Semana On

Sábado 25.set.2021

Ano X - Nº 461

Especial

O fator Lula

O antídoto para a corrupção é a democracia. Não há antídoto contra o totalitarismo

Postado em 12 de Março de 2021 - Leonardo Sakamoto e Kennedy Alencar (UOL), Juan Arias e Flávia Marreiro (El País) - Edição Semana On

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Cada vez que alguém diz que Bolsonaro e Lula são dois polos igualmente extremos, um filhote de panda - daqueles bem fofinhos - morre de desgosto na China. E foram muitos os filhotes que empacotaram, nesta semana, após o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin abrir caminho para um confronto eleitoral entre ambos, em 2022, ao anular as condenações do ex-presidente no âmbito da Lava Jato.

A comparação ignora que entre os muitos, muitos defeitos do petista não está o de flertar periodicamente com um autogolpe de estado com a ajuda de militares, policiais e milicianos. Ou seja, a disputa com ele é dentro dos limites do Estado de Direito.

Lula nunca discursou em frente ao quartel-general do Exército, em uma manifestação que pedia o fechamento do STF e do Congresso Nacional, bem como a prisão de seus líderes, para um grupo enfurecido que gritava "AI-5! AI-5! AI-5!". Não tentou armar seus aliados, liberando a compra de fuzis e de farta munição. Enquanto administrações petistas instituíram instrumentos de combate à corrupção, posteriormente utilizados pela própria Lava Jato aliás, a atual gestão e seus aliados atuam para minar instituições de monitoramento e controle, como a Receita Federal, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal.

Mesmo assim, muitos colocaram Lula como um radical de extrema esquerda - coisa que, convenhamos, nunca foi. Pelo contrário, esta coluna cansou de criticar o seu governo por se omitir junto a justas demandas de movimentos sociais e por priorizar a inclusão social mais pelo consumo do que pela garantia de serviços público de qualidade.

Foi esse tipo de comparação que ajudou a eleger uma pessoa cujo maior legado será uma cordilheira de mortos. Alguém que, na maior guerra da história do Brasil, preferiu se aliar ao inimigo, ocupando-se exclusivamente da proteção de sua família e da busca por sua reeleição.

Uma parte do mercado não se importa com isso e usa um discurso de que teme uma disputa de populismos. Para ela, enquanto dinheiro estiver entrando, a democracia pode se afogar em uma lata de leite condensado.

(Sem contar que o mercado ganhou uma bica de dinheiro durante o governo Lula. Dizem que o temor quanto a ele é técnico. Tomem coragem e digam que é ideológico mesmo.)

Não admira que a referência para muitos, inclusive o ministro da Economia, é o neoliberalismo chileno capitaneado por um assassino, o general Augusto Pinochet.

A decisão de Fachin vem com três anos de atraso, apesar de advogados e juristas terem sistematicamente apontado que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era competente para julgar o ex-presidente porque as denúncias não envolviam apenas a Petrobras.

Com isso, Lula foi tirado da corrida eleitoral e passou 580 dias na cadeia, sem direito a um julgamento no lugar correto.

Pior, sem ter tido direito a um julgamento justo, uma vez que os vazamentos de mensagens entre o juiz Sergio Moro e procuradores da Lava Jato indicam conluio para condená-lo. Apenas um processo limpo pode apontar se ele é culpado pelas acusações que recaem contra ele, coisa que não houve até agora. E sendo comprovada sua culpa, que pague sua dívida à sociedade. Mas, com a anulação das condenações e o tempo que passou na cadeia, hoje ele que é credor da Justiça.

E um "foi mal aê" agora não basta, até porque isso seria bom demais a alguns dos responsáveis por toda essa rebordosa. Espera-se que o Supremo Tribunal Federal tenha a decência de apontar a suspeição de Moro. Pois não importa apenas se a Justiça é feita, mas como ela é feita.

Você pode discordar e não gostar de Lula, e não querer vê-lo novamente como presidente, mas compará-lo e comparar qualquer outra força política que disputou a eleição de 2018 com a ameaça à democracia que ocupa hoje o Palácio do Planalto não é apenas equivocado. É ser conivente com o atual estado das coisas.

Não é só o PT que deve ser cobrado a fazer autocrítica.

Polarização é nova "Uma escolha muito difícil" enrustida

PT e PSDB polarizaram disputas presidenciais em seis oportunidades seguidas, entre 1994 e 2014. Era uma polarização bem aceita pela grande imprensa e o mercado. Com a moderação do PT ao centro em 1995, no rescaldo de uma derrota para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno no ano anterior, passou a se enxergar uma maturidade institucional que deixava nas mãos do eleitor uma escolha racional, que colocaria o país num rumo sem risco de aventuras políticas e econômicas.

