Semana On

Sexta-Feira 30.jul.2021

Ano IX - Nº 454

Saúde

Alta de infecções, UTIs cheias, mortes sem leito e variante revelam colapso que pode deixar 4 mil mortes diárias em abril

Maioria dos brasileiros vê pandemia fora de controle e tem medo do vírus

Postado em 19 de Março de 2021 - Roberta Jansen, Paula Felix, Roberta Paraense e Fábio Bispo (O Estado de S.Paulo), DW – Edição Semana On

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“O maior colapso sanitário e hospitalar da história do Brasil” – como classificou a Fiocruz – se caracteriza pela reunião de diversos fatores que levam à tragédia iminente. O número de casos e mortes segue crescendo exponencialmente, as UTIs estão chegando ao seu limite máximo de internação, pessoas já estão morrendo sem atendimento médico e a vacinação segue em ritmo muito lento. Para piorar, a crise acontece simultaneamente em todo o País, impedindo transferências de pacientes. Na quarta-feira, 17, a média móvel de óbitos pela doença no País ultrapassou a marca de dois mil pela 1ª vez. 

O boletim do Observatório Covid-19 Fiocruz revelou em números a situação extremamente crítica enfrentada pelo País. Das 27 unidades da federação, 25 Estados e o Distrito Federal estão com taxas de ocupação dos leitos de UTI covid iguais ou superiores a 80% -- a única exceção é Roraima, com taxa de 73%. Em 15 delas, a taxa ultrapassa os 90%. Em relação às capitais, 26 apresentam percentuais iguais ou superiores a 80%, sendo que, em 19 delas, o número ultrapassa 90%.

“Esta é a primeira vez que temos uma crise sistêmica, em todo o País, com praticamente todos os estados e as maiores capitais em situação extremamente crítica”, explicou o coordenador do Observatório covid-19, Carlos Machado de Freitas. “Os colapsos do sistema de saúde que já enfrentamos antes sempre foram locais, no máximo estaduais, como o caso dos imigrantes haitianos e venezuelanos em Roraima, os desastres na região serrana de Santa Catarina, um grande número de casos de dengue e de zika no Rio de Janeiro.”

Ao longo do ano passado, como lembra Freitas, foi possível remanejar pacientes de covid-19 para outros municípios ou estados. Agora, no entanto, com o que os especialistas chamam de “sincronização da epidemia” fez com que a doença aumentasse de forma simultânea em todo o País. “Um dos efeitos diretos desse processo é a impossibilidade de remanejamento de pacientes não só para atendimento covid-19, mas também para outras causas”, aponta o boletim. “As internações eletivas estão paralisadas na maior parte dos hospitais do País.”

O número de casos de covid-19 está crescendo a uma taxa de 1,5% ao dia, enquanto o número de mortes aumenta a 2,6% ao dia, valores considerados muito elevados. Na análise de Freitas, que é especialista em saúde pública, essa situação deve gerar uma grande quantidade de casos graves da doença, que exigem internação. “A situação é crítica e preocupante, nos deixa a todos sem dormir”, afirmou o especialista.

Segundo ele, a adoção de medidas de distanciamento social, como sugeriu o novo ministro da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga, não é suficiente para deter o avanço da crise. A vacinação, que segue em ritmo muito lento, só conterá a pandemia a médio prazo.

“O distanciamento físico e social tem que ser adotado durante toda a epidemia”, afirmou. “Mas a situação que temos hoje indica que a maior parte dos Estados terão que adotar medidas mais rigorosas, de bloqueio e lockdown, acompanhadas de outras medidas sociais para evitar que alguns grupos sofram ainda mais. Já temos pessoas passando fome.”

Freitas lembrou ainda que as medidas mais rigorosas só começam a surtir efeito após 15 dias, como demonstram as experiências de vários outros países do mundo.

“Sem a adoção dessas medidas de bloqueio e lockdown, vamos ter mais pessoas morrendo sem assistência na porta dos hospitais e até mesmo em casa”, disse. “Isso é muito sério, não podemos ter pessoas morrendo por falta de assistência; é tarefa do governo organizar e se antecipar. As ações não podem ser apenas reativas.”

