Semana On

Domingo 19.set.2021

Ano X - Nº 461

Poder

Governo manobra para preservar linha ultraconservadora na diplomacia

Ernesto Araújo será devolvido a seu merecido anonimato, lugar onde seus delírios não prejudicam o País

Postado em 02 de Abril de 2021 - Jamil Chade (UOL), Estadão - Edição Semana On

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

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A queda de Ernesto Araújo não significará uma mudança radical na postura do Brasil em alguns dos principais assuntos da política externa e o governo manobra atua para preservar o caráter ultraconservador que marcou os dois primeiros anos de Jair Bolsonaro.

Desde a saída de Araújo do Itamaraty, há uma tentativa por parte do ex-chanceler de emplacar seus aliados em alguns dos departamentos considerados como chave dentro do Ministério das Relações Exteriores.

Isso, na visão da ala mais radical do bolsonarismo, permitiria que algumas das principais linhas de atuação do Brasil nos últimos dois anos sejam mantidas, principalmente no que se refere aos temas de costumes, direitos humanos e papel do multilateralismo.

Devem mudar as posturas públicas sobre a China, para não ampliar o desgaste e atender aos exportadores. Já o novo ministro, Carlos França, terá o desafio de reatar uma relação positiva com Joe Biden.

Mas a adesão do Brasil à OCDE, a defesa da religião, a postura antiaborto e questões sobre direitos humanos não devem ser afetadas. Também não deve ser afetada a nova aliança entre Brasil e Israel, um ponto que agrada a base evangélica do governo.

Ao entregar seu cargo, o chanceler passou a buscar espaço para os diplomatas considerados como aliados e aqueles que poderiam seguir a receita olavista para a política externa.

Uma das movimentações inclui a tentativa de colocar seu chefe de gabinete, Pedro Wollny, como secretário-geral, o que na prática seria o vice-ministro.

Outros também poderiam ser deslocados para áreas decisivas dentro do Itamaraty. A percepção interna no Itamaraty é de que os diplomatas mais alinhados com o olavismo terão dificuldades para que suas nomeações para cargos no exterior sejam aprovadas pelo Senado.

A busca, portanto, é para que possam ser descolados para áreas estratégicas em Brasília.

A própria escolha do novo chanceler, Carlos França, foi interpretada internamente como um sinal de que o Itamaraty foi "rebaixado" e que existe um risco real de que a política externa seja desenhada fora dos muros da chancelaria, justamente pela ala mais radical do governo.

França, um diplomata de pouco destaque, não tem poder interno, é considerado como uma pessoa sem um prestígio específico e incapaz de peitar o Planalto. Ele nunca chefiou uma embaixada do Brasil no exterior, nunca chefiou uma subsecretaria e nem um departamento no Itamaraty.

Ele poderia dar um novo tom público e evitar um confronto aberto com a China. Mas não mudaria de forma radical a postura do país, inclusive por ter ainda de coordenar posições com a ministra Damares Alves para temas de direitos humanos e com outras pastas.

Para embaixadores, um ponto fundamental é ainda a manutenção de Filipe Martins, assessor especial da presidência. Dentro do próprio gabinete de Araújo, diplomatas afirmaram à coluna que o assessor cometeu um sério erro durante a audiência do chanceler, no Senado, em fazer um sinal que foi interpretado como um gesto supremacista branco. Ele nega e teve seu posto preservado, o que mostrou que conta com força e apoio suficiente do bolsonarismo mais radical.

A formulação da política externa brasileira não é completa, porém, sem o envolvimento direto de Eduardo Bolsonaro. Nos primeiros meses de governo, ele chegou a ser cotado para ser embaixador do Brasil nos EUA e mesmo chanceler.

Hoje, diplomatas admitem que o governo resolveu esse impasse. O filho do presidente, mesmo de fora, tem o poder de dar as cartas no Itamaraty, sem nem precisar sequer assumir a pasta.

A demissão do ‘orgulhoso pária’

Ernesto Araújo finalmente deixou de ser ministro das Relações Exteriores. Depois de passar mais de dois anos contribuindo decisivamente para arruinar a imagem do Brasil no exterior, Araújo entregou o cargo em meio a uma enorme pressão de parlamentares governistas, especialmente no Senado.

O motivo imediato da hostilidade a Araújo foi sua atuação danosa aos interesses do País em relação aos esforços para a obtenção de vacinas contra a covid-19, sobretudo suas agressões à China, país que fornece os insumos para a fabricação dos imunizantes produzidos no Brasil.

Seu afastamento foi considerado indispensável pelos senadores envolvidos na reformulação completa da política de combate à pandemia. Afinal, não havia a menor possibilidade de suavizar as relações com a China enquanto o Itamaraty fosse chefiado por um ministro que insinuou reiteradas vezes que aquele país fabricou o coronavírus, chamado por ele de “comunavírus”, para prejudicar as democracias e disseminar o comunismo.

Vendo-se encurralado, Ernesto Araújo fez o que os extremistas fazem melhor: partiu para o ataque com ilações maldosas. Foi às redes sociais para sugerir que os senadores – citando especialmente Kátia Abreu (PP-TO), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado – o estavam pressionando não para obter vacinas, mas por interesse em favorecer a China no leilão da tecnologia 5G. Ao agir assim, Araújo selou sua sorte – a senadora Kátia Abreu o chamou de “marginal” –, mas, ao mesmo tempo, deu à militância bolsonarista um discurso sob medida para atribuir sua queda ao comunismo chinês e à suposta pusilanimidade de políticos interesseiros.

Mas que ninguém se engane: tudo o que Ernesto Araújo fez ao longo de sua passagem pelo Ministério das Relações Exteriores, até o último minuto, seguiu rigorosamente as diretrizes do presidente Jair Bolsonaro.

“O presidente Bolsonaro tem confiança no meu trabalho. Meu trabalho não é meu, é a implementação de uma agenda de política externa que o presidente traz desde a campanha”, disse o então chanceler em entrevista recente ao Estadão. E ele completou, para não deixar dúvidas: “Tenho respaldo (de Bolsonaro) porque desde o começo sempre propus ao presidente maneiras de implementar as ideias dele. (...) O presidente me nomeou por causa do meu compromisso de fazer a política que ele queria, implementar as coisas que ele quer, a visão de mundo”.

Desse modo, pode-se supor que Bolsonaro aceitou se desfazer de seu lealíssimo chanceler muito a contragosto, e somente quando ficou claro que era sua própria sobrevivência política que estava em jogo.

Tem sido assim desde que o Centrão se assenhoreou do governo, tutelando o presidente para fazê-lo parar de sabotar o combate à pandemia.

O bolsonarismo planeja desde sempre transformar a Chancelaria em uma cidadela de lunáticos reacionários, sob inspiração de um obscuro ex-astrólogo que mora nos Estados Unidos.

Nessa toada, Araújo entrou para a história como o chanceler que disse ter orgulho da condição de “pária internacional” que o País assumiu sob o comando de Jair Bolsonaro; que chamou de “cidadãos de bem” os golpistas que invadiram o Capitólio para tentar reverter na marra a derrota de Donald Trump na eleição presidencial dos Estados Unidos; e que ajudou a azedar as relações não só com a China, mas com diversos vizinhos sul-americanos e com países europeus. Uma folha de serviços e tanto, para quem foi nomeado chanceler sem nem sequer ter sido embaixador.

Felizmente, ao que parece, Ernesto Araújo será devolvido a seu merecido anonimato, lugar onde seus delírios não prejudicam o País. Sem ele, o governo de Bolsonaro tende a ficar um pouco menos bolsonarista – o que, a esta altura, é um alento.


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