Semana On

Quinta-Feira 24.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Coluna

Quero ser vacinada

Não me importo mais com a denominação de idosa, só quero que chegue logo a minha vez

Postado em 17 de Fevereiro de 2021 - Theresa Hilcar

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Hoje (13/02) completo 370 dias em casa. Em home office, para citar o termo que virou moda nesta Pandemia. No entanto, nos últimos dias, passei a vigiar o tempo. Conto cada hora, cada minuto que falta para tomar a vacina.

A ansiedade não é só minha, claro. Tanto que passaram a fabricar notícias falsas, dando falsas esperanças. Um caso em que o saudoso Cazuza ficaria sem palavras, já que as “mentiras sinceras”, embora desejáveis à época, só nos causam desilusão.

Outro dia mesmo, uma amiga querida me enviou calendário (com logo da instituição governamental e tudo) onde se lia: início para os maiores de 60 anos dia 1º de março. 

O êxtase diante da eminente imunização durou um final de semana inteiro.  Na segunda-feira, quando enfim tomei coragem de verificar a veracidade do calendário, veio o desapontamento. “É fake, me disse o colega”, sem dó nem piedade. 

Mal sabe ele que cancelei todas as consultas marcadas, visitas necessárias ao dentista, à amiga enlutada, aos netos. Durante dois dias planejei pausar minha vida para esperar o dia 1º. Em respeito à proximidade da data em que, finalmente, estenderei meu braço para a vida.

Não, não será neste dia, informaram. Ainda não existe data precisa. A decepção foi tão grande que pensei em ligar no celular do Dr. Geraldo Resende (que sempre me atende com presteza para entrevistas) e perguntar: “Doutor, quando chegará a minha vez? ”.

Mas recolhi o flap. Ele tem milhares de coisas, pessoas, cidades inteiras e uma lista infindável de tarefas essenciais. E eu bem sei o quanto ele tem trabalhado nesta missão, talvez a mais delicada da sua carreira.

Em recente entrevista, aliás, ele me confessou o quanto era difícil não poder abraçar sua mãe com mais de 90 anos. Penso agora que deve ter sido emocionante vê-la recebendo sua cota de esperança.

Minha amiga Carolina também foi vacinada esta semana. Não vejo a hora de poder abraça-la e segurar suas mãos carinhosas que durante todo este tempo, para compensar a ausência, digitou frases de otimismo, compartilhou orações, e continua me dando ânimo toda vez que me posto à beira do poço.

De Brasília recebo a boa nova vinda da minha única tia que foi vacinada esta semana. Ela ainda está convalescendo do vírus que a tomou de assalto há cerca de um mês, mas que, felizmente, não conseguiu derrubá-la. A tia que tem nome de uma famosa personagem de cinema – Gilda -, e é tão bela quanto a original, mandou a foto onde se vê o brilho dos seus olhos verdes e o orgulho ao exibir o braço para receber a cota do latifúndio que tão justamente lhe cabe. 

Outro que, felizmente, recebeu seu quinhão de sobrevivência foi meu querido Ziraldo. Além dele, meu ídolo, o escritor e cineasta Wood Allen também já tomou a primeira dose. É um conforto saber que a saúde destes gênios está sendo, de alguma forma, preservada.

Enquanto isto, eu fico por aqui aguardando o sinal verde para minha faixa etária, que é chamada idosa – mas pela primeira vez não vou reclamar da denominação – com o coração disparado e a ansiedade ancorados nos Florais de Bach. Também agradeço, agradeço muito o esforço dos cientistas do mundo inteiro.

A vacina, senhores e senhoras, não é apenas para nos imunizar. É para que todos fiquem mais seguros. Viver é perigoso, muito perigoso, já dizia o poeta. Mas ninguém merece ficar à deriva.


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