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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Entrevista

Twitter, Facebook e WhatsApp: os antros da desinformação e da proliferação do discurso de ódio

A desinformação gera muito lucro, diz o pesquisador David Nemer

Postado em 08 de Março de 2021 - João Vitor Santos – IHU

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O compartilhamento de mensagens falsas via redes sociais tem sido um capítulo à parte na crise sanitária brasileira. Memes, vídeos e áudios compartilhados especialmente entre grupos de WhatsApp têm contribuído não só para a disseminação da desinformação, mas criado obstáculos para a adesão de medidas fundamentais durante a pandemia, como a permanência do isolamento social e a aceitação da vacinação como medida fundamental para conter o novo coronavírus.

David Nemer, professor do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade de Virgínia, nos EUA, diz que três fatores contribuíram para o surgimento deste fenômeno no Brasil. O primeiro deles é de ordem socioeconômica e está diretamente relacionado à ampla adesão da população a aplicativos como Facebook e WhatsApp e aos programas “Free Basics” das companhias de celular, que permitem o acesso gratuito a essas redes. “O primeiro [fator] foi o fato de o WhatsApp ter sido um aplicativo bem difundido no Brasil. O WhatsApp conquistou o mercado brasileiro rapidamente, o que não aconteceu nos Estados Unidos. Em 2018, 96% das pessoas que tinham smartphone usavam o WhatsApp como seu principal meio de comunicação. Ele também se popularizou muito no Brasil porque a mensagem SMS sempre foi muito cara e logo que o aplicativo se espalhou pelo país, várias companhias de celular ofereceram planos Free Basics aos clientes, fornecendo dados de graça para as pessoas usarem alguns aplicativos, como o Facebook e o WhatsApp. Isso contribuiu para o consumo da desinformação, porque quando a pessoa tem um plano em que tem o dado de graça apenas para acessar o WhatsApp, ela não consegue acessar o navegador do celular para checar a informação que recebe via aplicativo. Essa é uma estratégia ótima que permite a desinformação”, explica.

Os outros dois fatores, menciona, são de ordem técnica. “O segundo pilar é a questão da facilidade e da capilaridade do WhatsApp. Ele é um aplicativo muito fácil de usar e permite a criação de grupos, o que era impossível em outros tipos de aplicativos. Além disso, o WhatsApp permite o envio de mensagens de vídeo ou de áudio, ou seja, ele melhorou a dinâmica de compartilhamento de dados. O terceiro pilar que permitiu que o WhatsApp se transformasse num campo fértil para a disseminação da desinformação foi a questão da criptografia. Ou seja, não é permitido que ninguém entre na mensagem enviada ou recebida para verificar o seu conteúdo. Quem produz e lucra com a desinformação toma proveito da criptografia porque sabe que não será ‘pego’ nem ‘julgado’”.

 Nemer também comenta o uso de plataformas como o Telegram e o Parler por usuários da extrema direita, seu impacto na disseminação de desinformação e no debate público, e o processo de “desplataformização” adotado pelas plataformas para conter a desinformação nas redes sociais. “É muito difícil que as pessoas deixem de usar o Twitter para usar o Parler. Esses antros da extrema direita tendem a continuar, mas não vão virar plataformas mainstream. Obviamente, essas plataformas são perigosas porque acabam virando uma câmara de eco em que o discurso de ódio se repete o tempo todo e a tendência, com isso, é de o discurso se radicalizar. Apesar do perigo, não adianta querermos criar um alarde ou termos medo dessas plataformas, quando o principal antro da desinformação e de proliferação do discurso de ódio continua sendo o Twitter, o Facebook e o WhatsApp”, adverte. E acrescenta: “Trump já vinha promovendo desinformação. Da mesma forma, Bolsonaro está o tempo todo desinformando, assim como o [deputado federal] Osmar Terra, mas o Twitter não faz nada”.

David Nemer é graduado em Ciências da Computação pelo Centro Universitário Faesa e em Administração pela Universidade Federal do Espírito Santo - UFES. É mestre em Ciência da Computação pela Universidade do Sarre, Alemanha, e em Antropologia pela Universidade da Virgínia. É doutor em Antropologia da Informática (Computing, Culture, and Society) pela Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Atualmente, é professor do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade da Virgínia.

 

Pesquisas revelam que o maior consumo de desinformação no Brasil se dá via aplicativos de mensagens, como WhatsApp. Como o senhor interpreta esse dado?

