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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Poder

Lula vem aí pelo centro e com um pé na direita

Boas intenções não faltam às forças do centro. Faltam votos

Postado em 02 de Abril de 2021 - Ricardo Noblat - Veja

Folha de SP/UOL Folha de SP/UOL

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No dia seguinte à sua eleição em outubro de 2002, Lula reuniu o estado maior de sua campanha em um hotel do bairro dos Jardins, em São Paulo, e foi logo avisando: “Nesta mesa, somente eu e José de Alencar fomos votados, não se esqueçam disso”.

Em seguida, disse que haveria lugar para todos no governo, mas que só trataria disso na hora oportuna. Empossado, em uma das primeiras reuniões ministeriais, queixou-se: “Toda vez que decido pela esquerda, eu me ferro”.

Entre os presentes na reunião feita por ele na semana passada em São Paulo com deputados federais e senadores do PT, houve quem se lembrasse dos dois episódios ao ouvi-lo dizer que não se pode falar em frente ampla de partidos sem incluir o centro e a direita.

A ser candidato à sucessão do presidente Jair Bolsonaro no ano que vem, Lula só o fará se conseguir atrair sólidos apoios de partidos do centro e de fatias da direita. Quanto mais, melhor. Tudo isso em nome da reconciliação do país.

Venham todos a mim com a certeza de que os acolherei – e pau em Bolsonaro sem dó nem piedade. Será mais ou menos assim.

Centro

O problema das chamadas forças do centro para disputar a eleição presidencial do ano que vem é que elas têm candidatos demais e, ao que tudo indica, eleitores de menos realmente dispostos a não votarem em Jair Bolsonaro e Lula.

Alguns desses candidatos lançaram um oportuno manifesto a propósito dos 57 anos do golpe militar de 64. Alertaram para o risco das tentações autoritárias e pregaram a unidade dos que se recusam a escolher apenas entre direita e esquerda.

A ideia do manifesto foi do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM), da Saúde. A ela aderiram Ciro Gomes (PDT), João Doria e Eduardo Leite, ambos aspirantes à candidato pelo PSDB, João Amoedo (Novo) e Luciano Huck (sem partido).

O ex-juiz Sérgio Moro participou da redação do manifesto, mas não o assinou devido a cláusulas de contrato com um escritório americano de advocacia. Pesquisa do site Poder 360 apurou que apenas 12% dos eleitores votariam hoje em um nome do centro.

Para complicar a vida das forças do centro, Lula, em sucessivas entrevistas que tem concedido, repete que se for necessário buscará o apoio de partidos moderados à sua eventual candidatura a presidente. É o que Bolsonaro também promete fazer.

A direção nacional do PSDB tem dado sinais de que poderá renunciar à pretensão de lançar candidato próprio. Carlos Lupi, presidente do PDT, disse ao jornal Valor que Ciro poderá sair do páreo se surgir um nome de centro mais forte.

O manifesto é uma carta de boas intenções, mas não passa disso. Por outro lado, e com perdão pelo truísmo, para que as coisas de fato aconteçam é preciso que comecem. A largada foi dada.


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