Só 1/3 cumpre isolamento; especialistas recomendam 70%

Apesar do aumento de casos de covid-19, os índices de isolamento social no Brasil ainda estão distantes dos 70% preconizados por especialistas para frear a disseminação do vírus. O índice no País estava em 34,4% no último dia 15.  O Ceará registra o índice mais alto de isolamento, com 43%. No fim do ranking, estão Espírito Santo (31,2%), Mato Grosso do Sul (31%) e Santa Catarina (30,3%). São Paulo teve taxa de 33,5%.

Para o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que também é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Escola de Saúde Pública de Yale, apenas com uma taxa de isolamento na casa dos 70% é possível reduzir o número de casos e conter a grave situação dos hospitais. 

“Fase emergencial ainda não é lockdown. Nunca chegamos a um nível de 70% de isolamento e, para evitar a transmissão rápida, só acima de 70%.” Croda explica que duas semanas de lockdown seriam suficientes para alcançar este resultado. “Só acima de 60% que tem a taxa de contágio abaixo de 1 com queda lenta e progressiva. Com 50%, não tem aceleração, mas não tem redução. É estabilidade com platô elevado.

A infectologista Carolina Cipriani Ponzi avalia que o aumento de infecções, além de levar o sistema de saúde ao colapso, contribui para aumento de mortes e as chances de o Sul do País dar origem a novas variantes do vírus. “Quanto mais os vírus se replicam, maiores são as chances de sofrer mutações. Se deixarmos o vírus se espalhar solto por aí estaremos permitindo que tenhamos uma nova variante brasileira além da P1 (cepa identificada originalmente em Manaus, que estudos já mostraram ser mais transmissível)”.

Carolina explica que por isso há a necessidade de se ampliar o distanciamento social e evitar número elevado de pessoas com o vírus ativo circulando. “Paradoxalmente, por mais que esteja na mídia todos os dias que há taxa elevada de transmissão e colapso no sistema de saúde, a gente ainda vê pessoas sem máscara na rua, ou usando no queixo, fazendo chá de bebê, festas de casamento. Se todo mundo fizesse a sua parte de distanciamento social, não seria necessária medida tão drástica como lockdown”, afirmou.

Brasil pode ter 4 mil mortes diárias pela covid no fim de abril, diz grupo de cientistas

O número de mortos pela covid-19 pode chegar a 4 mil por dia até o fim de abril. A previsão é da Rede Análise Covid – que reúne especialistas de diferentes áreas para interpretar os dados oficiais sobre a pandemia. A análise coincide com avaliação da Fiocruz.

Pela primeira vez desde o início da epidemia no País, os números de novos casos e mortes pela covid crescem exponencialmente em todos os Estados. Esse é um indicador importante de que a doença está fora de controle, segundo o coordenador da Rede Análise Covid, o cientista de dados Isaac Scharstzhaup.

“Como a doença veio de fora, ela chegou de avião, inicialmente às principais capitais e começou a se espalhar de cidade em cidade. Na metade do ano passado, muitas capitais estavam sofrendo, mas havia muitas cidades do interior em que não havia sequer um caso da doença; a distribuição dos casos era muito díspare”, explicou Scharstzhaup. “Agora, desde a virada do ano, a tendência de aumento é geral; o que muda de um Estado para o outro é apenas a velocidade de transmissão.”

Segundo o especialista, apenas a adoção de medidas severas de restrição de mobilidade por todo o País, de forma coordenada, pode deter a pandemia. Segundo ele, ações pontuais são inócuas.

“Não adianta fazer lockdown de fim de semana, de sete dias”, explicou. “O ciclo de contágio do vírus é de 14 dias. Os países que adotaram o lockdown mais rigoroso só começaram a ver resultados a partir do décimo-quarto, décimo-quinto dia.”

O relaxamento das restrições de circulação logo que as taxas de ocupação dos hospitais começam a cair (como ocorreu no Brasil) não é o ideal, segundo o cientista de dados.

“Por isso nunca chegamos a zerar o número de casos, como a Europa conseguiu, depois da primeira onda”, afirmou. “Quando as restrições não são feitas corretamente, acabamos fazendo um platô, uma estabilização em patamar alto. O Brasil teria que fazer uma restrição forte e não ceder no momento em que os números se estabilizam, esperar a real desaceleração.”

