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Domingo 17.out.2021

Ano X - Nº 463

Poder

Jornais britânicos veem risco de Bolsonaro tentar golpe em 2022

Em editoriais, ‘Financial Times’ e "Guardian’ alertam para investidas autoritárias do presidente e criticam gestão desastrosa da pandemia

Postado em 09 de Abril de 2021 - DW, Kennedy Alencar e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Dois jornais britânicos, o Financial Times e o The Guardian, publicaram editorais no último dia 5 que alertam para o risco de o presidente Jair Bolsonaro tentar dar um golpe para se manter no poder caso seja derrotado nas eleições de 2022.

Ambos os veículos ressaltam, porém, que a crise aberta no final de março pela queda do ministro da Defesa e a troca dos três comandantes das Forças Armadas parece indicar que parte significativa dos militares está decidida a não apoiar uma maior escalada autoritária do presidente.

Os editorais criticam o gerenciamento da pandemia de covid-19 por Bolsonaro, que coloca hoje o Brasil na liderança mundial de novas mortes diárias e foi marcado por uma postura negacionista sobre a gravidade da doença e a importância do uso de máscaras e das vacinas, além do enfrentamento contra governadores e prefeitos que adotaram medidas de restrição à circulação de pessoas para reduzir a transmissão do vírus. Segundo o Guardian, Bolsonaro é "um perigo para o Brasil e para o mundo".

Eles também lembram que a entrada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no páreo para a próxima eleição, possibilitada pela anulação de suas condenações pelo Supremo Tribunal Federal, é um obstáculo adicional à reeleição de Bolsonaro, que vem enfrentando aumento da sua rejeição.

Estabilidade democrática

O Financial Times, veículo especializado em jornalismo econômico e respeitado por empresários e tomadores de decisão, afirma que a chance de Bolsonaro tentar algum tipo de golpe para afrontar a democracia e permanecer no poder a despeito do resultado eleitoral aumenta à medida que seu apoio popular e a chance de reeleição diminui.

Para o The Guardian, que tem linha editorial de centro-esquerda, mais do que "possível", é "provável" que Bolsonaro tentará se manter no poder por meio do uso da força caso perca em 2022, e menciona os seguidos elogios do presidente à ditadura militar e a torturadores e seu uso recente da Lei de Segurança Nacional para tentar silenciar críticos.

A invasão do Capitólio nos Estados Unidos por apoiadores de Donald Trump, que buscava deslegitimar o resultado da eleição que deu vitória a Joe Biden, serviria de inspiração a Bolsonaro, segundo o Guardian, que no seu editorial lembra que o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, criticou a desorganização e a falta de armas entre os invasores.

O jornal britânico transcreve ainda a fala de Eduardo sobre a invasão do Capitólio: "Foi um movimento desorganizado. Foi lamentável. Ninguém desejava que isso ocorresse (...) Se fosse organizada, teriam tomado o Capitólio e feito reivindicações que já estariam previamente estabelecidas pelo grupo invasor. Eles teriam um poder bélico mínimo para não morrer ninguém, matar todos os policiais lá dentro ou os congressistas que eles tanto odeiam. No dia em que a direita for 10% da esquerda, a gente vai ter guerra civil em todos os países do Ocidente", disse o filho do presidente.

Papel dos militares

A crise entre Bolsonaro e os comandantes das Forças Armadas, a maior em décadas, foi definida pelo Financial Times como um motivo para comemoração. Segundo o diário, o episódio teria mostrado que os chefes militares escolheram "demonstrar sua lealdade à Constituição democrática" em vez de se manterem alinhados a um presidente "errático e imprevisível, que abertamente desdenha do Congresso e do Judiciário".

Em 19 de março, Bolsonaro chegou a dizer que o "seu" Exército não iria contribuir para aplicar as medidas de restrição à circulação determinadas por alguns governadores do país, o que não foi bem recebido pelos militares. "O meu Exército não vai para a rua para cumprir decreto de governadores", afirmou o presidente.

"Em uma atmosfera febril como essa, o comprometimento firme dos comandantes militares, do Congresso e do Judiciário para sustentar a quarta maior democracia do mundo é um sinal vital e positivo", escreveu o Financial Times. Mas o jornal lembra que os militares receberam "centenas de cargos no governo – incluindo a vice-presidência e quase metade do ministério – além de aumentos generosos dos gastos militares".

A possível mudança de posição entre dois pilares da vitória de Bolsonaro em 2018, os militares e a elite econômica, também foi considerada positiva pelo Guardian. Segundo o editorial do jornal, a gestão "desastrosa" da pandemia por Bolsonaro "parece estar deixando em dúvida a elite econômica que o apoiou anteriormente" e "alguns setores dos militares aparentemente sentem o mesmo desconforto".

