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Segunda-Feira 21.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Coluna

Os bebês da Pandemia e a ausência das avós em quarentena

A aguardada espera por aquele abraço bem apertado

Postado em 08 de Abril de 2021 - Theresa Hilcar

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Nasci no comecinho da manhã do dia 10 de março de 2020. Cheguei no meu tempo, de forma bem natural e muito saudável. Em seguida, fui enrolado em panos e colocado no colo da minha mãe. Apesar de ter me acostumado com o lugar onde estava, gostei daquele abraço quentinho.

À noitinha, recebi visitas dos meus quatro avós, dos tios e do meu irmãozinho. Todos animados e felizes com a minha chegada. No dia seguinte me levaram para a casa. A mesma onde por nove meses escutei todos os barulhos e vozes. Não deu para ver quase nada, porque meus olhinhos ainda se acostumavam com a claridade.

Dia 12 consegui enxergar um pouco, meio embaçado. Lembro que de tardinha, depois do banho, minha avó paterna chegou. Ela me pegou no colo, falou algumas palavras numa língua estranha e depois me devolveu ao berço. De onde eu estava consegui ouvi-la dizer que não poderia mais me visitar porque estava entrando em quarentena. Ordens expressas do trabalho. 

Escutei alguma coisa sobre um vírus recém-chegado e muito perigoso, principalmente para os maiores de 60 anos. E pior, as crianças poderiam contaminá-los porque em nós o tal bichinho fica escondido. 

Mas ninguém ficou triste na hora. A gente pensou que ia passar rápido e logo, logo minha avó poderia me visitar novamente. Mas não foi bem assim.

O tempo passou voando. E eu completei meu primeiro ano de vida outro dia. Na festinha teve bolo, madrinha, os avós maternos que vieram de longe, dois tios e priminhos. A minha avó paterna, que meu irmão chama de Teiêssa, só apareceu na telinha do celular que meu pai carrega o tempo todo

Mas eu que sou um bebê, não consigo me concentrar numa tela tão pequena. Mesmo que alguém esteja acenando, cantando e me chamando de lindo. Acabei voltando para o chão e fui brincar. Espero que ela não tenha se chateado com meu gesto.

Agora, já estou quase andando sozinho. Gosto muito de explorar a casa, o quintal, os brinquedos no quarto do meu irmão. Todo mundo diz que sou muito sorridente e simpático. Mas nem todos os meus predicados, nem minha fofura, conseguem demover minha avó do isolamento.

Em todo este tempo nos vimos 3 ou 4 vezes, quase sempre de longe. Na maioria das vezes estou sentado na minha cadeirinha instalada no carro dos meus pais. E essa é uma das poucas horas que eu choro sem parar. Eu detesto aquela cadeirinha. Por isto, nunca vejo direito minha vovó.

Mas um dia, num passeio que fizemos ao ar livre e cujo percurso me deixou muito nervoso, ela arrumou coragem e me pegou no colo. E ainda cortou meu cabelo com a tesoura da cozinha. Ouvi dizer que ela adora cortar cabelos. E o meu é parecido com o dela, liso e fininho. 

Engraçado que ela raramente me chama pelo nome. Ouvi dizer que ela acha difícil me chamar de Joaquim. É este o nome que meus pais me deram. Parece que ele lembra o dono de um armazém, lá da sua infância. Que também se chamava Joaquim mas tinha o apelido de Quinzico. 

Por associar meu nome a alguém muito velho, ela prefere me chamar de Quim ou de Quinzinho. Acho que vai acabar sendo assim no diminutivo enquanto eu for criancinha. Por mim tudo bem. 

Meu irmãozinho, o Luca, é muito apegado à vovó Teiêssa e tem muito ciúme de mim. Quando recebemos a chamada na telinha, coisa que ela faz sempre, nunca entro no foco. Ele sempre fica na minha frente se exibindo e falando uma porção de palavras. Coisa que ainda não faço.

Volta e meia alguém comenta sua ausência. Meu pai diz que ela sente muitas saudades e fica triste por não acompanhar o crescimento dos netos, não ter visto meus dentes nascerem. Levou até um susto quando viu minha boca com oito dentinhos. Ele também contou que às vezes ela chora. Muito.

Só sei que agora fofó, como diz o Luca, está muito ansiosa por uma coisa chamada vacina. Não entendo como alguém pode querer tanto ser picado por uma agulha. Mas ela quer muito. Dizem que só a vacina vai trazer minha vovó de volta. E eu não vejo a hora de ganhar o seu abraço bem apertado. Mesmo que eu tenha de disputar a tapas com meu irmão. Vem vacina!


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