Desde 2018, a coisa mudou. A polarização entre o PT e Jair Bolsonaro passou a ser vista como a sagração da divisão do país, uma armadilha que evitaria uma escolha sensata. Trataram como ameaça semelhante a Bolsonaro um partido que governou democraticamente e aceitou um golpe parlamentar porque o STF covardemente o convalidou. Colocaram o PT ao lado de Bolsonaro. A tal da falsa equivalência ganhou a praça.

No segundo turno de 2018, o telejornalismo estava interessado nos compromissos de Fernando Haddad e do genocida com a democracia. Parece piada, ainda mais feita pela parcela da imprensa que atuou como assessoria de imprensa da Lava Jato _essa, sim, uma ameaça à democracia por ter corrompido a lei processual penal.

Mas a coisa mais caricata daquele segundo turno foi o editorial de 8 de outubro do jornal "O Estado de S.Paulo", intitulado "Uma escolha muito difícil". No texto, estavam todos os falsos argumentos para acalmar a consciência de quem quisesse apertar 17 ou anular o voto, o que significava socorrer Bolsonaro.

Muitas pessoas esclarecidas dizem que não poderiam avalizar "a-roubalheira-do-PT". Ajudaram direta ou indiretamente a eleger o defensor do Ustra contra um professor universitário democrata, preparado e moderado. Há aqueles que anularam e agora dizem que escolheram Haddad, mas basta ler o que diziam e escreviam na época para desconfiar disso. O voto nulo foi o esconderijo de muitos democratas de pandemia. Outros votaram mesmo em Bolsonaro e não ousam dizer o nome desse amor eleitoral porque pega mal depois do vexame de Sergio Moro, Paulo Guedes e da tragédia do coronavírus. Óleo de peroba e tentativa de reescrever biografias estão em alta no jornalismo brasileiro. Essa gente que cobra autocrítica de todo mundo tem queixo de vidro quando se menciona o que fez no verão passado.

Com a decisão do ministro do STF Edson Fachin que devolve Lula ao jogo eleitoral, pois, na prática, anula duas sentenças e uma denúncia contra o petista, volta-se com o fantasma da polarização que vai acabar com o país, projeto no qual Bolsonaro está bastante empenhado.

Vemos ex-ministros de Bolsonaro, que toparam servir ao genocida e foram escanteados, alertando contra o risco de cisão social do Brasil. O palestrante por vocação Deltan Dallagnol, que não deveria ser autorizado a conduzir mais nenhuma investigação no Ministério Público, está preocupado com o combate a corrupção. Quem achou que Bolsonaro ressignificaria a política no Brasil passou recibo do medo de enfrentar Lula na cédula eleitoral. Moralistas sem moral querem dar aula de democracia.

Jornalistas voltaram a dizer que a polarização é um risco danado, que o mercado que encheu as burras no governo Lula está arisco e que o Brasil, coitado, está fadado a escolher entre dois extremos e vai desaparecer da face da terra. A ladainha não para.

Ora, se a imprensa tivesse feito o seu trabalho em 2018, Bolsonaro não teria sido eleito. Mas certo jornalismo profissional queria muito ter os superministros Moro e Guedes alojados em Brasília. O "risco da polarização" é a velha "Uma escolha muito difícil" enrustida, aquela que atirou o Brasil no abismo. Lembram?

Essa conversa de que a volta de Lula ao jogo é uma forma de fortalecer os extremos e alijar o centro da disputa é desonestidade intelectual e/ou burrice pura. Que centro? A centro-direita e a direita?

Se houve um político que aplicou uma política de centro no Brasil, tentando uma reforma negociada do capitalismo selvagem brasileiro, a tal conciliação por cima com as elites, esse político foi Lula.

O cenário político está cheio de possíveis presidenciáveis. Que se apresentem e deixem o eleitor escolher. É legítimo criticar o PT e apontar um rumo diferente para o Brasil. Mas é legítimo que Lula, que não teve um julgamento imparcial e foi alijado de uma disputa na qual era líder nas pesquisas, possa, se tiver condições de concorrer, decidir se quer tentar a Presidência novamente. O nome disso é democracia.

Tem uma turma que não aprendeu nada e continua fazendo o jogo do obscurantismo no Brasil.

Por que Lula seria hoje o único capaz de destronar Bolsonaro?

