Semana On

Domingo 17.out.2021

Ano X - Nº 463

Especial

Quem vai parar o genocida?

Centrão e empresariado acendem o sinal amarelo do impeachment

Postado em 25 de Março de 2021 - Afonso Benites (El País), Josias de Souza e Juliana Dal Piva (UOL), William Waack (Estadão), Ricardo Noblat (Veja) - Edição Semana On

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O Brasil superou no último dia 24 a trágica marca dos 300.000 mortos por covid-19, segundo os dados do próprio Ministério da Saúde. A vergonhosa marca veio no mesmo dia em que o novo ministro, Marcelo Queiroga, falou pela primeira vez como titular da pasta —o quarto do Governo Bolsonaro na pandemia, sucedendo Eduardo Pazuello. Suas posições frustraram quem esperava uma medida radical, para reverter a curva ascendente de mortes no país. Nesta quarta mais de 2.000 mortes, chegando a exatos 300.685 óbitos. Apesar do número assustador, que poucos países carregam, o ministro Queiroga descarta um lockdown nacional para estancar a sangria de mortes no Brasil. “Quem quer o lockdown? Ninguém quer o lockdown. Nós precisamos impor medidas sanitárias eficientes”, disse Queiroga. “Até porque a população não adere ao lockdown. Precisamos de máscaras e distanciamento.”

Se a restrição de circulação já era a solução óbvia há um ano quando o presidente Jair Bolsonaro fez uma transmissão em cadeia nacional de rádio e TV em que minimizava o impacto da covid-19, agora o desgaste político escala com a insistência da cartilha negacionista do Planalto e de seu novo ministro. A pressão dos brasileiros por medidas eficientes chegou aos ouvidos do presidente nesta terça com um forte panelaço em diversas capitais do Brasil. O panelaço aconteceu enquanto Bolsonaro falava em cadeia nacional sobre o plano de preservar vidas com um ano atraso e mentindo sobre ações tomadas pela vacinação, um emaranhado de atrasos e decisões tida como equivocadas por especialistas. Agora, o Congresso Nacional também cobra ações, quando falta um ano para as eleições de 2022.

Nas últimas semanas, houve ameaças de retaliações em projetos de interesses do Governo no Parlamento caso o presidente não liderasse o combate à pandemia e deixasse de lado as picuinhas políticas de olho no calendário eleitoral. Na quarta-feira (24), o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), eleito com o apoio do Planalto, subiu o tom como nunca antes e, ao criticar a gestão da crise, pôs o impeachment na mesa de forma indireta: “Estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar”, discursou no plenário da Câmara dos Deputados. “Os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais. Muitas vezes são aplicados quando a espiral de erros de avaliação se torna uma escala geométrica incontrolável. Não é esta a intenção desta Presidência.”

Não é uma advertência qualquer. Lira, que lidera o Centrão, o grupo de partidos de centro-direita que se tornou o principal eixo de sustentação parlamentar do Governo, é quem tem o poder de analisar qualquer um das dezenas de pedidos de impeachment contra o presidente ultradireitista e colocar um eventual processo em tramitação. Não foi o único sinal. Mais cedo, o parlamentar cobrou uma atuação mais incisiva do chanceler Ernesto Araújo nas negociações de vacinas e insumos. Foi em uma reunião na manhã desta quarta, quando Bolsonaro reuniu pela primeira vez a cúpula do Congresso, do Judiciário e governadores aliados para se discutir a crise. Lira se deparou com um Araújo, que balança no cargo, calado, e, por fim, afirmou que esse é o momento de retirar a ideologia do combate à pandemia. “Buscamos a união de todos para que possamos nos comunicar melhor e despolitizar a pandemia.”

