Semana On

Sexta-Feira 20.mai.2022

Ano X - Nº 487

Coluna

Nosso morticínio

Idelber Avelar fala de todo o horror da pandemia, de editorias demolidores, deles e de nós

Postado em 08 de Abril de 2021 - Idelber Avelar

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Como vai se contar a história do morticínio brasileiro? Ninguém sabe ainda, mas já sabemos que será um capítulo da história do século XXI.

Fui dormir abalado pela morte de Leonardo Cisneiros, e me vi, ateu, pedindo aos orixás: “ok, eu sei que minha situação é absurdamente privilegiada, mas por favor me deem 24 para chorar por Léo sem escrever outro obituário”.

Acordo com a morte, por Covid, de Bosi, o cara que inventou a língua que eu falo.

Seria ridículo dar piti por não aguentar mais escrever obituários, mas eu lhes peço, aí no Brasil, que PERMANEÇAM VIVOS.

Tive notícia de gente que morreu por fratura de tíbia. Fratura de tíbia! Coisa simples de boleiro, que com nosso excelente SUS sempre remendamos sem problemas em qualquer cafundó do Brasil. Mas agora já é pesadelo, por causa do colapso hospitalar. Vem aí o colapso funerário.

É muito importante, neste momento, permanecer vivo, e tentar fomentar a potência de memória que temos, para contar, um dia, a história do morticínio brasileiro.

EDITORIAIS DEMOLIDORES

É bom já ir se acostumando com editoriais demolidores, como este do Guardian, do qual traduzo um trecho:

"A possibilidade de que o extremista de direita Jair Bolsonaro se tornasse o presidente do Brasil sempre foi assustadora. Eis aí um homem com uma história de vilipendiar mulheres, gays e minorias, e elogiar o autoritarismo e a tortura. O pesadelo, feito realidade, tornou-se pior. Não apenas ele já usou uma lei de segurança nacional da era da ditadura para perseguir seus críticos e presidir sobre um surto de desmatamento da Amazônia que é o maior em 12 anos, ele também permitiu que o coronavírus aterrorizasse de forma descontrolada, atacando as restrições de movimento, as máscaras e as vacinas. Só em março, 60.000 brasileiros morreram. 'Bolsonaro conseguiu transformar o Brasil em um gigantesco inferno', tuitou o ex-presidente da Colômbia Ernesto Samper recentemente. A disseminação da variante P1, mais contagiosa, está colocando outros países em perigo."

E isso é só o primeiro parágrafo.

MANDAMENTOS

Vocês se lembram dos R$ 3,2 milhões pagos pelo governo Bolsonaro à Record para exibir uma novela teocrata na TV Brasil?

Pois bem, a novela teocrata do bispo estreou com ZERO VÍRGULA DOIS pontos de audiência no Rio de Janeiro.

A audiência da novela teocrata é MENOS DA METADE do total alcançado pela própria TV Brasil no mesmo horário na semana anterior. O link vai nos comentários.

Pilantragem da grossa mesmo.

ELES EM NÓS

Isto aqui vai reunir a maior população de haters que você já viu em uma mesa na internet. Haters de esquerda, de direita, de centro, não percam!

E os amigos e as amigas que não percam também, claro.

Vai ser um prazer conversar com a Michele Prado no canal da Vera Magalhães, sobre "Eles em nós" e sobre "Tempestade ideológica", o livro da Michele sobre a alt-right. O calendário não permitiu que nossos livros dialogassem, mas o diálogo rola na quarta da semana que vem, dia 14, às 19h de Brasília, no canal da Vera.

TROLLS

O print é da Mônica Bergamo e mostra a operação de uma conhecida técnica do que chamei Partido dos Trolls, um dos seis partidos que compõem o bolsonarismo.

O governo tomou um contrato com cláusula de confidencialidade e jogou-o na internet. O contrato ficou no site do ministério seis dias. Ao fazer isso, o governo cria a impressão de que há algo errado no contrato, de que a Pfizer está “escondendo” algo e de que Bolsonaro é vítima.

O contrato agora já era, claro.

PAPO INTERESSANTE

Com Vera Magalhães, Pedro Doria, Pablo Ortellado e outras/os.

SOBRE CERVANTES

Reuni no Medium meus escritos sobre Cervantes, sua obra póstuma e favorita, "Los trabajos de Persiles y Sigismunda", e o romance bizantino como modelo narrativo seguido, inconscientemente, claro, pela operação Lava Jato.

Aí vai um trecho:

"O Persiles é o romance bizantino que Cervantes morreu corrigindo (1616), obra póstuma (1617) publicada simultaneamente em Madri, Barcelona, Pamplona, Paris, Valência e Lisboa. Em uns poucos anos, saiu uma versão em francês, logo uma em inglês, feita em segunda mão a partir daquela. Também circulou em alemão durante o seu tempo. O livro voltaria a aparecer em inglês, em tradução anônima, em meados do século XIX. José Bento lançou versão em português em 2014.

[...]

Um romance bizantino conta sempre a mesma história: um casal se separa no começo do livro, vive incontáveis peripécias e se reúne no final. O que importa é o que acontece no meio: naufrágios, sequestros por piratas, torturas, batalhas com reis ou príncipes de reinos longínquos, mortes de interlocutores/as e companheiros/as de viagem, mais torturas, naufrágios e batalhas, e o reencontro final.

[...]

No Persiles, Cervantes previu a Lava Jato: no livro III da obra, as peripécias nos levam a um povoado desiludido que recebe um juiz paladino da moral. Esse juiz vai levando todo mundo na lábia, inclusive a imprensa de seu tempo, enquanto persegue “corrompidos” de forma valente. No vácuo de poder criado pela derrubada dos alvos do juiz valentão, um débil mental aparece, termina de arrebatar os incautos, e o povoado explode e morre.

É verdade que aquela que Cervantes considerou sua maior obra foi rapidamente caindo no esquecimento, soterrada pela grandiosidade do Quixote e pela modernidade patente das Novelas ejemplares. É fato que já quase ninguém lê o Persiles. Também é fato que é difícil relê-lo no Brasil de 2021 sem algum espanto e terror."


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