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Segunda-Feira 21.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Brasil

Morte do Censo por inanição representa governo que cria sua própria verdade

Para Paulo Guedes, perguntas demais podem levar a descobertas incômodas

Postado em 01 de Abril de 2021 - Leonardo Sakamoto - UOL

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O Congresso Nacional aprovou um corte de mais de 90% no orçamento do Censo do IBGE que estava planejado para este ano. Digo "estava" por que esse valor inviabiliza na prática o levantamento, fundamental para o país.

A previsão era gastar R$ 2 bilhões neste ano - o que já seria uma sombra da estimativa de R$ 3,4 bilhões de 2019. Naquela época, o valor foi desidratado e o número de questões, reduzido.

O Censo, que já estava atrasado um ano por conta da pandemia, entrou na fila da UTI. Funcionários ainda temem pela covid, mas não foi isso que enterrou a pesquisa, mas o fato de termos um governo que não dá valor para dados e fatos reais e que construiu essa desidratação orçamentária.

No último dia 25, a presidente do IBGE, Susana Guerra, pediu exoneração por "motivos pessoais".

Não é preciso ser especialista para entender que um país deve fornecer informações confiáveis não apenas sobre sua economia, mas a respeito dos outros aspectos da vida cotidiana, a fim de que pessoas, organizações e empresas tomem decisões baseadas na realidade.

O Brasil sempre produziu números embasados, nossos institutos têm renome internacional e os trabalhadores desses órgãos são de grande competência. Mas os últimos tempos têm sido sinistros para quem trabalha com levantamento de de dados, uma vez que o próprio governo, insatisfeito com a realidade, vem comprando brigas com ela.

Para nossos gestores, não raro, o problema não é uma febre, mas o termômetro que a indica.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, menosprezou o questionário do Censo. "Vamos tentar, pelo amor de Deus, simplificar", afirmou no dia 22 de fevereiro de 2019, sugerindo a redução do questionário. "Se perguntar demais você vai acabar descobrindo coisas que nem queria saber. Sejamos espartanos, façamos as coisas mais compactas e vamos tentar de toda forma ajudar", disse.

O presidente Jair Bolsonaro já afirmou que a metodologia de cálculo de desemprego do IBGE estava errada porque não concordava com ela.

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, disse que as taxa de desmatamento eram manipuladas e infladas.

Osmar Terra, então ministro da Cidadania, já reclamou que não confiava em pesquisa da Fiocruz, instituição de renome internacional que, hoje, vem sendo fundamental para a produção de vacinas contra a covid e o combate à pandemia.

O chanceler Ernesto Araújo não acredita em mudanças climáticas e afirmou que o aumento da média da temperatura global ocorreu porque estações de medição de temperatura que estavam no "mato" hoje estariam no "asfalto".

Aliás, após dizer que tinha a "convicção" de que dados de desmatamento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais são "mentirosos" e ouvir uma resposta dura de Ricardo Galvão, então chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Bolsonaro revelou que o objetivo era maquiagem mesmo.

Disse que estava preocupado com dados que podiam "prejudicar o país", ser "propaganda negativa" ao Brasil no exterior. E que se Galvão tivesse identificado dados alarmantes, deveria ter procurado seus superiores para avisar por questão de "responsabilidade" e "patriotismo".

O atual governo federal é um motorista que conduz o país por uma estrada esburacada e, ao invés de usar toda informação possível para uma travessia tranquila, grita que as placas sinalizando "pista escorregadia" são fake news, e acelera.

Após um esperado acidente, lamenta o ocorrido dizendo que nunca desconfiou das placas ou as culpa por uma suposta falta de clareza - e critica quem diz que ele não sabe dirigir.

Já fiz essa análise aqui, mas achei que valia a pena trazê-la de novo. Pois tudo isso seria engraçado se nós não fossemos nós os passageiros desse ônibus, que não conta com cinto de segurança.

Políticos pouco afeitos à democracia, quando colocados contra a parede, tendem a reduzir a transparência de informações às quais a sociedade tem acesso a fim de adaptar a realidade à sua narrativa.

Não foi à toa que veículos de comunicação se juntaram em um consórcio, em junho do ano passado, para apurar e divulgar os dados sobre casos e óbitos por covid-19 diariamente. Isso surgiu a partir do momento em que o Ministério da Saúde começou a fazer malandragem com a sua divulgação uma vez que os números de mortos começavam a incomodar.

Pelo menos é um governo que honra suas origens. Diante de cenários negativos, tortura números até que gritem o que ele deseja ouvir.


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