O “sinal amarelo” do Centrão é de que não quer se associar, sem ponto de fuga, ao presidente que, há um ano, chamou a doença de “gripezinha” e pediu que governadores e prefeitos que iniciavam a implantação de medidas de restrição de circulação naquele momento abandonassem “o conceito de terra arrasada”. Então, o Brasil tinha então 46 mortos e o presidente brasileiro fazia aparições públicas sem máscaras em meio a aglomerações, o que seguiu repetindo durante os últimos meses. Somente agora, o Governo começa a ensaiar uma ação coordenada entre poderes, com um gabinete de crise que deveria ter sido montado no primeiro dia. Ainda assim, segue esbarrando na desorganização: nesta semana, quando o país atinge a vexatória marca de mortes, o Ministério da Saúde chegou a anunciar a mudança na forma de registrar as vítimas da doença, o que levaria a uma diminuição dos dados diários. Após queixas dos Estados, voltou atrás na alteração.

Bolsonaro prometeu criar um comitê nacional de acompanhamento da pandemia, que será composto por representantes do Executivo, de governos estaduais e do Congresso. A mudança, atrasada, vem na sequência do manifesto de um grupo de 1.500 economistas, banqueiros e empresários publicado no final de semana, que cobrava um confinamento nacional bem como o fim do falso dilema entre salvar vidas e recuperar a economia. “A vida vem em primeiro lugar”, disse o presidente na manhã desta quarta. Mas seu método para preservar vidas, como mostrou o novo ministro da Saúde, não casa com a emergência do momento. Bolsonaro deixou claro que, mesmo com a mudança temporária de discurso, ele seguirá defendendo o uso de remédios comprovadamente ineficazes no tratamento da covid-19, como cloroquina e ivermectina. “Tratamos da possibilidade de tratamento precoce, isso fica a cargo do ministro da Saúde, que respeita o direito e o dever do médico [para usar medicamentos] off label para tratar os infectados”, afirmou o presidente após um encontro com o presidente do Supremo Tribunal, Luiz Fux.

A sugestão da criação de um comitê foi feita por parlamentares e apresentada pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Na sua fala após o encontro, Pacheco reforçou que quem precisa liderar essa comissão é o presidente da República, mas se colocou à disposição para ser o interlocutor com os governadores dos 27 Estados e do Distrito Federal. “É preciso que estejamos todos imbuídos do propósito colaborativo de união nacional para dar colaboração do Estado brasileiro”, afirmou.

Sem poder compor o comitê por ter de se manter imparcial em eventuais julgamentos, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, comprometeu-se em buscar alternativas para agilizar a análise de processos que envolvam o combate à pandemia. O anúncio de criação de um comitê gerou reações descrentes entre parlamentares. O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) disse que esse comitê chega com um ano de atraso e que é um “embuste”. “[É] só uma estratégia para dividir desgastes. Aceleração de vacinação, mais leitos de UTI e insumos? Nada, só enrolação”, afirmou em sua conta no Twitter. A criação do comitê também tem sido vista como mais um dos efeitos Lula no tabuleiro político. Há duas semanas, em sua primeira manifestação após ter seus direitos políticos restabelecidos, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrou que Bolsonaro montasse tal comissão. “Muitas dessas mortes poderiam ser evitadas se o governo tivesse feito o elementar. A arte de governar não é fácil, é a arte de tomar decisão. Se o presidente respeitasse o povo, teria criado um comitê de crise em março de 2020”, declarou no dia 10.

Uma análise

A história ofereceu a Bolsonaro a rara oportunidade de presidir a crise sanitária do século. Ele preferiu trocar o figurino de líder pelo papel de estorvo. Transformou-se numa oportunidade que o coronavírus aproveitou.

No dia em que a pilha de cadáveres atingiu a constrangedora marca de 300 mil, Bolsonaro inaugurou o expediente enfeitiçado por um tipo de ilusão que a realidade não costuma perdoar num presidente débil: a ilusão de que preside.

No fim do dia, Bolsonaro foi informado de que seu destino passou a ser presidido pelo vírus. A carta do impeachment retornou ao baralho, sinalizou Arthur Lira, suposto aliado do governo.

Pela manhã, Bolsonaro colocou em prática um plano para atingir o objetivo estratégico de passar a impressão de que comanda. Reuniu-se no Alvorada com a cúpula da República. Anunciou a criação de um comitê anticovid.

