Semana On

Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Brasil

Lista de empresários que ovacionaram Bolsonaro em jantar teve devedores, sonegadores e exploradores de mão de obra

Empresários são vistos como cúmplices da política que já matou 345.000 brasileiros

Postado em 09 de Abril de 2021 - Edson Sardinha (Congresso em Foco), RBA, Regiane Oliveira (El País) – Edição Semana On

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Em meio aos sucessivos recordes de mortes por covid-19, o presidente Jair Bolsonaro voltou a causar aglomeração. Desta vez, com parte da elite do PIB brasileiro. Em jantar promovido pelo empresário Washington Cinel, da empresa de vigilância Gocil, Bolsonaro foi ovacinado, segundo relatos à imprensa de participantes do encontro.

O presidente fez agrado aos empresários, com críticas à política de fechamento do comércio e de indústrias como medida preventiva contra a covid-19, prometeu intensificar a vacinação e aprovar reformas. Na tentativa de se reaproximar de ao menos uma parte do empresariado brasileiro, criticou governadores que adotam iniciativas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde no combate à pandemia. Os empresários e executivos, em sua grande maioria, preferiram sair em silêncio, deixando o relato das conversas à imprensa para integrantes do governo.

Os aplausos ao presidente ocorrem em meio aos mais de 340 mil mortos pela covid, aos mais de 14 milhões de brasileiros desempregados, à alta da inflação, à demora do governo na liberação de recursos para os brasileiros mais afetados pela crise e à interrupção de programas de fomento para micro e pequenas empresas, abandonados desde o fim da calamidade pública, em dezembro.

Devedores, sonegadores e exploradores de mão de obra

Alguns dos convivas do ex-capitão apoiaram sua candidatura em 2018. Caso de Rubens Ometto, da Cosan, que foi o principal doador individual de Bolsonaro naquelas eleições. Mas não só. Subsidiárias Cosan já foram condenadas por desmatamento e trabalho escravo. O empresário responde a uma ação proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) de reparação ao povo Xavante por violações de direitos humanos. Uma de suas principais empresas, a Raízen Energia, deve à União R$ 433 milhões em impostos e tributos

Outro que esteve presente foi André Esteves, dono do BTG Pactual, banco em que foi sócio do ministro da Economia, Paulo Guedes. Ele chegou a passar 23 dias preso, sob suspeita de tentar obstruir investigações da Operação Lava Jato. O banco tem faturado alto com Guedes ministro. Em julho do ano passado, o então líder do PT na Câmara, Enio Verri (PR), protocolou requerimento de informações para que Guedes esclarecesse detalhes da venda de uma carteira de créditos do Banco do Brasil a um fundo administrado pelo BTG Pactual. Foi a primeira vez que o Banco do Brasil fez uma transação dessa natureza com uma empresa fora do seu conglomerado. O impacto financeiro da operação ao banco público foi calculado em R$ 371 milhões. O caso ainda não foi esclarecido.

André Saraiva, dono da rede de fast food Habib’s, também estava entre os entusiasmados convidados de Bolsonaro. A empresa é alvo de inúmeras reclamações trabalhistas, já foi investigada por sonegação fiscal e precisou fazer acordos financeiros de até R$ 6,4 milhões com o Ministério Público para evitar processos judiciais.

O convescote entre empresários e Bolsonaro teve ainda a presença de Flávio Rocha, dono da rede de roupas Riachuelo. Uma de suas fábricas foi condenada pela Justiça do Trabalho por submeter funcionários a longas jornadas em troca de salários abaixo do mínimo. O processo foi repleto de relatos de abusos físicos e psicológicos cometidos pelos gestores contra os trabalhadores. Rocha já foi foi deputado federal por dois mandatos consecutivos, de 1987 a 1995. Em 1994, foi flagrado no esquema de corrupção conhecido como Escândalo dos Bônus Eleitorais.

Confira a lista dos empresários presentes ao jantar com Bolsonaro:

  • André Esteves – CEO do banco BTG
  • Alberto Leite – CEO da FS Security, empresa de segurança digital
  • Alberto Saraiva – Fundador e CEO do Habib’s
  • Candido Pinheiro – Proprietário e CEO da Hapvida, especializada em planos de saúde
  • Paulo Skaf – Presidente da Fiesp
  • Ricardo Faria – Proprietário da produtora de ovos Granja Faria
  • Ricardo Mello Araújo – Presidente da Ceagesp
  • Rubens Ometto – CEO da empresa de infraestrutura e energia Cosan
  • Rubens Menin – Presidente da construtora MRV, proprietário da CNN Brasil e do Banco Inter
  • Tutinha Carvalho – Proprietário e presidente da rede Jovem Pan
  • Washington Cinel – Fundador e presidente da companhia de segurança privada Gocil
  • Carlos Sanchez – CEO da farmacéutica EMS
  • Claudio Lottenberg – Presidente do conselho do Hospital Albert Einstein e conselheiro da Confederação Israelita do Brasil
  • David Safra – Proprietário e CEO do Banco Safra
  • Flavio Rocha – Dono das lojas Riachuelo
  • Luiz Carlos Trabuco – Presidente do banco Bradesco
  • João Camargo – Presidente do Grupo Alpha de Comunicação
  • Jose Isaac Peres – Presidente da Multiplan, uma das maiores empresas de shoppings do país
  • José Roberto Maciel – CEO do SBT

