar mais em auxílios se o governo realocasse verbas hoje em destinos questionáveis.”


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