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Segunda-Feira 06.dez.2021

Ano X - Nº 470

Entrevista

É preciso uma ‘virada copernicana’ na Igreja em relação à sexualidade, diz Józef Niewiadomski

‘Com uma rejeição clara do velho paradigma, se tornariam obsoletos todos aqueles fronts nos quais ainda estão sendo travadas guerras de posições sobre essa questão’, afirma o teólogo

Postado em 24 de Março de 2021 - Kathpress (Tradução: Moisés Sbardelotto – IHU)

Foto: Tomasz Stańczak / GAZETA Foto: Tomasz Stańczak / GAZETA

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Com o documento sobre a bênção das uniões entre pessoas do mesmo sexo, talvez estejamos testemunhando uma mudança de paradigma na Igreja Católica. O Papa Francisco deveria fazer uma “virada copernicana” semelhante à “absolvição” de Galileu, agora em termos da interpretação teológica da sexualidade vivida. Com uma rejeição clara do velho paradigma, se tornariam obsoletos todos aqueles fronts nos quais ainda estão sendo travadas guerras de posições sobre essa questão. A opinião é do teólogo Józef Niewiadomski, professor emérito da Universidade de Innsbruck, na Alemanha.

 

Homossexualidade: a Igreja Católica precisa se libertar? Como você avalia a situação?

Estamos mais uma vez em uma guerra de posições: o magistério eclesiástico, junto com os “fiéis crentes”, contra a grande multidão daqueles que não seguem as disposições do magistério. É da lógica de tais conflitos que, nas guerras de posição, atiramos uns contra os outros com balas cada vez mais pesadas. A opinião já expressada de que a proibição da bênção dos casais homossexuais é uma decisão definitiva e infalível do papa se opõe à acusação de falta de nível teológico do documento magisterial. Tais polêmicas não levam a mudança alguma, apenas contribuem, como todas as guerras de posição, à destruição das regiões internas, neste caso, portanto, à destruição da confiança dos fiéis.

O documento era necessário?

Eu também acredito que teria sido melhor se o documento não tivesse sido publicado. Desse modo, não se teria provocado a situação bastante tensa na base da Igreja. Mas talvez devêssemos adotar um horizonte completamente diferente na forma de entender as declarações da Igreja sobre as questões relativas à sexualidade. Talvez estejamos testemunhando uma mudança de paradigma na Igreja Católica.

A que você se refere?

O conceito deriva da filosofia da ciência e explica de forma plausível a mudança fundamental nas teorias científicas. Consequentemente, o paradigma de uma teoria não é de forma alguma rejeitado com base em dados empíricos. Em vez disso, tenta-se desenvolver hipóteses adicionais com a ajuda das quais os “dados divergentes” possam ser integrados à teoria atual e válida. Somente quando o número de hipóteses adicionais é tão grande a ponto de o paradigma não se sustentar e realmente só causar problemas que um novo paradigma prevalece. E isso ocorre unicamente porque permite uma integração simples e melhor de inter-relações complexas.

Qual é a relação com a polêmica sobre a bênção dos casais homossexuais?

Nem as referências a dados empíricos sobre o comportamento das pessoas, nem os argumentos a favor ou contra certas estratégias pastorais (como agora a questão da bênção dos casais homossexuais) abalam o paradigma da avaliação da sexualidade por parte da Igreja. Portanto, os dados e as estratégias (e isso em ambas as partes) podem ser dominados, no fim, com a ajuda de hipóteses e batalhas adicionais nas guerras de posição na vida da Igreja. Como em todas as guerras de posição, mais cedo ou mais tarde haverá paz nesse front. No entanto, a memória das últimas décadas mostra claramente que, na Igreja, estamos lidando com uma lenta mudança do próprio paradigma. A convulsão cultural dos anos 1960 em relação à sexualidade libertou a sexualidade vivida do “cheiro de impureza” na consciência cultural. Porém, a Igreja não conseguiu ver nisso um “sinal dos tempos”; ao invés disso, essa sublevação foi liquidada como um “espírito dos tempos”.

O paradigma a partir do qual se desenvolveu essa posição eclesial ainda representa o legado dos Padres da Igreja (especialmente da teologia de Agostinho). Consequentemente, a sexualidade humana está infectada de modo especial pelo pecado original. Portanto, todo ato sexual (até mesmo o tocar) é um pecado (grave). O casamento sacramental, assim como a disponibilidade de trazer filhos ao mundo, e a doutrina das obrigações conjugais transformam o pecado em um pecado “permitido”. A teologia do matrimônio desenvolvida no Concílio Vaticano II abalou fortemente essa estratégia de legitimação, mas de modo algum pôs em discussão o próprio paradigma. As novas hipóteses sobre a questão da legitimação da sexualidade vivida foram desenvolvidas em vários fronts.