Três pilares proporcionaram isso. O primeiro foi o fato de o WhatsApp ter sido um aplicativo bem difundido no Brasil. Ele conquistou o mercado brasileiro rapidamente, o que não aconteceu nos Estados Unidos. Em 2018, 96% das pessoas que tinham smartphone usavam o WhatsApp como seu principal meio de comunicação. Ele também se popularizou muito no Brasil porque a mensagem SMS sempre foi muito cara e logo que o aplicativo se espalhou pelo país, várias companhias de celular ofereceram planos Free Basics aos clientes, fornecendo dados de graça para as pessoas usarem alguns aplicativos, como o Facebook e o WhatsApp. Isso contribuiu para o consumo da desinformação, porque quando a pessoa tem um plano em que tem o dado de graça apenas para acessar o WhatsApp, ela não consegue acessar o navegador do celular para checar a informação que recebe via aplicativo. Essa é uma estratégia ótima que permite a desinformação. Esses planos Free Basics foram feitos entre as companhias de celular e empresas como o Facebook. A partir deles, elas não forneciam internet de graça para os clientes, apenas o acesso grátis ao Facebook e às plataformas.

O segundo pilar é a questão da facilidade e da capilaridade do WhatsApp. Ele é um aplicativo muito fácil de usar e permite a criação de grupos, o que era impossível em outros tipos de aplicativos. Além disso, o WhatsApp permite o envio de mensagens de vídeo ou de áudio, ou seja, ele melhorou a dinâmica de compartilhamento de dados.

O terceiro pilar que permitiu que o WhatsApp se transformasse num campo fértil para a disseminação da desinformação foi a questão da criptografia. Ou seja, não é permitido que ninguém entre na mensagem enviada ou recebida para verificar o seu conteúdo. Quem produz e lucra com a desinformação toma proveito da criptografia porque sabe que não será “pego” nem “julgado”. Então, o WhatsApp se transformou numa plataforma perfeita para a desinformação por causa das questões técnicas, como a facilidade de uso e a criptografia que esconde a desinformação do olhar público, e pela questão social, relacionada a esses planos de livre acesso aos aplicativos.

Em que medida as ações adotadas pelo WhatsApp para combater a desinformação são efetivas? No que elas se assemelham e no que divergem de dispositivos criados por redes sociais como Twitter e Facebook?

O WhatsApp tem demorado muito tempo para tomar medidas. Como mencionei, a empresa em si não tem acesso aos conteúdos enviados pelos usuários, então, ela usa isso como desculpa para o fato de não ser eficiente no combate à desinformação. Apesar disso, a empresa tem tomado algumas medidas. Uma delas é a limitação das mensagens encaminhadas. Hoje há um limite para um usuário encaminhar as mensagens que recebe de terceiros ou até as suas próprias. Isso ajuda a diminuir o compartilhamento não só de desinformações, mas de qualquer mensagem. Então, de algum modo, esse mecanismo afeta a distribuição de desinformação, porque toda vez que se cria um empecilho para o compartilhamento, as pessoas se sentem menos motivadas a compartilhar, já que elas precisam cumprir mais etapas para compartilhar informações.

Uma das medidas que o WhatsApp também adotou foi em relação ao adicionamento das pessoas em grupos. Antes, qualquer pessoa podia adicionar um usuário em grupos sem o consentimento dele. Hoje, quando alguém é adicionado a um grupo, pode reportar, denunciar, sair ou aceitar entrar no grupo. Da mesma forma, se uma pessoa sai de um grupo, fica mais difícil adicioná-la de novo posteriormente. Essa medida foi adotada porque em 2018 vários grupos pró-Bolsonaro que promoveram desinformação, criaram grupos e adicionaram pessoas nesses grupos a partir de um banco de dados de números de telefones, sem o consentimento das pessoas. Por isso essa nova medida dificulta a criação de grupos que promovem a desinformação.

A situação do Twitter e do Facebook é diferente porque essas redes têm algoritmos que fazem a curadoria do conteúdo baseado nos dados das pessoas, criando as conhecidas bolhas. As duas plataformas têm, sim, acesso ao conteúdo da mensagem e têm formas de identificar se os tuítes e posts são verídicos, duvidosos, ou contêm desinformação. Essa é a diferença principal entre elas: essas duas últimas redes têm acesso ao conteúdo, enquanto o WhatsApp não tem.