No final do dia, o hipotético presidente da República percebeu que teria de ralar por um segundo objetivo estratégico: não cair. Discursando sobre os erros do governo na pandemia, Lira acendeu o "sinal amarelo". Avisou que "tudo tem limite".

Pressionado pelos líderes partidários, o réu que comanda a Câmara lembrou que os remédios legislativos contra o desgoverno "são conhecidos". Enfatizou: "Todos amargos." Há nas gavetas de Lira sete dezenas de pedidos de impeachment.

Na reunião matutina do Alvorada, aquela que desaguou na criação do comitê de crise, Bolsonaro desperdiçou o tempo dos convidados com idiossincrasias como o "tratamento precoce" da Covid com remédios ineficazes.

A recaída cloroquínica mostrou que Bolsonaro, especialista em virar a mesa, não havia ensaiado adequadamente o teatro de sentar à mesa para negociar. No espaço reservado aos governadores, havia apenas aliados.

Na divisão de tarefas do comitê anticovid, coube ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, a tarefa de negociar com os estados. O senador organiza para a manhã de sexta-feira uma videoconferência com governadores. Sem Bolsonaro.

Na saída da reunião do Alvorada, Pacheco chamara o arranjo do comitê de "pacto nacional liderado por quem a sociedade espera que lidere, que é o senhor presidente da República, Jair Bolsonaro."

Ecoando Pacheco, Arthur Lira dissera que o comitê produziria uma unificação de discurso, "para que possamos ter rumo, coordenados com a supervisão do presidente da República, comandante em chefe do Estado brasileiro."

Horas depois, Pacheco trocava telefonemas com governadores. Era como se o vírus tivesse nomeado o comandante do Senado para o posto extraordinário de primeiro-ministro de uma República à deriva.

Simultaneamente, Lira ralhava com o governo no plenário da Câmara. "Estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar", declarou Lira.

O líder do centrão acrescentou: "Não vamos continuar aqui votando e seguindo um protocolo legislativo com o compromisso de não errar com o país se, fora daqui, erros primários, erros desnecessários, erros inúteis, erros que não são muito menores do que os acertos cometidos continuarem a serem praticados."

Para quem ainda não consegue ligar o nome aos prontuários, o centrão é aquele conglomerado partidário que vendeu sua mão de obra legislativa para Lula, aproveitando o Planalto de fachada operária para cavar ótimos negócios.

É aquele mesmo grupo que foi dormir prometendo fidelidade eterna a Dilma Rousseff e acordou nos braços de Michel Temer. Dilma ficou com raiva. O centrão ficou com tudo.

Eleito chamando o centão de "escória", Bolsonaro achegou-se ao grupo em troca de proteção. Entregou cargos e verbas. Entretanto, a pilha de cadáveres começa a modificar a relação custo-benefício.

Sob influência do vírus, o mesmo centrão convida Bolsonaro a submeter a resolução dos seus dilemas sanitários à simplicidade de um semáforo quando muda de verde para amarelo, intimando o sujeito a decidir se para ou avança.

O Legislativo inaugurou um espetáculo novo. Voltou a piscar no letreiro metafórico do Congresso uma indagação que já enviou dois presidentes para casa mais cedo: "Será que termina o mandato?"

Elites revoltadas

“Essa barca já foi”, diz empresário de peso, engajado em política, sobre o apoio de colegas ao presidente Jair Bolsonaro. Uma parte relevante da elite industrial, do setor financeiro, serviços e até varejo considera inútil esperar mudanças de conduta de Bolsonaro em relação ao combate à pandemia e à economia. Essa postura ficou escancarada com a adesão desses setores, com destaque para o financeiro, a um manifesto político batizado de “carta dos economistas”.

Para onde vão com a barca, que é conduzida por grupos informais de WhatsApp, ainda é uma incógnita. Neste momento, quem se disporiam a apoiar é um porto desconhecido para os próprios empresários, integrantes de uma elite que abraçou entusiasmada a derrocada do PT e a eleição de Bolsonaro em 2018 e hoje se considera profundamente decepcionada. Esse estado de espírito está se propagando e já chegou a setores do agronegócio – lembrando que a candidatura de Bolsonaro cresceu no arco próspero produtor de grãos e proteínas antes de se transformar em fenômeno em grandes centros urbanos.