Com a teologia da sexualidade, João Paulo II deu um grande passo no sentido da mudança, porque reconheceu a sexualidade como um dom bom de Deus. Ao mesmo tempo, porém, arrastou consigo, sob as condições que ele mesmo havia mudado, as velhas questões das situações “pré-matrimonial e extraconjugal”. Mas não estava mais tão claro por que o “dom bom” em si mesmo precisava de mais justificativas por meio do matrimônio. O problema da masturbação, do sexo antes do casamento e da contracepção acendeu o combate nos fronts da guerra de posições. Há muito tempo, porém, a calmaria sobre isso havia voltado. Quase se poderia dizer que havia se alcançado um acordo de cessar-fogo.

Em vez disso, acendeu-se com força total o confronto sobre a avaliação da situação de vida dos “divorciados recasados” e também sobre a avaliação da homossexualidade. E isso porque, em ambas as situações, há muito sofrimento subjetivo. A posição do Catecismo sobre a homossexualidade reflete a situação paradoxal em que a Igreja se encontra nessa mudança de paradigma. Os homossexuais devem ser tratados com respeito, mas o ato sexual é um pecado. E por quê? Pela mesma razão pela qual o ato sexual entre divorciados recasados torna essa relação uma comunhão pecaminosa. Se as pessoas envolvidas “viverem como irmão e irmã”, elas estão isentas das sanções eclesiásticas e podem receber a comunhão. É precisamente sobre esses pontos que se torna evidente que todas as novas justificativas da sacramentalidade do matrimônio decorrentes da abordagem pessoal certamente devem ser avaliadas positivamente, mas evitam a questão crucial, a saber, a defendida pelo magistério da Igreja referente ao valor e à dignidade da sexualidade vivida.

O pontificado do Papa Francisco trouxe dinamite para o front. Os esforços para libertar a visão pastoral da Igreja da perspectiva estreita do “quarto” e para percorrer novos caminhos (especialmente na pastoral dos divorciados recasados – tacitamente a pastoral dos homossexuais também andava de mãos dadas) são frustrados pelo último documento da Congregação para a Doutrina da Fé. Paradoxalmente, eu devo dizer: com razão! Porque até o Papa Francisco não corrigiu o paradigma latente na perspectiva do quarto – portanto, fundamentalmente ainda válido – com base no qual a Igreja decidiu todas as questões relativas à sexualidade humana. Ao fazer isso, porém, ele mesmo exacerbou a situação e a aproximou um pouco mais de uma mudança de paradigma.

O que deve acontecer então?

É ilusório pensar que o papa rejeitaria o documento publicado por causa dos protestos, independentemente do fato de ele também estar de acordo com a posição lá representada. Porque ele também cresceu em um clima eclesiástico-cultural e o internalizou, segundo o qual a “sexualidade vivida” – acima de todas as questões concretas que dizem respeito à responsabilidade das pessoas envolvidas – exige uma justificação fundamental (por meio do sacramento do matrimônio). A meu ver, tal situação paradoxal existe na Igreja apenas no que diz respeito à questão da violência. Qualquer uso da força deve ser justificado. E por quê? Porque a violência é algo ruim. Durante séculos, a atitude também foi semelhante em relação à sexualidade. Como ela é algo ruim (por causa do pecado original), a sexualidade vivida sempre precisou de uma legitimação. Hoje, no contexto eclesial, quase ninguém concorda diretamente com esse paradigma. Mas até agora ninguém quis se livrar dele completamente (no contexto do anúncio magisterial).

O que eu desejo ao Papa Francisco e pelo qual rezo é que ele tenha a coragem demonstrada por João Paulo II em 1992, quando reabilitou Galileu, pondo fim, assim, ao conflito entre a Bíblia, o ensino da Igreja e as ciências naturais. Ele admitiu que, quando Galileu foi condenado, houve confusão entre teorias científicas e doutrinas de fé. E alertou os teólogos para serem mais cuidadosos em matérias semelhantes. O Papa Francisco, portanto, deveria fazer uma “virada copernicana” semelhante em termos da interpretação teológica da sexualidade vivida. Com uma rejeição clara do velho paradigma, se tornariam obsoletos todos aqueles fronts nos quais guerras de posições ainda estão sendo travadas. Com isso, Francisco daria à Igreja um “golpe de libertação”, acabaria com a indizível guerra de posições em matéria de ética sexual e, assim, também enviaria um sinal da “conversão missionária” do magistério. É o que ele pede incessantemente à base eclesial.


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