Medo e descontrole

Em meio ao pior momento da crise gerada pela covid-19 no Brasil, que vive o que foi classificado como o maior colapso sanitário e hospitalar de sua história, 79% dos brasileiros acham que a pandemia está fora de controle no país, segundo levantamento do Instituto Datafolha divulgado na quinta-feira (18).

Na pesquisa anterior, em janeiro, tal opinião foi compartilhada por 62% dos entrevistados. Enquanto 33% consideravam no início do ano que a pandemia estava parcialmente controlada no Brasil, agora são 18%. Apenas 2% veem a situação como totalmente controlada.

A parcela dos que veem a pandemia fora de controle é maior entre os mais pobres (82%), que ganham até dois salários mínimos, do que entre os mais ricos (69%), que ganham mais de dez salários mínimos.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, que publicou a pesquisa, mesmo entre os que vivem sem adotar nenhuma medida de isolamento social, a maioria vê a pandemia fora de controle. 

O Datafolha ouviu 2.023 pessoas por telefone em todos os estados do país em 15 e 16 de março. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

Diante de recordes de mortes diárias por covid-19, mais de 280 mil óbitos contabilizados, hospitais superlotados  e profissionais da saúde alertando para a falta de medicamentos utilizados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), 55% dos ouvidos pelo Datafolha disseram ter muito medo de contrair o coronavírus – a maior taxa registrada desde o início da pandemia, há um ano. Em janeiro eram 44%.

O colapso da saúde no Brasil, após um ano de epidemia

Ao mesmo tempo, a parcela dos que sentem apenas um pouco de medo caiu de 33% em janeiro para 27% em março, e somente 12% dizem agora não ter medo algum de serem infectados. Dos entrevistados, 7% disseram já ter contraído o coronavírus, ante 3% em junho do ano passado.

O temor da doença aumentou tanto entre as mulheres – com 61% delas dizendo ter muito medo, ante 55% em janeiro –, quanto entre os homens, passando de 33% para 48%.

Enquanto médicos apontam um aumento do número de jovens internados em UTIs devido à covid-19, aumentou significativamente a parcela dos que dizem sentir muito medo entre os que têm de 16 a 24 anos (de 34% para 48%). Também houve um salto entre os que ganham mais de dez salários mínimos (de 41% para 55%).

Reprovação recorde a Bolsonaro na gestão da pandemia

O instituto já havia divulgado outros resultados da pesquisa feita nesta semana. Segundo o levantamento, a desaprovação à gestão da pandemia de covid-19 pelo presidente Jair Bolsonaro atingiu seu maior nível, com 54% dos brasileiros classificando o desempenho dele como ruim ou péssimo.

Apesar do grave cenário – com especialistas afirmando que, devido à disseminação do vírus de forma descontrolada, o Brasil se tornou uma ameaça para a humanidade –, cerca de um quinto dos ouvidos pelo Datafolha ainda se disse satisfeito, ou seja, acha que a gestão da crise sanitária por Bolsonaro é boa ou ótima. A cifra chega a 38% entre empresários.

Ao longo da pandemia, Bolsonaro minimizou frequentemente os riscos do coronavírus, combateu medidas de isolamento social, promoveu curas sem eficácia, criticou a vacina e tentou sabotar iniciativas paralelas de vacinação e combate à doença lançadas por governadores em resposta à inércia do seu governo na área. Nesta semana, o presidente anunciou a terceira troca no comando do Ministério da Saúde desde o início da pandemia.

Para 43% dos entrevistados pelo Datafolha, o presidente é o principal culpado pela grave situação atual da epidemia no país. O instituto apontou ainda que 56% dos brasileiros consideram Bolsonaro incapaz de comandar o Brasil.

Em relação ao governo Bolsonaro como um todo, 44% o consideram ruim ou péssimo, ante 40% em janeiro; e 30% o consideram ótimo ou bom, ante 31% no início do ano. Segundo o levantamento, para 75% dos que rejeitam a condução da crise sanitária por Bolsonaro, seu governo como um todo é visto como ruim ou péssimo. Entre os que aprovam o governo do presidente, por sua vez, 89% consideram seu trabalho na saúde ótimo ou bom.


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