Semana On

Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Poder

Araújo transforma em pesadelo pessoal o sonho de fazer do Brasil um pária

Mas sua cabeça pode ficar para ser decepada mais adiante

Postado em 26 de Março de 2021 - Josias de Souza (UOL), UOL, RBA, Ricardo Noblat (Veja) – Edição Semana On

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O antichanceler Ernesto Araújo aperfeiçoou o conceito anedótico de Napoleão de hospício. Planejou sua própria imolação, como um Napoleão se descoroando. Ficou seminu. No momento, veste apenas uma corda no pescoço. Virou uma demissão esperando para acontecer.

Araújo já havia se tornado um caso raro de chefe das Relações Exteriores que se orgulha de envenenar as relações do Estado brasileiro. "Talvez seja melhor ser esse pária deixado ao relento, deixado de fora, do que ser um conviva no banquete no cinismo interesseiro dos globalistas, dos corruptos e semicorruptos".

Graças à pandemia, Araújo atingiu o ápice da realização. Além de realizar o sonho de fazer do Brasil um "pária internacional", o gênio da diplomacia realizou o pesadelo de converter a si mesmo num pária nacional. Considerava-se um exemplo. Virou um estorvo letal.

Após atacar o "covidismo" que surgiu nas pegadas da disseminação do "comunavírus", Araújo foi intimado pelas circunstâncias a buscar no estrangeiro, sobretudo na China, os insumos hospitalares que escasseiam no Brasil.

No Congresso, pedem a cabeça de Araújo do porteiro ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Se dependesse de Bolsonaro, o antichanceler seria mantido na chefia do hospício diplomático. Mas o presidente terá que dar alta ao personagem, sob pena de ser chamado de louco.

Restaram a Araújo poucos apoios. Além do suporte que recebe dos zeros à esquerda da prole presidencial, ele conta apenas com os bons sentimentos de sua mulher, Maria Eduarda.

"Estão tentando transformar meu marido em bode expiatório da República", anotou a primeira-dama do anti-Itamaraty. "Patético. Aguenta firme, meu amor."

A essa altura, é difícil saber o que é mais patético, se o bode expiatório ou o bode exultório que madame tenta criar.

Enquanto aguarda pelo instante em que Bolsonaro apertará o nó ao redor do seu pescoço, Araújo despeja a Bíblia no Twitter. "O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta... Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor." (1 Coríntios 13:6-13)

Impregnado de tanto amor, Ernesto Araújo tem dificuldades para notar que a diplomacia não é coisa para amadores.

Unanimidade: todos desconfiam dele, diz Celso Amorim

Extremista e negacionista, o chanceler rompeu elos internacionais, o que isolou o país e inviabilizou a compra de vacinas contra covid-19. O diplomata Celso Amorim, ex-ministro de Relações Exteriores e da Defesa, afirma que Ernesto Araújo se tornou uma “unanimidade negativa” no Brasil e no mundo. “É o mínimo de dignidade ele sair. O chanceler está sendo criticado por todos, ele é uma unanimidade negativa. Todos desconfiam dele, sejam pela ideologia ou por sua incompetência intelectual”, afirmou em entrevista à jornalista Marilu Cabañas.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), criticou a política externa brasileira em sessão da Casa, no último dia 24. Também nesta semana, pelo menos cinco senadores fizeram menções explícitas à troca de comando no Itamaraty, em outra sessão do Senado, que contou com a presença do próprio Ernesto Araújo.

Com 50 anos de experiência internacional, Celso Amorim diz que nunca viu um ministro tão incompetente no cargo. “É uma vergonha tê-lo como ministro. Em 50 anos na função internacional, nunca vi nada parecido com isso. O Itamaraty sempre foi respeitado mundialmente e, agora, está enxovalhado. Nenhum país quer mais contato com o Brasil“, criticou.

Esse isolamento do Brasil também se dá dentro do próprio continente latino-americano. Amorim lembra que não existe mais relação do Brasil com os países vizinhos, que tenta destruir o Mercosul. “O Brasil, que já foi a 10ª maior economia do mundo, está isolado. É um milagre às avessas. Não basta ser incompetente, é maléfico. E com a pandemia, o Brasil virou uma bomba atômica de contaminação no mundo”, acrescentou.

Prefeitos insatisfeitos

A FNP (Frente Nacional de Prefeitos) também cobrou a demissão do ministro das Relações Exteriores. Para o grupo, a postura do diplomata e a atual política externa brasileira comprometem o enfrentamento à pandemia de covid-19.

"Ocorre que neste momento de pandemia não há espaço para o que vem sendo relevado desde a posse do atual ministro. Diante disso, a Frente Nacional de Prefeitos registra sua apreensão e preocupação com esse contexto", disse.

"[A FNP] clama, portanto, para que o governo federal assuma sua responsabilidade, substitua o ministro e reverta a política externa desastrosa que vem adotando", continuou.

A frente cita a postura contrária do Ernesto ao ingresso do Brasil no Covax Facility, consórcio para distribuição de vacinas contra a covid-19, fato este revelado na sexta (26) pela coluna do Guilherme Amado, da Época, para pedir a demissão do diplomata.

"O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, já apresentou um leque diverso de trapalhadas e atitudes destrutivas", enfatizou.

"É premente a necessidade de medidas tempestivas para tentar recuperar a imagem do país no exterior, sob pena de comprometer, ainda mais, a inescapável e urgente aquisição de vacinas contra o coronavírus", concluiu.

Com a cobrança da demissão de Ernesto, a FNP se junta ao centrão, que pressiona o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pela demissão do diplomata do Itamaraty.

Em audiência realizada no último dia 24 no Senado, Ernesto foi cobrado pelo presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e por outros senadores, que consideram que a atual política diplomática brasileira prejudicou compra de vacinas contra a covid-19.

Antes de oficializar a demissão de Ernesto, Bolsonaro tem buscado uma saída honrosa ao hoje ministro, ao mesmo tempo em que é rondado por senadores que buscam indicar um sucessor.

Sobrevida?

Entregar numa mesma bandeja as cabeças do ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e de Filipe Martins, o falso judeu que ostenta o pomposo título de assessor para assuntos internacionais, seria para o presidente Jair Bolsonaro sinal de que se tornou refém do Centrão, o que ainda não aconteceu de todo.

A cabeça de Martins até que faria sentido decepar, afinal, ele se comportou como um moleque e respondeu com um gesto claramente racista aos ataques que Araújo sofreu ao ser sabatinado por senadores sobre política externa, o que não é seu forte, convenhamos. Seu forte é agradar a Bolsonaro.

A demissão dos dois faria bem ao governo, mas não é disso que se trata, é do presidente e dos filhos dele. Martins está onde está por ser discípulo do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, guru de Flávio, Carlos e, principalmente, Eduardo. Araújo, por fazer tudo o que Bolsonaro manda, e nada mais além. Tem juízo.

O Centrão avança cada vez com mais apetite sobre um governo que se fragiliza. Ao aprovar o Orçamento da União de 2021, arrancou 26 bilhões de reais a mais do que inicialmente previsto para emendas parlamentares destinadas a obras e ações de deputados e senadores. Dinheiro à beça às vésperas de ano eleitoral.

Não tem do que se queixar. Abocanhar a vaga de Araújo poderá ficar para outra ocasião. Bolsonaro só faz sangrar e descer ladeira.


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