Cúmplices da política que já matou 345.000 brasileiros

Quem participou do jantar encontrou o Bolsonaro de sempre. Ao lado dos ministros Paulo Guedes (Economia) e Marcelo Queiroga (Saúde), além do general Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), o presidente falou para convertidos. “Tem de olhar o lado bom do país. Os investidores estão acreditando no Brasil. Basta olhar, hoje, o leilão dos aeroportos. Não existe terra melhor do que essa!”, informou o jornal Valor Econômico, que teve acesso a gravação em áudio do encontro.

Num momento de extrema fragilidade na saúde e da democracia brasileira, os gestos de quem detém o poder econômico para com Bolsonaro são acompanhados com lupa. Em comum entre o grupo do jantar desta quarta, o fato de nenhum deles ter assinado o manifesto de líderes empresariais e economistas que cobra medidas mais rígidas de combate à pandemia, como o lockdown e uma política social mais consistente para com os vulneráveis. “O empresário que vai conversar com o Bolsonaro não necessariamente vai apoiá-lo nas próximas eleições”, afirma o economista Marco Bonomo, um dos autores do manifesto. “Temos que lembrar que os empresários são um grupo muito diverso, e uma parte está muito insatisfeita com a condução que o Governo federal está tendo da pandemia”, completa.

O fato é que o jantar rendeu enormes críticas e os empresários se viram associados ao que vem sendo chamado de política genocida. O chargista Carlos Henrique Iotti utilizou a arte para manifestar sua indignação com a estratégia de condução da pandemia do Governo.

Para Bolsonaro, porém, foi um dia de narrativa favorável ao gosto do seu público fiel. Nesta quarta, o Governo logrou arrecadar 3,3 bilhões de reais com o leilão de 22 aeroportos, um ágio médio de 3.822% em relação ao valor mínimo apresentado. E o presidente ainda ecoou suas teorias mais negacionistas. Criticou as medidas tomadas por prefeituras e Estados para combater a pandemia, defendeu a manutenção da abertura de igrejas, derrubada pelo Supremo nesta quinta, e até mesmo o “tratamento precoce” contra a covid-19. Pouco antes, havia sentenciado: “Não vai ter lockdown nacional”, durante passagem por Chapecó (SC), antes de viajar a São Paulo. Nenhuma menção às quase 4.000 pessoas mortas pela covid-19 em um único dia. Nenhum plano concreto de como acelerar a vacinação. Nada sobre medidas eficazes de amparo às pequenas e médias empresas.

Apoio na eleição, decepção na pandemia

Grande parte do PIB apoiou a eleição de Bolsonaro. Poucos se pronunciaram no primeiro ano, quando ele já dava sinais de investir numa diplomacia equivocada, que tem reflexos até hoje nas dificuldades para comprar vacinas. Ou quando atacava outras instituições e fazia campanha contra jornalistas, como Patricia Campos Mello. Mas o Congresso estava entregando a esperada reforma da Previdência em fevereiro daquele ano, cumprindo um dos compromissos do presidente com a economia liberal. Bolsonaro ainda teve o trunfo de anunciar o acordo do Mercosul com a União Europeia em junho de 2019 – que até hoje não saiu do papel. Para o poder econômico, não importava o que ele havia dito no passado, quando fazia loas à ditadura e tratava as mortes do regime militar de modo banal.

Mas em 2020 veio a pandemia e a banalidade com que o mandatário trata a morte mostrou seus efeitos devastadores. O projeto bolsonarista para o Brasil avançou a passos largos amparado por uma iniciativa privada acrítica. Foi só a partir do descontrole das mortes que empresários começaram a vir a público mostrar alguma insatisfação. Assim como os militares hoje são cobrados pelo endosso ao presidente, a classe empresarial passou a ser pressionada. “Não entendo hoje um empresário que fique ao lado de Bolsonaro, a não ser que seja para fazer parte do saque que eles estão fazendo no Brasil”, diz o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília. Para ele, sequer as soluções liberais defendidas pelo Governo vieram a contento. “Só se a meta do Governo for reduzir o tamanho do Estado matando uma parte da população”, diz Oreiro.

Como exemplo, Oreiro cita o lobby do Governo para a aprovação no Congresso do camarote vip da vacinas, que visa facilitar a compra e o uso de imunizantes pelo setor privado, sem a necessidade de aprovação da Anvisa e sem ter de respeitar os grupos prioritários. “Até algumas semanas atrás, eu achava que o que estava em curso no Brasil era uma política de genocídio por incompetência, agora sei que é uma política de genocídio intencional”. O grupo Judeus pela Democracia também não se calou ao ver Claudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), sentado à mesa com o presidente. “A ida do presidente da Conib no jantar de empresários com Bolsonaro é inaceitável. Não nos representa como judeus ou brasileiros. Ir a um jantar com alguém que colabora com o genocídio e negacionismo da pandemia, no Dia da Lembrança do Holocausto, é uma página triste para a história da Conib”, manifestaram em rede social.

