Semana On

Segunda-Feira 20.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Da necessidade de falar sobre o óbvio ululante

Uma crônica sobre a tragédia de todos os dias

Postado em 17 de Março de 2021 - Theresa Hilcar

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“A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”. A frase do poeta inglês, John Donne, que inspirou o romance homônimo de Ernest Hemingway, pode muito bem ser dita no contexto atual. Aliás, deveria.

O poeta se inspirou na Guerra Civil Espanhola, uma das mais sangrentas da história. A guerra também inspirou Picasso na célebre obra “Guernica”, nome da cidade que sofreu um bombardeio no ano de 1937, como desdobramento do conflito.

Sobre o quadro, diz a lenda que ao ser questionado sobre o motivo de pintar um quadro com cenas tão fortes, Picasso teria dito que o autor não era ele, mas as pessoas que fizeram a guerra. 

Tive a oportunidade de ver a obra de perto, no Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, em Madri há alguns anos. E posso dizer que a imensa tela, apesar de retratar a violência é ao mesmo tempo um manifesto contra ela. É impossível olhar e não se derramar em águas.

Não raro leio e ouço pessoas dizerem que é preciso procurar assuntos mais amenos. Volta e meia alguém me pede para deixar de lado a Pandemia e lançar um olhar para coisas belas e significativas.

Confesso que chego a sentir uma ponta de inveja daqueles que conseguem ficar à margem do caos. Considero praticamente impossível deixar de falar desta guerra, em que vivemos há pouco mais de um ano. Só quem não foi minimamente afetado por ela – ou aqueles que (pasmem!) ainda duvidam dela – fica à vontade para ser indiferente.

Mas essa é apenas uma opinião. Ou posso dizer – uma reflexão. Lembro da atriz Jane Fonda, no belíssimo documentário sobre a sua vida, quando confessa que apenas aos 30 anos de idade compreendeu a importância do ativismo político. Há que se destacar que ela, até hoje, aos 83 anos, ainda vai a campo lutar contra as desigualdades e outras causas. 

Não sou ativista, mas também confesso que só acordei do berço esplêndido aos 50 e poucos. Foi tarde, mas foi a tempo, felizmente. Mudar de opinião, rever conceitos e valores é algo que não acontece ao acaso. É necessário conjugar alguns verbos como querer, aprender, estudar, ler, ouvir e, sobretudo ter humildade para entender que nunca saberemos de tudo.  Não é tarefa fácil. Mas é libertador.

Estamos na pior semana de toda a Pandemia. A maioria dos Estados está em colapso sanitário. Não há leitos de UTI, não há equipamentos nem gente especializada. E isto vale para qualquer um, independente de ser usuário do SUS, do convênio ou da rede particular. 

Os doentes estão sendo tratados nos corredores em diversos hospitais do País. Médicos improvisam salas, estados fazem hospitais de lona, exatamente como nas guerras. E as baixas aumentam a cada dia. 

Segundo boletim desta quinta-feira (dia em que escrevo a crônica), 2.340 pessoas perderam a vida em apenas um dia. São mais de 90 mortes por hora. Para quem ainda não consegue ter uma visão do quadro desesperador, basta fazer um simples exercício: imagine 8 Boeings caindo no meio de São Paulo. 

O cientista Miguel Nicolelis disse que estamos vivendo uma guerra de extermínio. Segundo ele, o Brasil é a bomba relógio desta Pandemia. Somos o epicentro da doença.

No mesmo dia, ouvi o relato de uma amiga que foi agredida verbalmente – e por pouco, fisicamente – depois de pedir a uma jovem que colocasse a máscara, durante a caminhada no Belmar Fidalgo – onde, aliás, o uso é obrigatório. Como ela, várias pessoas tiram a máscara depois de entrar no local. É fato.

Estamos em guerra. Essa é a nossa realidade. Mas nem por isto temos licença para carregar armas e sair atirando nas pessoas. Andar sem máscaras, não seguir as normas sanitárias é o mesmo que atirar na direção dos outros ignorando que, talvez, a bala possa ricochetear. 

Estamos em guerra. E perdendo. Agora, mais do que nunca, precisamos pensar no coletivo no esforço de evitar que os sinos continuem dobrando mundo afora. Sabemos que toda morte leva um pedaço de nós, e o retrato que fica é devastador.


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