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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Saúde

Estados entram em colapso, e Brasil precisa adotar lockdown para conter escalada da Covid-19, afirmam especialistas

O iminente colapso do sistema de saúde em boa parte do País não permite relaxamento – nem das autoridades nem dos cidadãos

Postado em 26 de Fevereiro de 2021 - Constança Tatsch, Evelin Azevedo, Jan Niklas e Paula Ferreira (O Globo), Estadão (Editorial) – Edição Semana On

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O agravamento da pandemia da Covid-19 está levando os sistemas hospitalares de diversos estados ao colapso, de Norte a Sul do país. Especialistas em saúde são unânimes em afirmar que é preciso restringir a circulação de pessoas para conter a escalada das últimas semanas.

No último dia 25, o país registrou o pior número de mortos em 24 horas de toda a pandemia. Foram 1.582 óbitos registrados em apenas um dia, com recorde também na média móvel de mortes, que ficou em 1.150, 8% a mais do que há duas semanas. A média de óbitos está acima de mil desde o dia 21 de janeiro. Já são 251.661 vidas perdidas e 10.393.886 de pessoas infectadas pelo vírus.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, se reuniu com representantes de secretarias estaduais e municipais para fazer um alerta sobre a piora da pandemia. Ele destacou que a velocidade de transmissão de novas cepas tem levado a cenários de alta em estados que, há um ano, não estavam nesse patamar:

“Estamos enfrentando nova etapa da pandemia, hoje o vírus mutado nos dá três vezes mais a contaminação, e a velocidade com que isso acontece em pontos focais pode surpreender o gestor em termos de estrutura de apoio. Essa é a realidade que vivemos hoje no Brasil. Não está centrado apenas no Norte e Nordeste, como vimos no ano passado, hoje você vê outros locais que em momentos passados não estavam impactados nesta época do ano. E precisamos estar alertas e preparados para isso”, disse.

Segundo Pazuello, há três estratégias principais para combater a pandemia: o que chamou de “atendimento imediato” nas Unidades Básicas de Saúde, a capacidade de estruturação de leitos clínicos e de UTI, e a vacinação. Em relação ao último tópico, o ministro afirmou que o Brasil está fazendo de tudo para adquirir novas doses.

“A vacinação está tendendo à estabilidade em termos de produção e quantidade de doses, já chegamos, em 40 dias de vacinação, de 13 a 14 milhões de doses distribuídas (...). Estamos negociando com todas (as vacinas)”, afirmou.

Ao lado do ministro, o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Carlos Eduardo Lula, afirmou que já há 15 estados com ocupação de leitos superior a 90%.

“A gente nunca teve tantos estados com tanta dificuldade ao mesmo tempo, seja pela circulação de novas cepas, seja pelo cansaço da sociedade que está vivendo isso há tanto tempo. A sociedade tem que entender que não é hora de fazer festa, não é hora de estar junto, porque o que a doença precisa é de ambientes fechados, com pouca circulação de ar, e muitas pessoas no mesmo local”, disse.

Segundo o médico sanitarista Oswaldo Yoshimi Tanaka, diretor da Faculdade de Saúde Pública da USP, os novos casos, muitos por conta da nova variante do vírus, estão proliferando em adultos jovens que, diferentemente de outros momentos da pandemia, estão indo para a UTI, onde ficam por muito tempo.

“Eles vêm ficando 20, 25 dias, então os leitos têm pouca rotatividade. Os idosos morriam, os jovens morrem menos, mas ficam mais tempo na UTI e saem com mais sequelas”, diz o médico, que se diz muito preocupado com o comportamento da população brasileria: “O comportamento latino de estar junto é mais forte do que a preocupação de evitar o risco de ficar doente. Não temos um sentimento coletivo de solidariedade. Lockdown funciona no Japão, Coreia, Alemanha, mas no Brasil não vai funcionar. Nós não temos espírito solidário, nem senso coletivo. É impossível. Essa sociedade não suporta”.

Esgotamento da rede hospitalar em SC e RS

Na região Sul, uma das mais afetadas pela alta de casos, os estados de Rio Grande do Sul e Santa Catarina enfrentam o esgotamento da capacidade de suas redes de UTIs. O governador gaúcho suspendeu atividades em locais públicos entre 22h e 5h e colocou 11 regiões na chamada “bandeira preta”, classificação local de risco altíssimo de contágio. E o secretário de Saúde de Santa Catarina, André Motta, afirmou que o sistema de saúde já enfrenta colapso e pediu aos prefeitos medidas para diminuir a circulação de pessoas.

No dia 25, a Bahia anunciou restrição total das atividades não essenciais a partir das 17h de hoje, até as 5h da próxima segunda-feira. O governador baiano, Rui Costa (PT), afirmou que só funcionará o que for “saúde pública ou venda de alimentos”. A medida vale para todos os 417 municípios. Em Salvador, as praias e passeios de escuna já tinham sido proibidos anteontem.

No Piauí, Teresina atingiu 100% de ocupação de UTIs nesta semana, levando o governador do estado, Wellington Dias (PT), a decretar toque de recolher entre 23h e 5h. Medidas semelhantes foram adotadas em Goiás, Pernambuco, Ceará, Paraíba e São Paulo, que nesta semana chegou ao maior índice de internações de toda a pandemia. O governo paulista anunciou anteontem a restrição na circulação de pessoas entre 23h e 5h, até 14 de março.