“Demos a ele 75% dos votos aqui em Santa Catarina”, afirma dirigente de entidade representativa de produtores rurais naquele Estado. “Hoje a gente se pergunta para que fizemos isso.” A despedida em relação ao governo Bolsonaro de relevantes segmentos da economia, incluindo os famosos “Faria Limers”, vem um pouco depois do desembarque das elites acadêmicas e das profissões liberais não necessariamente identificadas com o que se possa chamar de “esquerdas”. Antes mesmo da vitória de Bolsonaro, alertavam para o componente corporativista, populista, extremista e ideologizado que – e o diagnóstico revelou-se certeiro – se imporia sobre qualquer projeto de agenda “liberal” na economia.

Há um componente na “visão de mundo” populista de Bolsonaro perfeitamente em linha com fenômenos comparáveis na Europa, Ásia e EUA. É o desprezo pelas elites em sua acepção mais ampla, incluindo cientistas, especialistas e experts. Bolsonaro se julga detentor de um tipo de “sabedoria popular” que não é outra coisa senão a celebração da ignorância, do preconceito e de propostas aparentemente “simples e geniais” que só contribuem para agravar os problemas, como ficou patente no caso da resistência às medidas restritivas para combater a pandemia e a promoção de medicamentos ineficazes ou até perigosos.

Um fator recente que contribuiu para o divórcio de segmentos relevantes do empresariado em relação ao presidente é a convicção de que Bolsonaro, além de incorrigível corporativista e intervencionista, é um péssimo operador político. Consolida-se na análise que empresários fazem do governo a noção de que a vulnerabilidade política do chefe do Executivo aumenta a cada passo em falso – o empresariado e o Centrão não gostam de se alinhar a perdedores. O mais recente foi a ação, assinada pelo próprio presidente, para obter no Supremo a proibição de medidas restritivas adotadas pelos governadores do DF, Bahia e Rio Grande do Sul, descrita pelo ministro-relator da matéria no STF como “erro grosseiro”.

Esses mesmos setores da economia se convenceram, ainda que tardiamente, da inexistência de jogadas brilhantes na gaveta à espera da “janela de oportunidade” da qual tanto fala Paulo Guedes, em quem penduraram suas esperanças e agora ouvem com mal disfarçada incredulidade (a voz mais respeitada hoje é a do presidente do Banco Central, para desgosto de Bolsonaro). Preferem tratar direto com os presidentes do Judiciário, do Senado e da Câmara, como acabou de acontecer para tratar do combate à pandemia e recuperação da economia.

Dois foram os resultados imediatos desse desembarque, golpe que Bolsonaro acusou e chamou de “movimento” contra seu governo. Correndo atrás dos fatos, anunciou a criação de um comitê com Judiciário, Legislativo e alguns governadores que é evidente demonstração da sua perda de capacidade de coordenação e da diluição de seus poderes. Acuado pelo número crescente de mortos, fez um raro pronunciamento concentrado apenas na questão da vacina, o grande foco de todas as atenções e esperanças. 

Quanto às elites econômicas revoltadas diante de um desastre que ajudaram a criar, aparentemente não lhes falta autocrítica. Um dos autores da “carta dos economistas” resumiu: “A gente tem tradição em apoiar governos amalucados”.

Precisaremos de mais 300 mil defuntos para que diga o que precisa ser dito, fora Bolsonaro?

A momentosa carta aberta de banqueiros, economistas e empresários que, sem citar o nome do mitômano, cobraram dele uma conduta menos psicopática (sem usar esse termo também) no enfrentamento da pandemia foi sentida pelo bolsonarismo.