O Twitter e o Facebook têm agido de uma forma mais ativa para derrubar contas que propagam desinformações, principalmente em tempos de pandemia, como aquelas contas de negacionistas. O problema é que essas redes não são transparentes e não dá para saber direito como elas fazem isso e quais critérios utilizam. Elas têm um termo de serviço, que é um contrato entre o usuário e a plataforma, com as regras que o usuário tem que seguir, mas nem as plataformas cumprem o próprio contrato que fazem o usuário aceitar. Então, nunca se sabe quando um conteúdo vai ou não ser retirado do ar.

O caso de Trump ficou muito famoso – ele foi banido do Twitter –, mas a questão é: por que isso aconteceu somente naquela hora? Trump já vinha promovendo desinformação. Da mesma forma, Bolsonaro está o tempo todo desinformando, assim como o Osmar Terra, mas o Twitter não faz nada. Volta e meia o Facebook lança notas divulgando que derrubou diversas páginas de desinformação, mas sabemos que existem milhares dessas páginas na plataforma, e o Facebook não se manifesta sobre elas. Parece que quer fazer “relações públicas” para falar que está fazendo algo que não está sendo efetivo. Essas plataformas usam o conhecido “rótulo” para informar que algo é fake ou uma desinformação, mas esse rótulo também não é transparente. Na grande maioria das vezes não vemos essa rotulação acontecendo nos conteúdos postados.

Com Joe Biden e a maioria democrata no Congresso dos EUA, essas empresas têm receio de que novas leis e regulações para plataformas sejam aprovadas. Por isso, elas querem acenar aos deputados e aos senadores que estão adotando medidas de combate à desinformação para que, se medidas de regulação forem aprovadas, não sejam prejudiciais ao seu negócio, porque a desinformação é algo que gera muito lucro.

Há dados que indicam uma migração das redes de extrema direita no Brasil para o Telegram, abandonando o WhatsApp? Por que isso ocorre?

Não diria que há uma migração nem um abandono do WhatsApp. As pessoas continuam usando o WhatsApp e participando de grupos, mas agora elas também estão começando a adotar o Telegram como meio de comunicação. Isso aconteceu muito, especialmente entre os usuários da extrema direita, porque personagens conhecidos da extrema direita passaram a promover os seus próprios canais no Telegram. A existência de canais é uma característica do Telegram que não existe no WhatsApp. Enquanto no WhatsApp existem grupos, nos quais as pessoas conversam e debatem via mensagens, no Telegram existem os canais, com pessoas autorizadas a postar nesses canais – somente os administradores ou quem os administradores autorizam. Esse formato é muito ruim porque não permite o debate. Ao contrário, os donos dos canais enviam conteúdos para as pessoas, as quais não conseguem questionar a validade ou veracidade do material recebido.

Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Carla Zambelli e toda essa galera que tem uma legião de seguidores está no Telegram e por isso é possível observar um fluxo de pessoas aderindo à plataforma. Além disso, no ano passado, foi anunciado que os canais do Telegram poderiam ter anúncios e que uma porcentagem desses anúncios poderia ser dada aos donos dos canais. Esse é um aspecto que também explica a migração de alguns canais para o Telegram. Ou seja, há também uma motivação financeira para os atores da extrema direita promoverem seus próprios canais. Ainda não está bem definido como isso irá funcionar, porque o desenvolvedor do Telegram informa essas questões de forma muito “solta” em seu blog, mas ele divulgou essa possibilidade. Você pode ver a informação aqui.

Como se dão os usos do Telegram atualmente por esses grupos políticos?

A utilização do Telegram é muito parecida com a utilização do WhatsApp, com exceção da questão dos canais, que são exclusivos do Telegram. Esse aplicativo não tem limite de encaminhamento de mensagens, ou seja, é uma plataforma muito mais propícia para a disseminação de desinformação. Nos canais não há diálogo, porque só se manifesta quem é autorizado. Geralmente, os administradores se comunicam por ali apenas para enviar links para vídeos do YouTube, através dos quais eles conseguem monetizar, links de matérias e de tuítes, além de muita desinformação.

E entre a população em geral, como o senhor observa o uso do Telegram?

Com exceção dos canais, o uso do Telegram é muito similar ao uso do WhatsApp no Brasil. Quando falo de uso, estou falando de um universo imenso: o Brasil é um dos maiores mercados dessas plataformas, nas quais encontramos de tudo e, justamente por isso, é difícil definir um padrão que englobe todos os usuários. Até mesmo na minha pesquisa, em que investigo o bolsonarismo no WhatsApp, esse é um universo gigantesco e é difícil criar generalizações restritivas, porque se encontra de tudo ali.