A compra das vacinas pela iniciativa privada é defendida por pessoas do núcleo duro bolsonarista, como Luciano Hang (Havan), Carlos Wizard e Washington Cinel, que organizou o encontro em São Paulo, mas não é unanimidade entre líderes empresariais. Muitos parecem ter acordado de que o não há mais espaço (e tempo) para fechar os olhos a escandalosos gestos como esse. É o caso do apresentador Luciano Huck, considerado um candidato da direita para 2022, que se posicionou contra o camarote vip das vacinas. “Eu vou tomar a vacina quando chegar a minha vez no SUS. #diganãoàfiladupla”, escreveu o apresentador no Twitter.

Outras personalidades do setor empresarial como Jorge Gerdau Johannpeter (Gerdau), Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles (ambos Itaú Unibanco) também vieram a público criticar o “falso dilema” entre salvar vidas e garantir o sustento da população, um dos argumentos mais recorrentes de Bolsonaro para justificar ser contrário a medidas mais rígidas como o lockdown. Os empresários fazem parte de um grupo de 1.700 lideranças que assinaram uma carta aberta a Bolsonaro no final de março. A iniciativa teve como resultado o criação de um comitê de crise para combater a covid-19. “Efetivamente, Bolsonaro fez aquele gesto de criar a comissão para a pandemia, mas ela não está funcionando, nenhuma medida concreta saiu dali”, conta Marco Bonomo, um dos idealizadores da iniciativa. “Bolsonaro não mudou de posição, continua contra o distanciamento social e o combate à pandemia se mantém descentralizado, sem uma coordenação nacional. Dizem que vem aí uma campanha para usar máscara, uma coisa que devia ter sido feita há um ano”, lamenta o professor.

Pouco a pouco, novas vozes abandonam o princípio de isenção. “Falou-se em ‘menos Brasília, mais Brasil’, mas não estou vendo esse mais ‘Brasil’ chegar aqui na sociedade, nos cidadão, nas grandes e pequenas empresas”, disse em tom de desabafo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Carlos Moraes, durante videoconferência com jornalistas na quarta-feira. Moraes não poupou críticas a políticos que, por “incompetência, falta de visão ou visão só eleitoral”, estão criando ruídos “inaceitáveis” na gestão da crise sanitária e econômica. “Não se percebeu ainda em Brasília a gravidade da situação e se perceberam, estão demorando demais para agir”, afirmou.

Muitos não vão abandonar o barco. É o caso do primeiro bolsonarista, Luciano Hang, cujo papel nas eleições de 2018 fez com ele fosse investigado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no caso do disparo de mensagens de WhatsApp em massa pró-Bolsonaro. Um levantamento realizado pela revista Forbes mostra que o Governo Bolsonaro tem feito muito mal para os negócios do dono da Havan: ele perdeu cerca de 5 bilhões de reais só em 2020. “A pessoa apoiar um sujeito que faz com que ele perca dinheiro, eu, como economista, me sinto incapaz de analisar. Isso é o tipo de comportamento para um psiquiatra, sociólogo, antropólogo”, afirma José Luis Oreiro.

Seja pelo julgamento da história ou pelo bolso, os empresários vão ser cobrados a tomar um posição pela postura – ou silêncio — em meio à pandemia, tal qual nos tempos da ditadura. Durante o “regime empresarial-militar”, termo cunhado pelo jurista Fabio Konder Comparato, o apoio da sociedade civil foi fundamental para manutenção do poder dos militares nos anos de chumbo. A mesma Fiesp que hoje senta à mesa com o Governo militar de Bolsonaro, realizava encontros para convidar empresas a colaborar com a ditadura ―“Ford e a Volkswagen forneciam automóveis, a Ultragás emprestava caminhões e a Supergel abastecia a carceragem militar com refeições congeladas”, conta o jurista em artigo. O inimigo mudou, é verdade: a subversão comunista deu lugar à ameaça petista. “Imagina se o [Fernando] Haddad tivesse ganhado a eleição? O Brasil teria afundado, tinha virado o caos social”, disse Bolsonaro durante o encontro, segundo o áudio obtido pelo Valor Econômico. Em resposta ouviu ovação de um dos presentes: “Estamos com o senhor. O Brasil não volta para ladrão e vagabundo”.

Das empresas que colaboraram com a ditadura, a história vem cobrando sua parte. Que o diga a Volkswagen, que no final do ano passado foi obrigada a reconhecer sua cumplicidade com os órgãos de repressão e a destinar 36,3 milhões de reais a ex-trabalhadores e iniciativas pró-memória. A preocupação de empresários que agora tentam descolar sua imagem de Bolsonaro é a consciência de que a história também não vai esquecer aqueles que o elegeram e não se importam em ter sua imagem associada a sua política que desfigura o Brasil.


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