Não se descarte a hipótese de que a fala presidencial na terça (23) à noite, acompanhada de panelaços e buzinaços, tenha sido uma resposta à famigerada carta, cuja repercussão jornalística foi, para sermos conservadores, colossal. Editoriais e longas reportagens se dedicaram a esmiuçar trechos do tão propalado documento. Nas entrelinhas da vasta cobertura, havia um quê de “agora sim”: agora que “o mercado” finalmente protestou, o presidente da República vai ser enquadrado e vai se emendar. Ou: agora que “o mercado” ralhou, o apoio da Avenida Faria Lima ao mandatário que nos desgoverna vai minguar.

Tomara que assim seja, mas será que assim será? O tipo se emenda? Será. Haverá nesse necrodoido, nesse Nero de Twitter, um coté de Mahatma Gandhi? Francamente, nem “o mercado”, agraciado por tantas bondades e promessas, acredita nisso. De outra parte, será que “o mercado” despachará a ordem para que se destitua o governante de uma vez por todas? A ver – para não crer.

O fato é que “o mercado”, se tem mesmo disposição para agir, demorou demais para dar sinais de vida cívica. Agora é tarde, senhoras e senhores. Tarde demais. No copioso abaixo-assinado dos financistas – viramos, em definitivo, uma terra das extravagâncias discursivas, em que até a especulação de capitais deu de fazer abaixo-assinado –, duas frases chamam especialmente a atenção. A primeira delas: “Não há mais tempo a perder em debates estéreis e notícias falsas”. A segunda: “O país tem pressa”.

Ocupemo-nos desse interessante senso de urgência. Se levarmos em conta que a carta aberta começou a circular no domingo à noite, devemos subentender que até domingo, aí, sim, ainda havia alguma gordura de tempo a perder e, até então, o País não tinha tanta pressa assim, só tinha um pouquinho de pressa. Ou devemos subentender outra coisa?

Pensemos um pouco a respeito. Os profissionais que ganham a vida lidando com dinheiros, mandando cifrões para lá e para cá, são remunerados por sua capacidade de se antecipar. O bom operador é o que identifica uma tendência antes dos outros, de tal sorte que o concorrente é apanhado de calças curtas. Os geninhos do “mercado” se distinguem por saber primeiro, por antever.

Mas quando o assunto é a catástrofe humanitária em que soçobramos – por obra autoral do mitômano que “o mercado” apoiou com seu silêncio até domingo passado –, parece que as virtudes tão valorizadas nesse segmento trilionário da humanidade se invertem. Agora a rapidez dá lugar à lentidão. As assinaturas que no dia a dia profissional se gabam de ver as coisas que vão acontecer antes que aconteçam de verdade se enfileiram para contar ao País o que o País inteiro já sabe de trás para diante. Falam em máscaras, falam em ouvir a ciência e chegam a demonstrar, numa espécie de business plan da imunização em massa, que o ROI das vacinas é altamente compensador. Nada a opor quanto a isso, mas... isso é tudo?

É claro que os brasileiros devem comemorar que, antes tarde demais do que nunca mais, juristas, ex-presidentes do Banco Central, acadêmicos e todos os tantos quantos do “mercado” venham dizer em público que a barbárie precisa ser contida. É claro que o gesto merece aplausos. Tudo certo até aí. Mas precisava ser assim, em palavras tão contidas, tão moderadas, que nem mesmo apontam a responsabilidade direta do mitômano pelo morticínio? E precisava demorar tanto?

O que é que o País faz com isso agora? Para onde poderá seguir? Qual o próximo passo? A sustentação do “mercado” a esse governo vai prosseguir intrépida e incólume, confiante na parolagem de Chicago envelhecida por 40 anos em tonéis de cloroquina? Sim, sim, “o mercado” moveu a sobrancelha, palmas para ele. Mas vai romper? Ou meia calabresa, meia muçarela?

Será que precisaremos de mais 300 mil defuntos em contêineres, em corredores de hospitais, em caminhões fazendo filas noturnas em cemitérios de valas abertas por retroescavadeiras para que “o mercado” diga o que de fato precisa ser dito, fora Bolsonaro? É cruel perguntar assim, dói na carne viva, dói na natureza morta em que nos convertemos, mas é preciso. Qual será o preço em vidas humanas?

