Semana On

Domingo 17.out.2021

Ano X - Nº 463

Poder

Rumo às 2 mil mortes/dia, Bolsonaro continua empurrando pessoas para a rua

Sem ter o que dizer, presidente retarda pronunciamento em rede nacional

Postado em 05 de Março de 2021 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Enquanto o Brasil caminha rapidamente para a marca de 2 mil mortes registradas num único dia por covid-19, Jair Bolsonaro continua sabotando o isolamento e o distanciamento social, únicas medidas capazes de frear a tragédia.

Acusando a mídia e não uma montanha de 260 mil mortos de ser a responsável por ter criado "pânico" em relação à covid, ele novamente criticou a recomendação de médicos e cientistas para ficar em casa, se possível. "O pessoal vai morrer de fome, de depressão?", perguntou.

Hospitais estão sem leitos de UTI para covid. Em vários municípios, falta oxigênio para pacientes não morrerem sufocados. A fome avança enquanto o Congresso Nacional debate a extensão do auxílio emergencial uma vez que o Ministério da Economia quis condicionar sua aprovação, veja só, a um ajuste fiscal. Todos o problemas remetem à falta de gestão, de logística, de articulação. De governo.

Para o presidente, contudo, o culpado da vez pelas desgraças é a circulação de informações e o isolamento imposto para evitar o colapso do sistema de saúde. Colapso que vai derrubando municípios pelo país e aumentando o número de mortos.

Estamos vivendo a "colheita" do Carnaval, quando uma parte do Brasil se aglomerou para se divertir e outra se aglomerou para trabalhar. O presidente da República estava num terceiro grupo, daqueles que trabalharam para promover aglomerações, como aquelas que causou em praias de Santa Catarina, para sabotar quarentenas.

E como o país caminha para os 50 dias seguidos com mais de mil óbitos de média móvel, o fazendeiro do Palácio do Alvorada já havia começado esse plantio bem antes e ainda vai colher seus frutos por muito tempo.

Bolsonaro gasta saliva tentando convencer que está fazendo tudo o que poderia para vacinar a população. Mentira. Nesta quarta, o governo federal anunciou que decidiu fechar contrato para a compra das vacinas da Pfizer e da Johnson & Johnson. Se isso tivesse sido feito meses atrás, milhares de vidas teriam sido salvas. Mas não quis.

"Se tomar e virar um jacaré é problema seu", afirmou ele em dezembro, criticando a vacina que, agora, afirmou que irá adquirir. Infelizmente, vacina não é hambúrguer comprado em drive thru, no qual você pede e pega na cabine adiante. O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, não conta, mas levará meses até as doses desses imunizantes chegarem ao Brasil.

Vamos ter que nos virar com as doses da CoronaVac e da Oxford/AstraZeneca, que não serão em número suficiente. O Brasil tem capacidade de vacinar mais de 2 milhões por dia, mas não faz isso porque não há imunizante. A demora vai significar mais mortes, mais quarentena e mais atraso na retomada da economia. Aí sim, mais depressão.

Isso sem considerar que o auxílio emergencial está atrasado porque o governo federal empurrou com a barriga o máximo que pode e, no final, Paulo Guedes quis condicionar sua aprovação a um ajuste fiscal. Enquanto isso, sem emprego e com pandemia, a miséria dispara. Aí sim, mais fome.

Começou a semana terceirizando a culpa para os governadores e prefeitos. Agora, para a imprensa. Até o final da quinzena, vai estar culpando Darwin.

Bolsonaro acredita que a solução é ir para a rua. E e, se pegar a doença, pegou. E se morrer, morreu. Se pensasse de outra forma, teria adotado outra estratégia eleitoral, assumindo o papel de comandante da guerra contra o vírus. Possivelmente, sua popularidade estaria bem melhor e a reeleição mais garantida.

Mas, aí, não seria Bolsonaro. Prefere forçar a barra para que todos saiam de casa, mesmo que custe vidas, num cálculo eleitoral que até faz sentido se você consegue dormir bem à noite sabendo que muita gente partiu por sua causa.

Sem ter o que dizer, Bolsonaro retarda pronunciamento em rede nacional

Num instante em que o número de cadáveres produzidos diariamente pela Covid encosta na casa dos 2 mil, Jair Bolsonaro manifesta o desejo de levar a voz e o rosto aos lares dos brasileiros numa transmissão em rede nacional de rádio e TV. O pronunciamento ocorreria no último dia 2, às 20h30. O horário chegou a ser reservado. Mas o presidente recuou. Cogitou falar na noite de quarta-feira. Desistiu novamente. Aliados de Bolsonaro aconselharam-no a lapidar o discurso, ajustando-o a uma pandemia que mudou de patamar.