Quando falamos do uso do Telegram entre a população em geral, vamos encontrar os grupos de família, de futebol, de igreja, de games, de comércio, enfim, é um uso bem eclético e parecido com o uso do WhatsApp. Não há algo extraordinário no Telegram que o diferencie do WhatsApp, com exceção dos canais e da quantidade de compartilhamento permitido. Mas na essência, as duas plataformas são bem similares e usadas de forma parecida.

Em que consiste a ‘desplataformização’ e de que modo o Telegram contribui para que isso não ocorra?

A ‘desplataformização’ é nada mais nada menos do que retirar uma pessoa da plataforma para conter o estrago das desinformações propagadas em sua conta; ou seja, trata-se do banimento de uma conta de uma plataforma. O Twitter e o Facebook ‘desplataformizaram’ Trump recentemente e houve, sim, uma clara diminuição de conteúdos que divulgavam desinformação sobre as eleições americanas, em especial sobre as fraudes nas eleições.

O Twitter, o Facebook e a Apple Store também já ‘desplataformizaram’ o Alex Jones, que ficava o tempo todo promovendo teorias da conspiração. Pessoas como ele têm uma legião de seguidores e acabam influenciando muita gente. Quando as plataformas banem as contas, elas retiram o acesso dessas personagens à audiência gigantesca que elas têm. Sem o acesso a essa audiência, elas não têm possibilidade de influenciar o debate público. Então, a estratégia de ‘desplataformização’ é efetiva e diminui bastante a propagação de discursos de ódio, teorias da conspiração e desinformação.

A grande questão é a falta de transparência: não sabemos o que uma pessoa tem que fazer para ter sua conta banida. Tecnicamente, sabemos, de acordo com o contrato de termos de serviços, mas as plataformas não seguem os contratos à risca e por isso não sabemos quais são os fatores limites que levam ao banimento de uma conta.

O Telegram também pode contribuir com a ‘desplataformização’, porque nesse aplicativo os canais são oficiais das pessoas. Se existe um canal oficial de um propagador de desinformação, a responsabilização fica mais clara e é possível, sim, que o Telegram possa banir um canal que esteja propagando desinformação. Aliás, o próprio Alex Jones entrou no Telegram, no entanto o aplicativo não acena nenhuma atitude no sentido de haver ‘desplataformização’, o que ele poderia fazer. Isso porque com os canais, a responsabilização fica muito mais evidente do que no WhatsApp, por exemplo, no qual o usuário pode sempre se esquivar, alegando que não é o dono de um grupo e que foi colocado como administrador sem saber.

Como compreender esse mecanismo da extrema direita de domínio de aplicativos de mensagens para disseminação de desinformação?

Essa é uma pergunta complexa, que traz diversos aspectos. O primeiro é que em 2018, as pessoas acreditavam que o movimento bolsonarista no WhatsApp era completamente orgânico, ou seja, o Brasil havia se juntado no WhatsApp para eleger o Bolsonaro. Essa crença foi adiante durante muito tempo, só que na minha pesquisa – e a própria CPI das Fake News vem mostrando isso –, mostro como foi tudo muito orquestrado. Isso porque os grupos de extrema direita não só ganharam o entendimento do algoritmo, como também o entendimento das mídias sociais como um todo, nas quais investiram muito dinheiro.

No artigo que publiquei no The Guardian, menciono a infraestrutura humana organizada por esses grupos. Eles contrataram pessoas para fazer “memes” e vídeos. Elas estavam de prontidão para criar conteúdos contra pessoas que criticavam Bolsonaro ou para inocentá-lo das acusações atribuídas a ele. Além disso, pessoas trabalhavam ativamente criando grupos de WhatsApp e adicionando usuários. Isso mostra como era fácil ter acesso a bancos de dados de telefones. Então a questão da organicidade caiu por terra porque houve uma forte orquestração para que isso fosse produzido. O mesmo aconteceu com o Movimento Brasil Livre - MBL: ele tinha dinheiro para produzir conteúdo – por mais que fossem conteúdos questionáveis, eles eram muito bem-feitos para cativar o interesse das pessoas e gerar raiva e comoção. Eles foram muito efetivos nisso.