Engrossa o caldo dos que querem ver Bolsonaro pelas costas

Qual o sonho de consumo do brasileiro ameaçado pelo vírus que bate à sua porta? Se for inevitável contraí-lo, quer uma vaga de UTI no melhor hospital que existir, medicamentos em profusão, cilindros de oxigênio à farta e uma equipe de sábios doutores e de experientes enfermeiros que cuidem dele em tempo integral.

A isso a pandemia nos reduziu. A isso que nos reduziu um presidente da República genocida por natureza que parece ter forte compulsão pela morte, sabe-se lá por quê. Freud explica, certamente. Assunto para estimular discussões intermináveis entre psicanalistas das mais diversas escolas.

Seria o caso também de eles se debruçar, junto com sociólogos, antropólogos e historiadores, sobre o comportamento até aqui indiferente ou resignado da maioria dos brasileiros diante do número de mortos pela doença que em breve superará a marca dos 300 mil. Por que procedemos assim? O que nos move?

Bolsonaro, que tantas vezes desafiou a morte como paraquedista do Exército antes de ser afastado de lá, acusado de conduta antiética, é movido pela falta de compaixão e pelo firme propósito de tirar vantagem de tudo, até de um banho nas águas frias do rio Jordão. Ele, acima de tudo! Os filhos, acima de todos!

Só muda quando o desespero toma conta de sua alma. Sempre que se vê acuado, apela às Forças Armadas e finge contar com o seu apoio para governar e, em situação extrema, ir além – se der, via adoção de medidas capazes de instalar no país um regime autoritário. Seu compromisso com a democracia é zero.

Se não a sabota mais do que já faz é porque lhe falta respaldo. Nas eleições de 2018, ele de fato foi o candidato dos militares, preocupados em impedir um eventual retorno da esquerda ao poder. Nas eleições de 2022, tudo indica que continuará sendo. Mas se for derrotado, lhe baterão continência à saída,  tchau, e só.

Por formação, militar é de direita, aprecia armas, trata os subordinados aos berros e cobra obediência. Mas muitos nos escalões superiores são estudiosos e bons analistas. Sabem ler o mundo e o país. Sabem que a supressão da democracia faria do Brasil um pária internacional. E isso eles não querem.

Pária já é. A nova cepa brasileira do vírus aterroriza os governos da região. Peru e Colômbia proibiram voos do Brasil. O Uruguai mandou mais doses de vacinas para a fronteira com o Rio Grande do Sul. Quem vai do Brasil para o Chile fica em quarentena. Os argentinos impuseram restrições à entrada de brasileiros.

Insensível ao que se passa ao redor, Bolsonaro usa os militares como espantalho doméstico, e eles se deixam usar, encantados, como estão, com a volta ao poder, desta vez pelo voto. Não ligam quando o presidente fala em seu nome como fez, ontem, outra vez. É coisa de político, desculpam. Bolsonaro proclamou:

“Pode ter certeza, o nosso exército é verde-oliva e vocês também. Contem com as Forças Armadas pela democracia e pela liberdade. Estão esticando a corda, faço qualquer coisa pelo meu povo. Esse qualquer coisa é o que está na nossa Constituição, nossa democracia e nosso direito de ir e vir.”

E ao concluir uma das peças mais demagógicas do seu pobre repertório, prometeu: “Enquanto for vivo, enquanto for presidente, porque só Deus me tira daqui, eu estarei com vocês”. Estará para quê? Para associar-se ao vírus e dar passagem à morte? Para destruir a Amazônia? Para pôr a educação ao rés-do-chão?

Engrossa o caldo dos que à esquerda e à direita querem ver Bolsonaro pelas costas, se possível antes do fim do mandato. Já foi melhor negócio para o Centrão apoiá-lo em troca de benefícios. A companhia dele começa a tornar-se tóxica. Um deputado federal pernambucano, bolsonarista convicto, disse ao jornalista Ricardo Noblat: “Poderemos ir com ele até a porta do cemitério, mas não entraremos”.


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