A aparição pode ocorrer a qualquer momento, pois o presidente não abandonou a ideia de falar para uma plateia mais ampla do que a arquibancada de suas redes sociais. Encanta-se com a perspectiva de ser levado ao ar pela TV Globo minutos antes do Jornal Nacional. Um de seus auxiliares faz troça, afirmando que o chefe "precisa divulgar o que o William Bonner esconde ou distorce."

A novidade é que surgiram na cozinha de Bolsonaro vozes que destoam da ladainha dos colaboradores que, como ele, querem ver o sangue dos adversários. Essas vozes alternativas sustentam que a tática de botar a culpa em alguém, continua sendo útil para animar o bolsonarismo nas redes sociais. Mas perdeu o prazo de validade para o restante dos brasileiros.

Fora da bolha virtual, cresce a percepção de que a falta das vacinas que a União demorou a comprar eleva o custo social e econômico da crise sanitária. Não se imagina que o capitão fará um mea-culpa. Mas espera-se que ele gaste mais energias construindo a própria imagem do que destruindo a de terceiros.

No pronunciamento que ainda não fez, Bolsonaro alardearia o decreto que editou para zerar por dois meses o PIS-Cofins que incide sobre o diesel. A pandemia viria na rabeira do afago nos caminhoneiros. Os defensores da tese de que a retórica presidencial precisa de ajustes avaliaram que o combate ao vírus deveria prevalecer sobre o barateamento temporário dos combustíveis.

Nessa versão, seria conveniente que o presidente encampasse o cronograma de distribuição de vacinas que o ministro Eduardo Pazuello (Saúde) diz estar assegurado. Sob pena de ser ultrapassado por governadores e prefeitos que acusam a União de negligência inépcia. Alega-se ainda que Bolsonaro ficaria mais bem-posto se anunciasse a aprovação da nova versão do auxílio emergencial, que o Congresso analisa a toque de caixa.

Em relação às vacinas, o general Pazuello pavimentou o terreno, anunciando a decisão de assinar contratos com mais dois laboratórios: Pfizer e Jansen. A vacina da Pfizer é aquela que Bolsonaro se recusou a comprar há sete meses, sob a alegação de que ela poderia transformar os vacinados em jacarés. Uma mudança de discurso conduzirá o orador para algum lugar situado entre o mea-culpa e o cinismo.

De resto, as penúltimas manifestações de Bolsonaro não prenunciam a intenção de dar ouvidos à moderação. Nas últimas 72 horas, o presidente voltou a criticar governadores e prefeitos —a "turma do fique em casa". Acusou o Supremo de lhe amarrar as mãos. Reiterou a defesa do "tratamento precoce" à base de cloroquina. Enviou uma comitiva a Israel para associar o Brasil a estudos sobre os efeitos milagrosos de um spray anticâncer no tratamento da Covid. E acusou a imprensa de propagar o "pânico."

Quer dizer: alheio aos conselhos dos que desejam que ostente um discurso lapidado, Bolsonaro não tem a oferecer senão mais do mesmo.

Ministro do STF ironiza Bolsonaro: 'É um gênio!'

Submetido a panelaços e estatísticas duras de roer —1.840 mortos pela covid num único dia, 259.402 cadáveres em um ano—, Jair Bolsonaro declarou que dispõe de um plano para lidar com a pandemia. Esclareceu que a coisa só não foi implantada porque o Supremo Tribunal Federal não permitiu.

Ouvido pelo jornalista Josias de Souza, do UOL, um ministro da Suprema Corte ironizou: "Os brasileiros são seres azarados. Os mortos por covid logo somarão 300 mil. Perdem a vida antes de conhecer os talentos ocultos do chefe da nação, Morrem sem saber que é um gênio o presidente do Brasil."

"Se eu tiver poder para decidir, eu tenho o meu programa, o meu projeto pronto para botar em prática no Brasil. Agora, preciso ter autoridade", declarou Bolsonaro. "Se o Supremo Tribunal Federal achar que pode dar o devido comando dessa causa a um poder central, que eu entendo ser legítimo e meu, eu estou pronto para botar o meu plano em prática".

"Lamento ter que dizer algo tão rude, mas Sua Excelência o presidente da República mente", rebateu o ministro da Suprema Corte. O magistrado enviou ao jornalista link que conduz a uma nota divulgada pelo STF em 18 de janeiro. Pediu licença para ler um trecho:

"Na verdade, o plenário decidiu, no início da pandemia, em 2020, que União, estados, Distrito Federal e municípios têm competência concorrente na área da saúde pública para realizar ações de mitigação dos impactos do novo coronavírus. Esse entendimento foi reafirmado pelos ministros do STF em diversas ocasiões."

A toga prosseguiu na leitura: "Ou seja, conforme as decisões [tomadas pelo STF], é responsabilidade de todos os entes da federação adotarem medidas em benefício da população brasileira no que se refere à pandemia." Acrescentou: "Ninguém amarrou o presidente. Ele está livre para exercitar sua genialidade".


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