A liberação de Lula para poder disputar eleições foi um terremoto que revirou todas as cartas da política e de alguma forma antecipou a disputa das próximas eleições presidenciais. A recente entrevista de Lula ao El País e a pesquisa do Ipec Inteligência sobre o potencial de voto de 10 possíveis candidatos em que Lula seria o único com potencial para vencer Bolsonaro já tinham sido reveladoras. Duas coisas ficaram claras: se Lula fosse liberado para poder disputar as eleições seria o candidato do PT e, portanto, da esquerda.

Lula afirmou na entrevista que se sentia com forças para travar essa batalha e que seus 75 anos não seriam um empecilho, já que Biden é presidente dos Estados Unidos com 78. Agora, na primeira entrevista coletiva depois do anúncio do Supremo Tribunal Federal de que pode disputar as eleições, ficou claro que Lula já está em campanha eleitoral e começa a aparecer um Lula ressuscitado e com a intenção de vestir mais a figura do estadista conciliador do que a do sindicalista enfurecido. Apareceu mais o Lula de seu primeiro mandato e da famosa Carta ao Brasil, em que anunciava seu desejo de governar apoiado pelas forças de centro-direita em diálogo com o mundo da indústria e do mercado com fortes apelos a uma revolução social.

A forte rejeição que ainda existe em boa parte da sociedade contra a esquerda foi o que deu a vitória à extrema direita golpista. E pelo menos até ontem era verdade que Bolsonaro, se não for apeado do poder antes das eleições, contará para se reeleger com a poderosa máquina do Estado à sua disposição e com a força dos militares que agora terão apenas duas opções: apoiar Bolsonaro que os colocou no Governo ou confessar sua derrota e seu fracasso ao governar lado a lado com o discutido capitão, cujos impulsos ditatoriais tentam em vão amansar.

Ao mesmo tempo fica cada vez mais evidente que milhões de pessoas que votaram no mito estão arrependidas e repetem o mantra: “Como pude votar nesse fascista genocida sem compaixão pelas vítimas da pandemia?”. A rejeição visceral a Lula e à esquerda parece estar se desvanecendo. Existe como um sentimento de culpa na sociedade depois de ter constatado a atitude da Lava Jato que atacou Lula por motivos políticos, o que acabou entregando o país a Bolsonaro e seus instintos de morte e destruição.

Hoje o que se ouve na rua e nos corredores sobre a possível reeleição de Bolsonaro é “qualquer candidato menos ele”. A cada dia fica mais claro que tantos arrependidos por terem votado na extrema direita de morte bolsonarista constatam cada vez mais que o mito se tornou um presidente que está empobrecendo e envergonhando o país ao distanciá-lo do concerto internacional.

Por tudo isto e pelas incógnitas que o complexo quebra-cabeça das eleições ainda encerra, todas as possibilidades permanecem abertas, inclusive que Bolsonaro seja destituído do cargo dada a incapacidade cada vez mais evidente de governar um país que hoje se vê, por sua culpa, mergulhado na maior crise sanitária de sua história que preocupa não só dentro do país, como também mundialmente.

Para derrotar Bolsonaro, porém, será necessário confrontá-lo com um candidato com carisma popular. Não se pode esquecer que se trata de um país em que a grande maioria que vai às urnas é a massa das classes mais pobres, que nunca votarão, por melhor que seja, em um candidato que não se apresente como um salvador ou redentor, alguém que vá resgatá-las da pobreza e do esquecimento.

Não podemos esquecer que Bolsonaro não teria sido eleito se não fosse o misterioso atentado que de repente transformou um simples capitão reformado do Exército em um mito, no messias escolhido por Deus. Nesse sentido, desta vez esse mito se deteriorou e chega à reeleição com sua coroa destroçada.

E é nesse sentido que os hoje decepcionados com o mito vão em busca de outro mito.

E neste caso Lula, vítima da Lava Jato, pode ressuscitar como uma fênix de suas cinzas, capaz de vencer novamente sua batalha. Isso explicaria por que Lula aparece com maior potencial político do que todos os demais possíveis candidatos. No inconsciente de milhões de pobres e de certa classe média esclarecida existe a convicção de que Lula pode ressurgir como uma nova esperança.

Diz-se e repete-se que o sonho de Bolsonaro é enfrentar Lula. Talvez se as pesquisas continuarem dando a Lula uma força política capaz de derrotar a extrema direita golpista, Bolsonaro tente, instigado pelos próprios militares, a mudar de camisa para aparecer menos provocador e negacionista. Finalmente está se revelando que a alardeada valentia do mito contém uma boa dose de covardia.

