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Domingo 23.jan.2022

Ano X - Nº 475

Coluna

Com los ojos

O momento que recebi a sonhada vacina ficará guardado para sempre no coração

Postado em 14 de Abril de 2021 - Theresa Hilcar

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Tomas las fotos con los ojos”, foi a frase que mais ouvi do guia durante minha visita a Agra (Índia). Num espanhol esforçado, ele se dizia indignado com o fato de eu não usar meu celular ou usar os serviços das centenas de fotógrafos que ali estavam para cumprir a função e ganhar uns trocados.  

A todo instante perguntava: e a foto, senhora? Diante do insucesso de suas investidas passou a dizer que eu “tirava fotos com os olhos”. Sim, eu preferia ter aquelas imagens guardadas para sempre nas minhas retinas, concordei.

Mas o argumento não era forte o bastante. Os indianos, como aprendi, são duros na queda e raramente se dão por vencidos. Ao final da visita, ele me levou a um banco e pediu que eu me sentasse (como a Lady Di, explicou) e, ato contínuo, chamou o fotógrafo. Não, ele não poderia deixar que eu retornasse ao Brasil sem um recuerdo do belíssimo Taj Mahal, monumento considerado, com toda razão, uma das sete maravilhas do mundo moderno. 

A foto em papel tamanho A4, foi entregue na saída e como um presente. Era a mais pura tradução da generosidade oriental, com idioma e costumes distintos, mas sobretudo, inesquecível.

Devo confessar que coleciono algumas passagens sobre a falta de registro da maioria dos acontecimentos importantes ao longo da vida. Mas tenho uma caixa de fotografias aleatórias, retratos da juventude feitos por excelentes fotógrafos. De viagens não tenho quase nada.

Há alguns anos, realizando o sonho de conhecer o Peru, mais especificamente Machu Pichu, a famosa cidade perdida dos Incas, um simpático casal de turistas chilenos não acreditou que eu não havia levado uma câmera. Inconformados com a minha displicência, digamos assim, pediu licença para me fotografar -  com um equipamento profissional, há que registrar. 

Dias depois recebi duas fotografias no meu e-mail acompanhado por uma carta extremamente gentil. Felizmente a vida nos oferece surpresas agradáveis e pessoas sensíveis.

A bem da verdade, e com o advento dos celulares com câmeras de primeira linha, tento fugir dos cliques sempre que posso. Não sou afeita a selfies, nem poses. Simplesmente evito qualquer tentativa de “vamos fazer uma foto” que, possivelmente, vai acabar postada numa rede social.

Com a chegada da tão desejada vacina, começamos a ver e receber registros de amigos no ato da aplicação. Quase todos os dias alguém me manda uma foto com dezenas de mãozinhas aplaudindo. 

Na véspera do grande evento começou minha ansiedade. Imaginando a possibilidade de uma foto tratei de fazer planos para evitá-la. Foi quando a amiga deu a nota: tem que filmar para ver se a vacina foi feita de verdade. Prova de que os rumores e algumas imagens de pessoas sendo enganadas tiveram efeito mais devastador do que supunha minha vã filosofia.

Mas, vendo as dezenas de pessoas que aguardavam ansiosas na fila, não vi espaço para desconfiança. A não ser pela desfaçatez do incauto senhor que resolveu ficar sem a máscara – coisa que me deixou muito aflita - tudo estava perfeito. Suportei a sede, para não tirar a máscara, o cansaço e o barulho das conversas ininterruptas ao longo de um par de horas. 

Era a vacina afinal! E por ela eu faria qualquer sacrifício. O que de fato não houve. Tudo passou muito rápido, e logo vi meu número sendo chamado: o 187. Aliás, nem precisava chamar pois eu já estava a postos. E no minuto seguinte, o momento aguardado com tanta ansiedade passou num piscar de olhos.

Não houve registro. Nem foto, nem vídeo. Sequer tirei o celular da bolsa. Tudo que eu consegui fazer foi perguntar o nome da vacina. Corona, responderam. Neste instante eu abri um sorriso de felicidade e fiz a fotografia. Não com os olhos, como sugeria o guia indiano, mas com a alma e o coração agradecidos. Obrigada Butantan! Gracias por la vacuna!


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