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Segunda-Feira 25.out.2021

Ano X - Nº 464

Viver bem

Brasileiros ganharam peso na pandemia, diz estudo com 14 mil participantes

Ser jovem, do sexo masculino ou contar com excesso de peso antes da pandemia foram fatores de risco tanto para o ganho quanto para a perda de peso

Postado em 16 de Fevereiro de 2021 - Leonardo Sakamoto - UOL

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Há mais pessoas que ganharam peso do que as que perderam durante a primeira onda da pandemia de coronavírus, no ano passado, principalmente o grupo com até 11 anos de escolaridade. É o que apontam resultados de um estudo do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (Nupens).

O NutriNet Brasil comparou o peso corporal de 14.259 pessoas com mais de 18 anos antes do início da pandemia (entre 26 de janeiro e 18 de março) e cerca de seis meses depois (entre 14 de setembro e 19 de outubro).

Grávidas e mulheres com parto recente foram excluídas da pesquisa. Para ganho ou perda de peso foram consideradas variações iguais ou maiores que dois quilos. Cada participante declarou seu peso.

A prevalência de ganho de peso excedeu à de perda em todas as idades (19,7% a 15,2%, respectivamente), com exceção do grupo entre 55 e 64 anos, em que o ganho (14,3%) e a perda (14,6%) foram semelhantes.

Ser jovem, do sexo masculino ou contar com excesso de peso antes da pandemia foram fatores de risco tanto para o ganho quanto para a perda de peso.

Contudo, a escolaridade, não. O grupo com até 11 anos de estudo, que representa praticamente o tempo de duração do ensino básico, teve maior ganho de peso do que aquele com mais de 12 anos. O risco de ganho de peso entre quem tem até 11 anos de escolaridade com relação foi 30% maior em relação ao segundo grupo.

Acesso a menos alimentos frescos e mais ultraprocessados

Com os dados disponíveis, ainda não é possível apontar causas. Os pesquisadores avaliaram hipóteses para os resultados.

Analisam, por exemplo, que indivíduos mais escolarizados "podem ter desenvolvido comportamentos alimentares mais favoráveis durante a pandemia por disporem de maior tempo para preparar refeições ou mesmo por terem mais conhecimento sobre a importância da nutrição na defesa contra a covid-19".

Enquanto isso, avaliam que "pessoas com menor escolaridade podem ter tido menor acesso a alimentos frescos e/ou terem sido mais afetadas pela publicidade de alimentos não saudáveis no período".

E lembram que como grande parte dos brasileiros passou a ficar mais tempo em casa, isso também levou a mudanças em suas atividades físicas e no tempo de uso de televisão, celular e computador, o que pode levar a alterações no peso corporal.

"Precisamos de políticas públicas que melhorem o acesso à alimentação saudável. Neste momento de pandemia, isso inclui desde a retomada do auxílio emergencial para que as pessoas possam comprar alimentos, até o incentivo ao pequeno produtor e às feiras livres, que disponibilizam comida de verdade", afirmou à coluna Maria Alvim, pesquisadora do Nupens e do NutriNet.

"E a população precisa ter acesso à informação de qualidade para escolher, conscientemente, o que quer comer", avalia.

Alvim, também ressalta a necessidade de controle público da propaganda e do estímulo aos alimentos chamados de "ultraprocessados", que são aqueles em que a lista de ingredientes tem substâncias que não usamos para cozinhar e que utilizam produtos químicos que imitam características de comida - e que nem sempre são considerados saudáveis.

Produtos ultraprocessados valeram-se do prazo de validade estendido garantido por conservantes, que não são benéficos à saúde, para se destacar em um contexto de medidas de isolamento social.

Estudo já tem 89 mil participantes cadastrados

A pesquisa, a primeira a avaliar mudanças no peso corporal de brasileiros de todas as regiões do país durante a pandemia, contou com maior representação de mulheres e de indivíduos com alta escolaridade e residentes na região Sul e Sudeste do que o perfil sociodemográfico brasileiro. Portanto, os dados devem ser trabalhados com cuidado.

O estudo conduzido pelo Nupens, considerado um dos mais relevantes centros de pesquisa sobre nutrição humana do mundo, já conta com mais de 87 mil cadastrados em sua plataforma on-line, que respondem a questionários a cada três ou quatro meses.

Os responsáveis pretendem alcançar 200 mil até o final deste ano. O objetivo é identificar padrões de alimentação praticados pela população que protegem ou aumentam o risco de doenças crônicas não transmissíveis como obesidade, diabetes, doenças do coração e vários tipos de câncer.

A obesidade e doenças crônicas relacionadas a ela aumentam o risco de quadros mais graves de infecção pelo coronavírus. A obesidade, aliás, também é considerada uma pandemia no Brasil.


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