A hipótese de um acordo do centro-esquerda também está desmoronando porque com Lula não existe a possibilidade de que as outras forças progressistas cheguem a um acordo eleitoral. Lula ocupa todo o arco da esquerda e, além disso, já demonstrou que é capaz de fazer um Governo no qual participem partidos de centro, como aconteceu em seus dois Governos anteriores. Isso enfraquece a possibilidade do centro-direita optar por um Bolsonaro desgastado por seu comportamento durante a pandemia que a cada dia acumula mais mortes e mais sofrimento nacional.

Este país parece cada dia mais cansado de todo esse ódio semeado pelos boslonaristas e busca um período de paz política. Por isso é fundamental que Lula apareça depois de seu calvário judicial não mais como o político do nós contra eles, mas como o político da reunificação nacional.

Isso também poderia contribuir para a recuperação econômica e para a tranquilidade dos mercados e empresários se entenderem que o novo Lula volta renovado e capaz de dialogar e negociar com todos e que apresenta um novo projeto de Brasil. Um projeto capaz de convencer até mesmo aqueles que confiaram no projeto do mito da extrema direita que chega à reeleição, se chegar, desgastado e maltratado como um presidente incapaz de apostar na vida, mais preocupado em salvar da justiça sua família mergulhada na corrupção do que com os problemas urgentes do país.

Bolsonaro chega à reeleição como quem traiu todas as bandeiras e promessas com as quais foi eleito e como quem usou a pandemia como arma para seus interesses em se reeleger, com uma atitude suicida que ensanguentou o país ao mesmo tempo em que o transformou em um pária aos olhos do mundo.

Os primeiros sinais de que hoje a comparação entre Lula e Bolsonaro começa a se inclinar a favor do primeiro é que de repente seu nome aparece nas redes sociais com uma força que não tinha até ontem. E os mesmos políticos de centro-direita começam a fazer comparações entre o atual presidente golpista e fascista e o Lula democrático capaz de dialogar com todas as forças políticas.

Um sinal claro acaba de ser dado pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, de centro-direita, que fez uma interessante comparação entre Lula e Bolsonaro no Twitter. Segundo Maia, enquanto Lula “tem visão de país”, Bolsonaro “só enxerga o próprio umbigo”. Segundo Maia, “Lula, ao contrário de Bolsonaro, respeita e defende a democracia”. E acrescenta que “enquanto Lula defende uma política externa independente, Bolsonaro defende a subserviência”. E conclui: “Você não precisa gostar do Lula para entender a diferença dele para o Bolsonaro”.

São os primeiros sinais de que a candidatura de Lula começa a destroçar a atual política de morte do capitão e a ver sua chegada como uma nova forma de fazer política respeitando os valores da civilização e oferecendo ao mundo uma nova esperança de sair do túnel tenebroso de um bolsonarismo que acabou rebaixando o país à categoria de república de bananas que ele deseja manejar à vontade, esquecendo que o Brasil é uma das potências econômicas do mundo e coração do continente latino-americano.

Os sonhos loucos do capitão começam a perder força inclusive dentro da direita não fascista, que vê na chegada do velho Lula o fim de um pesadelo do qual o Brasil já está cansado e com vontade de virar a página.

Lula, Ciro e Mandetta bateriam Bolsonaro no segundo turno em 2022, mostra pesquisa Atlas

Se as eleições presidenciais fossem nesta semana, Jair Bolsonaro estaria em maus lençóis no segundo turno. O ex-presidente Lula e os ex-ministros Ciro Gomes (PDT) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) venceriam o ultradireitista com ao menos seis pontos percentuais de diferença na disputa final eleitoral, mostra a pesquisa da consultoria Atlas. O levantamento da empresa, encerrado no último dia 10, quando Lula fez, sem explicitá-lo, seu discurso de lançamento extraoficial de sua candidatura a 2022, mostra que o petista melhorou sua imagem e que Bolsonaro é afetado pela crescente rejeição à sua figura e ao Governo no auge da pandemia no país.

De acordo com a pesquisa Atlas, numa simulação de primeiro turno das presidenciais, Bolsonaro aparece com 32,7% das intenções de voto, contra 27,4% de Lula, formando o primeiro pelotão isolado ―o presidente oscilou para baixo e Lula subiu cinco pontos em relação à pesquisa de janeiro. Na sequência aparecem o ex-ministro Sergio Moro (9,7%), Ciro Gomes (7,5%), Luiz Henrique Mandetta (4,3%), o governador paulista João Doria (4,3%) e o apresentador Luciano Huck (2,5%). No cenário sem Lula, o ex-prefeito Fernando Haddad aparece em segundo lugar, com 15,4% (veja os quadros completos nesta reportagem).

