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Quarta-Feira 23.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Entrevista

Pablo Ortellado: ‘Bolsonaro dá todos sinais que tem medo do Lula, e deve ter mesmo’

Para o filósofo, PSDB virou um partido médio, e os candidatos de centro-direita que se apresentam 'irão cumprir tabela'

Postado em 12 de Abril de 2021 - Igor Carvalho - Brasil de Fato

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O retorno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao cenário eleitoral provocou reações imediatas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que abandonou o discurso negacionista em relação à pandemia e começou a trabalhar pela aquisição de vacinas. Para o filósofo Pablo Ortellado, o ex-militar teme o petista.

“Bolsonaro dá todos os sinais de que tem medo do Lula, e ele deve mesmo ter medo do Lula. Muita gente diz que o candidato ideal do Bolsonaro é o Lula, mas não é. O candidato ideal do Bolsonaro seria um petista com menos potencial que o Lula, como o (Fernando ) Haddad. O Bolsonaro poderia trabalhar com o ‘medo do PT’ e não teria um antagonista com as habilidades do Lula”, analisa Ortellado, que é professor de Gestões de Políticas Públicas na Universidade de São Paulo (USP).

Faltando pouco mais de um ano e meio para as eleições de 2022 e com os nomes de Lula e Bolsonaro consolidados como as principais apostas para a corrida à presidência, Ortellado não enxerga possibilidade de surgirem candidatos que rompam com essa lógica.

“Em política, tudo pode acontecer. Mas, do jeito como está o cenário hoje, um terceiro nome não deve conseguir mais que 10% dos votos. O (Sergio) Moro, como nem assinou a carta (dos seis presidenciáveis), não deve estar cogitando ser candidato. Então, o terceiro candidato em intenções de voto deve ser o Ciro (Gomes), que está numa situação muito difícil”, explica.

Principal antagonista ao PT no cenário nacional por duas décadas, o PSDB tem encolhido nas últimas eleições. Em 2018, teve sua pior votação em eleições presidenciais desde 1989. Para Ortellado, os tucanos se tornaram “um partido médio”.

 

As últimas semanas foram intensas em Brasília, como tem sido a política brasileira desde que Bolsonaro assumiu a presidência. Como você analisa o atual cenário da política nacional?

O impeachment é uma necessidade, dada a condução da pandemia e as ameaças do Bolsonaro à democracia. Porém, não vejo condições políticas para isso. O apoio dele ainda permanece em níveis altos, e o processo de impeachment requer um apoio muito menor. Além disso, a principal força da oposição, que é o PT, não parecer estar fazendo força para fazer caminhar o impeachment. Então, nesse cenário, o impeachment não vai sair, e vamos ficar nessa situação de crise permanente. Vamos seguir nessa toada até 2022, não vejo sinais de mudança nesse cenário.

Falando de um dos recentes imbróglios provocados por Bolsonaro, a demissão dos comandantes das Forças Armadas, qual sua impressão? Bolsonaro quis testar seus comandados?

O meio militar é muito fechado, e temos poucas informações sobre o engajamento deles. Temos sinais, um terço dos ministros são militares e 6 mil militares ocupam cargos civis no governo. Então, tudo indicava um grande compromisso dos militares com o governo. Porém, a demissão do ministro da Defesa e dos três chefes das Forças Armadas foi um sinal de esperança de que o compromisso é menor do que o Bolsonaro fazia crer. Não sabemos o tamanho desse desacordo, mas foi um bom sinal.

Acha que esse compromisso é maior dentro das polícias militares, nos estados?

Várias lideranças policiais que surgiram passaram para o bolsonarismo. Na Bahia mesmo, que passou por uma crise na semana passada, suas duas principais lideranças são bolsonaristas. É muito difícil saber o grau de penetração do bolsonarismo, mas um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou um engajamento preocupante das polícias com o bolsonarismo. Não sabemos o tamanho do problema, mas existe um problema de politização das forças militares.

O STF é o principal alvo dos bolsonaristas?

Quem eu vejo como principal alvo dos bolsonaristas são os governadores. STF, também. Curiosamente, desde que Bolsonaro se aliou ao (Arthur) Lira, o Congresso saiu de cena nas mídias sociais bolsonaristas. Agora, os ataques estão centrados em STF e governadores. A minha impressão é que os governadores hoje são o principal adversário dele, com o Doria à frente, principalmente com o tema da pandemia.

A volta do Lula ao cenário eleitoral mexeu com o Bolsonaro?

O Bolsonaro dá todos os sinais de que tem medo do Lula, e ele deve mesmo ter medo do Lula. Muita gente diz que o candidato ideal do Bolsonaro é o Lula, mas não é. O candidato ideal seria um petista com menos potencial que o Lula, como o (Fernando ) Haddad.

O Bolsonaro poderia trabalhar com o “medo do PT” e não teria um antagonista com as habilidades do Lula. Ele pode usar o antipetismo para conquistar votos que não seriam dele, mas que diante de um candidato do PT, votariam no Bolsonaro. Porém, ele vai ter um adversário extremamente hábil, que terá todos os votos da esquerda.

A chegada do Lula bloqueou todas as candidaturas da esquerda, não há espaço eleitoral para outro candidato na esquerda. Além dos votos da esquerda, ele tem os votos dos lulistas e de pessoas que não são de esquerda, mas que têm boa memória do governo Lula. Além disso, o Lula deve costurar acordos com o centro, que devem trazer mais votos. O Lula é o favorito para 2022, e o jogo eleitoral está praticamente definido entre esses dois, Lula e Bolsonaro.

Há espaço para algum outro candidato?

Em política, tudo pode acontecer. Mas, do jeito como está o cenário hoje, um terceiro nome não deve conseguir mais que 10% dos votos. O (Sergio ) Moro, como nem assinou a carta (dos seis presidenciáveis), não deve estar cogitando ser candidato.

Então, o terceiro candidato em intenções de voto deve ser o Ciro (Gomes), que está numa situação muito difícil, porque ele tem um programa que, objetivamente falando, talvez esteja até à esquerda do programa que o PT deve apresentar, o Lula tem dado sinais de que vai caminhar ao centro, como fez 2002. Então, o programa do Lula deve ser mais ao centro do que o do Ciro, mas o Ciro não tem apelo com o eleitorado de esquerda.

O que sobrou para o PSDB para 2022?

No jogo estabelecido agora, o PSDB é um partido médio. A força do PSDB era o antipetismo, mas o antipetismo tem outro dono agora. Será inevitável, quando o Doria olhar os números, perceber que não tem chance para o PSDB. Como o Luiz Henrique Mandetta não tem, o Luciano Huck não tem e nem o Ciro. Todos vão cumprir tabela, evidentemente vão concorrer, mas só cumprirão tabela. Obviamente, o Bolsonaro pode perder mais popularidade e abrir espaço para mais alguém.


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