E como o senhor analisa o uso dessas ferramentas por partidos e grupos mais à esquerda?

A esquerda ficou nas formas tradicionais de comunicação; não que elas sejam erradas, mas a esquerda seguiu as regras do jogo. Não foi uma luta justa porque um lado seguiu as regras e o outro lado, não. A esquerda achou que a base e a militância iriam fazer um trabalho parecido ou efetivo como o da extrema direita, mas essa última estava extremamente motivada e tinha um grande esquema de financiamento para manter uma equipe produzindo em tempo integral.

O que fazer diante dessas plataformas?

As plataformas precisam ser reguladas. Nos Estados Unidos, a Suprema Corte tem leis que não permitem que essas plataformas sejam processadas civilmente. Por isso há um pedido para que as plataformas sejam reguladas, como foi o caso da indústria do tabaco e do álcool, de modo que elas possam ser responsabilizadas e as pessoas possam processá-las. Também há pedidos para que sejam feitos alertas sobre o uso dessas plataformas, como já é feito em relação ao uso de bebidas e do cigarro.

Além do Telegram, outros aplicativos de mensagens e redes sociais têm surgido e acolhido ativistas políticos, especialmente da extrema direita. Estamos diante de um movimento incontrolável? E, aliás, o controle desses dispositivos é um caminho? Se sim, como fazer?

Tem se chamado a atenção para o Telegram e o Parler, que se transformou num antro da extrema direita, mas vale lembrar que a movimentação e os principais compartilhamentos de desinformação e de ódio enviados pela extrema direita ainda continuam ocorrendo nas plataformas principais, como WhatsApp, Facebook e Twitter. As plataformas alternativas vêm crescendo, mas não creio que o Parler vá vingar.

Em 2016, na primeira campanha de Trump, surgiu a plataforma Gab – ela tem o mesmo modelo que o Parler tentou copiar –, que virou um antro da extrema direita. Mas a atuação da extrema direita nessas redes fica na periferia e não atinge o debate público. Enquanto o Gab ficou na periferia, o Parler cresceu muito por causa da tentativa de reeleição de Trump, mas essa rede social já teve diversos problemas com servidores da Amazon, que cortou contratos com o Parler, e o próprio CEO da rede foi demitido. Ou seja, existem diversos empecilhos que não permitem que essas plataformas cresçam.

É muito difícil que as pessoas deixem de usar o Twitter para usar o Parler. Esses antros da extrema direita tendem a continuar, mas não vão virar plataformas mainstream. Obviamente, essas plataformas são perigosas porque acabam virando uma câmara de eco em que o discurso de ódio se repete o tempo todo e a tendência, com isso, é de o discurso se radicalizar. Apesar do perigo, não adianta querermos criar um alarde ou termos medo dessas plataformas, quando o principal antro da desinformação e de proliferação do discurso de ódio continua sendo o Twitter, o Facebook e o WhatsApp.

O Brasil está avançando nas negociações da tecnologia 5G. Gostaria que o senhor analisasse esse cenário, levando em conta os impactos dessa nova tecnologia, especialmente nesses grupos de ativismo político.

Sobre o 5G, esta não é uma área em que sou especialista, mas venho acompanhando o debate. Há uma corrida para ver quem vai controlar a infraestrutura da internet. Atualmente, a infraestrutura principal da internet é feita de cabos submarinos que são controlados por empresas americanas, ou seja, praticamente pelos Estados Unidos. Com o 5G, cria-se uma nova estrutura que não depende muito dos cabos submarinos e poderá haver aí uma mudança de controle de quem irá controlar a arquitetura da internet. Isso é muito importante e simbólico, porque hoje todos os setores e serviços rodam na internet. Então, trata-se de uma corrida não só de mercado, mas de dominação mundial do mercado futuro.

Há uma corrida internacional entre Estados Unidos e China, e o Brasil entrou nessa, já que, infelizmente, o presidente Bolsonaro mantém uma guerra retórica e cultural contra a China, e não sabemos até que ponto isso influencia nas negociações. Mas a questão política do 5G é uma disputa sobre o mercado e o controle da infraestrutura futura da internet.

Não tenho muito conhecimento sobre a questão técnica do 5G, mas sei que é possível fatiar a banda e dar preferência para determinados serviços na banda 5G. Ela também é de espectro curto, por isso é necessário haver antenas mais próximas em prédios; o 4G não precisa disso.


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