Já no segundo turno mais provável pelos números atuais, Lula aparece com 44,9% contra 36,9% de Bolsonaro, 8 pontos de diferença ―a disputa com Haddad seria mais apertada (43% a 39,4%), mas o petista também ganharia. Na simulação de segundo turno com Ciro, o pedetista também bate Bolsonaro (44,7% contra 37,5%). O levantamento mostra uma boa performance de Mandetta em uma eventual disputa final, apesar dos números modestos do democrata no primeiro turno. O ex-ministro da Saúde bateria o antigo chefe por 46,6% contra 36,9%. Já o tucano Doria aparece em rigoroso em empate com o presidente no levantamento, que tem margem de erro de dois pontos percentuais.

“É o ponto de maior pessimismo com a evolução da covid-19 no Brasil desde que começou a pandemia e Bolsonaro sofre os reflexos”, afirma Andrei Roman, CEO da Atlas. “Com tantos candidatos vencendo Bolsonaro no segundo turno, diria que nunca foi mais provável do que neste momento que o presidente perdesse em 2022. Mas a vida dá voltas. O Brasil pode sair da pandemia neste ano. Em 2022, o Governo pode fazer assistência social e Bolsonaro ainda pode se recuperar”, pondera o cientista político.

Roman vê no favoritismo de Lula no momento menos a melhora de sua popularidade e mais um reflexo “da rejeição maior e muito mais intensa a Bolsonaro”. A pesquisa Atlas foi feita entre os dias 8 e 10 de março e captou apenas o começo do impacto do discurso de Lula nesta quarta-feira, quando ele se apresentou como antítese do presidente e criticou o Governo ponto a ponto, da gestão da pandemia à economia, com ampla repercussão midiática. “É imprevisível como isso vai evoluir”, segue ele, que pontua que uma maioria justa (50,1%) diz apoiar a prisão de Lula.

Já os bons números de Mandetta são, na visão do CEO do Atlas, um reflexo da piora da avaliação de Bolsonaro como gestor da pandemia. “Na minha leitura, a intenção de voto de Mandetta é turbinada por uma pequena parcela que em janeiro ainda estava com o Bolsonaro e agora está migrando para um outro candidato, sendo que o destino mais natural deles é um candidato que faz crítica ao PT e tem um posicionamento um pouco menos antagônico em relação ao presidente”, explica.

Rejeição, Moro e Doria

O levantamento também mediu a imagem do presidente Bolsonaro e de seu Governo, além da percepção pública de vários líderes políticos e personalidades. Na pesquisa, 60% da população desaprova o atual ocupante do Planalto, contra 34,8% que o apoiam. Trata-se de uma queda de três pontos percentuais na aprovação em relação à pesquisa anterior, em 21 de janeiro. Apesar da redução, o patamar de apoio segue alto, puxado pelos homens (40% o aprovam), os evangélicos (53% o apoiam) e as regiões Norte e Centro-Oeste (41% e 42%, respectivamente, o apoiam), com índices de aprovação acima da média nacional.

Segundo o Atlas, é Luiz Henrique Mandetta é o político com a imagem mais positiva entre os líderes medidos pela pesquisa (40%), seguido por Bolsonaro, que tem 36% de imagem positiva, contra 60% de negativa. Lula, por sua vez, aparece com os mesmos 36% de índice positivo do presidente, alta de três pontos em relação a janeiro, provavelmente o começo do reflexo de sua reabilitação política. Seu nêmesis, o ex-juiz da Lava Jato e ex-ministro de Bolsonaro Sergio Moro, aparece com recorde de rejeição (63%), a maior desde que o Atlas começou a medir.

Já o governador tucano João Doria estabilizou sua imagem positiva (25%), mas ainda tem uma rejeição muito alta (60%). “Doria ainda enfrenta tensões internas no partido, com os acenos de Eduardo Leite como candidato”, lembra Andrei Roman, citando o governador do Rio Grande do Sul, que disputa com o homólogo paulista espaço no PSDB. Para o CEO do Atlas, Leite pode ser um fator surpresa nos próximos meses. “Não medimos o Leite e ele pode constituir o principal fator surpresa pela frente. Leite tem a vantagem de ser desconhecido para a maioria do público nacional, então poderia chegar como uma espécie de salvador se nenhum outro candidato de centro decolar. Ele é jovem, tem um discurso moderado, não surfou na onda bolsonarista e tem uma boa aprovação como governador.”

A pesquisa Atlas foi realizada com 3.721 entrevistas feitas por questionários aleatórios via internet. As respostas são calibradas por um algoritmo de acordo com as características da população brasileira.


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