Nau sem rumo

Para a especialista em saúde pública e sanitarista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ligia Bahia, o lockdown é uma medida cientificamente comprovada, e é preciso fazê-lo de forma “radical e por pouco tempo”.

“É bom que governadores estejam efetivando políticas mais radicais de isolamento social, porque a gente vai conseguir ver na prática uma diminuição (do contágio). É um esforço louvável que um governante se apresente como intérprete das orientações científicas. São medidas bem-vindas, corretas, e a gente bate palmas para os governadores que fizerem isso. O Brasil vai ter menos gente morrendo”, explicou.

O médico sanitarista e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão explica, porém, que no Brasil não se está vendo o lockdown, mas sim medidas restritivas.

“Impedir circulação das 23h às 5h, quando 90% das pessoas estão em casa, é uma medida inócua. Uma coisa que dura de hoje a segunda-feira não consigo entender bem, é claramente insuficiente. Como jogamos fora uma coisa preciosa que é a coordenação nacional, estamos navegando num nevoeiro denso sem timoneiro. Os gestores estaduais e municipais foram abandonados à própria sorte, e a sociedade idem, não há comunicação, transparência ou orientação. Gestores, governadores ou prefeitos não têm a postura de sentar com os cientistas e tomar as decisões que devem ser tomadas. É porque tem um custo de político, e estão mais de olho nas urnas do que na defesa da vida”, afirmou.

Não podemos relaxar

O Brasil superou a terrível marca de 250 mil mortes em decorrência da covid-19. É a maior tragédia nacional a se abater sobre as atuais gerações. Para aumentar ainda mais a angústia de milhões de brasileiros, nada indica que a pior fase da peste já tenha passado. Ao contrário, há evidentes sinais de recrudescimento da pandemia. No Amazonas, por exemplo, só nos dois primeiros meses de 2021 foram registradas mais mortes por covid-19 do que ao longo de todo o ano passado.

O novo coronavírus se espalha como nunca antes pelo País desde o início deste flagelo, há um ano. Há mais de um mês, os brasileiros convivem com a morte de mais de mil de seus concidadãos todos os dias. O número é subestimado. A baixa testagem e a imprecisão diagnóstica escondem a real dimensão da tragédia.

A campanha de vacinação, única saída para pôr fim ao morticínio, segue lenta, incerta. A distribuição das poucas vacinas que há é atabalhoada, vide a recente trapalhada ocorrida no envio dos imunizantes para o Amapá e o Amazonas.

Novas cepas do coronavírus, mais contagiosas, já circulam livremente Brasil afora, sem qualquer tipo de rastreamento pelas autoridades sanitárias.

Os sistemas de saúde de pequenas e médias cidades do interior do Brasil entraram em colapso. Médicos têm de decidir na porta dos hospitais quem será socorrido e quem terá de se haver com a própria sorte. Muitos cidadãos, em especial os mais jovens, comportam-se como se a pandemia tivesse passado. Ou pior, como se não lhes dissesse respeito. É muito difícil nutrir a esperança por dias melhores diante da ausência de um espírito mais fraterno que una a sociedade nos esforços para superar um mal que, independentemente da medida, afeta todos, sem distinções de qualquer ordem.

No mais rico Estado do País, São Paulo, estima-se que em apenas três semanas não haverá leitos de UTI para dar conta do atendimento de todos os doentes. É de imaginar o que pode ocorrer – na verdade, já está ocorrendo – em Estados sem as mesmas condições dos paulistas. O governador João Doria (PSDB) anunciou uma “restrição de circulação” entre 23 e 5 horas, que valerá de hoje até o dia 14 de março, para tentar conter o avanço da doença.

A medida está longe do ideal. Mas o que é “ideal” no atual estágio da pandemia e dos humores da sociedade? Ideal é o que é possível fazer. É verdade que a maior parte das pessoas já estaria recolhida naquele período, mas também é fato que há muitos eventos e festas clandestinas que reúnem pequenas multidões nas madrugadas. Os objetivos do governo paulista são coibir, na medida do possível, esses eventos e alertar a população, mais uma vez, de que as coisas não vão bem. Qualquer medida de restrição tem também essa função de alertar os cidadãos para o risco.

Sempre é possível questionar as chances de eficácia das medidas impostas pelo Palácio dos Bandeirantes, seguindo a recomendação do Comitê de Contingência da Covid-19, na contenção do espalhamento do vírus. No entanto, o fato é que, sejam quais forem as medidas adotadas por governos, no Brasil e no mundo, por melhores que sejam entre as paredes dos gabinetes de crise, de nada valerão se os cidadãos não as respeitarem na vida cotidiana. Em outras palavras, a solução para uma crise da magnitude da pandemia de covid-19 não depende apenas da atuação do Estado, mas também do engajamento da sociedade.

Evidentemente, não se está aqui a relativizar a enorme responsabilidade que os atos e as omissões das autoridades, em especial do presidente Jair Bolsonaro e de seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, têm na construção dessa tragédia sem paralelos recentes. Chegará o dia em que a negligência de um e de outro será escrutinada pela Justiça. Entretanto, não cabe uma postura igualmente omissa e passiva de cada um dos cidadãos.

Hoje, o País chora a morte de 250 mil dos seus, e nada indica que a pandemia arrefecerá sem uma robusta campanha de imunização e sem a adoção de rigorosas medidas preventivas. O iminente colapso do sistema de saúde em boa parte do País não permite relaxamento – nem das autoridades nem dos cidadãos.


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