"Pode ser irritante ver aqueles que contribuíram para a sua [de Bolsonaro] ascensão se posicionarem como guardiões da democracia, em vez de dos seus próprios interesses. Mas a sua saída do poder seria de qualquer maneira bem-vinda, para os interesses do Brasil e do resto do planeta", conclui o Guardian. “Um homem normalmente não pode causar tanto dano. Infelizmente, este homem é o presidente”, aponta o jornal.

'Poder já está em nossas mãos', diz Zero Três ao negar que queira ditadura

Quando encontra um espaço baldio entre as orelhas, o poder costuma subir à cabeça. Foi o que ocorreu com o deputado Eduardo Bolsonaro. Alvo de duas representações no Conselho de Ética por ter defendido a volta do AI-5, o filho Zero Três do presidente da República disse que os Bolsonaro não têm interesse na restauração da ditadura, porque "o poder já está em nossas mãos".

Numa entrevista que concedeu em 2019, Eduardo Bolsonaro declarou que, se a esquerda brasileira radicalizar, "a gente vai precisar ter uma resposta. E a resposta pode ser via um novo AI-5." O Ato Institucional número 5 foi o mais draconiano instrumento da ditadura militar. Produziu, entre outras atrocidades, o fechamento do Congresso. Um deputado que jura respeitar a Constituição ao tomar posse deveria ter algum respeito pelo menos à inteligência alheia.

Ao se defender no Conselho de Ética, o Zero Três não teve como desdizer o que dissera. A entrevista foi gravada em vídeo. Saiu-se, então, com a tese segundo a qual a ditadura não interessa a quem já dispõe do poder.

"Já sendo eleito presidente da República, o menos interessado em que o país vire uma ditadura é o próprio presidente Jair Bolsonaro", disse o herdeiro do capitão. "Em igual conta, eu também, deputado federal mais votado da história do país. E muitos aí dizem que eu deveria ser cassado. Uma total violação do nosso sistema representativo. Sou o menos interessado também em ter qualquer tipo de ditadura, porque o poder já está em nossas mãos."

Eduardo Bolsonaro ainda não notou. Mas seu pai tornou-se um presidente da cota do centrão. Não é Bolsonaro que passou a ter uma base congressual. O centrão é que voltou a ter o presidente. De resto, ainda que se admitisse, para efeito de raciocínio, que os Bolsonaro estão no poder seria necessário realçar que falta-lhes alguma coisa qualquer que possa ser chamada de governo.

Ficou para a semana que vem a decisão do Conselho de Ética sobre o pedido de cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro por quebra de decoro parlamentar. A punição é improvável. Relator do caso, o deputado Igor Timo (Podemos-MG) já recomendou o arquivamento. Nada mais previsível.

Mal comparando, o Zero Três faz lembrar um personagem secundário da peça Júlio César, de Shakespeare. Açulados por Marco Antonio, os plebeus saem à caça dos assassinos de César. Encontram Cinna. Alguém grita: "Matem-no, é um dos conspiradores!" Ouve-se uma voz ao fundo: "Não, é apenas Cinna, o poeta." E ecoa no ar uma sentença: "Então, matem-no pelos maus versos".

O mandato de Eduardo Bolsonaro deveria ser passado na lâmina até por conta dos seus "maus versos". Mas um Congresso que convive com deputada acusada de mandar matar o marido e com senador pilhado com dinheiro na cueca... um Congresso assim é capaz de absorver qualquer absurdo.

Militares pedem a Mourão para não ser vice de Bolsonaro em 2022

O vice-presidente Hamilton Mourão tem ouvido conselhos de militares para não repetir a dobradinha com Jair Bolsonaro em 2022. Cresce entre os militares da ativa um desejo de se afastar do presidente, apesar de as Forças Armadas serem sócias do desastre que é o atual governo.

Mourão e Bolsonaro têm relação ruim. O presidente teve durante muito tempo o desejo de se livrar do atual vice numa candidatura à reeleição. Isso mudou agora. No entorno de Bolsonaro, há quem diga que manter Mourão seria uma forma de continuar a ter algum apoio militar.

Bolsonaro foi aconselhado a tentar melhorar a relação pessoal com Mourão. Com uma CPI da Pandemia a ser instalada no Senado, a sugestão faz mais sentido ainda.

O vice-presidente tem escutado até pedidos para tentar encabeçar uma chapa, mas ele diz que considera uma aventura concorrer ao Palácio do Planalto.


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