Semana On

Segunda-Feira 21.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Poder

Mercado topa Bolsonaro semear covid, mas não retorno do auxílio emergencial

'A gente não pode ser escravo do mercado', diz Mourão sobre possível repercussão negativa de volta do auxílio

Postado em 12 de Fevereiro de 2021 - Leonardo Sakamoto (UOL), Guilherme Mazui (G1) – Edição Semana On

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O Brasil fez um isolamento social meia boca ao longo do ano passado. Com um presidente da República aliado do coronavírus e excitando negacionistas a irem às ruas até na defesa de autogolpe de Estado, as quarentenas nunca foram totalmente obedecidas por aqui. Resultado: uma primeira onda tão longa que se conectou à segunda, sem um tempo de refresco para as pessoas e a economia. Consequentemente, o auxílio emergencial continua sendo necessário.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou, corretamente, que o benefício é assunto de sobrevivência dos trabalhadores e não pode ser condicionado a ajustes fiscais, como havia defendido o ministro da Economia. Não que a saúde das contas do país não seja importante, mas o tempo para evitar a fome em massa é mais curto que a aprovação de medidas fiscais no Congresso.

Jair Messias, que em silêncio torce para a volta do benefício, o que ajudará a estancar a sangria de sua popularidade, afirmou ontem que ele deve ser mesmo prorrogado. E não foi em um lugar qualquer, mas em um programa com grande audiência popular, comandado por José Luiz Datena. Jair Messias pode ser tosco, mas burro não é.

Com isso, operadores e analistas do mercado financeiro deram chilique ao longo desta semana. Isso chega a ser engraçado.

Afinal, se até um guaxinim, que não sabe o que é um derivativo, apostaria seu dinheiro na volta do auxílio diante da média móvel com mais de mil óbitos se repetindo por 20 dias, imagina esse povo que analisa riscos e se antecipa a decisões políticas.

Além do mais, operadores e analistas do mercado não chilicaram todas as vezes, no ano passado, em que o presidente da República promoveu aglomerações e defendeu o fim das quarentenas para forçar uma volta irreal à vida normal. E foi a irresponsabilidade de Bolsonaro e o vácuo deixado por ele na articulação nacional contra a covid que fizeram com que o Brasil perdesse tantas vidas e gastasse mais pela extensão e tamanho da primeira onda.

Chiliques naquele momento poderiam ter passado uma pressão importante, mas parte do mercado concordava com o presidente que o melhor era o povaréu ir para a rua dar sua cota de sacrifício pelo bem dos indicadores econômicos.

Poderíamos ter tido um momento de retorno à (quase) normalidade sim, mas o presidente e o naco negacionista da população não deixaram porque sabotaram as quarentenas. Agora, a retomada do auxílio emergencial é uma consequência lógica disso.

Mesmo percebendo que a volta do benefício é inevitável, o Ministério da Economia tenta restringi-lo aos que deveriam receber o Bolsa Família, mas não recebem. E pagando apenas 200 ou 250 jujubas mensais - valor que não paga o vinho do jantar desse pessoal, nem 32% de uma cesta básica completa em São Paulo.

Mesmo com tudo isso, o grosso do mercado não vai abandonar o capitão. Uma parte é bolsonarista desde criancinha e acredita que só é pobre quem não se esforçou, mas vive a beleza da meritocracia hereditária. Outra parte adora as músicas da boy band "Guedes e os Ultraliberais", torcendo para ela tocar seus hits "Licença ambiental fede", "CLT desce ao Inferno" e "Pau no BPC".

Há sim o grupo responsável, que sabe que isso vai aumentar o buraco fiscal, mas entende que a hora é de salvar vidas e, consequentemente, a economia. Mas, ironicamente, suas reclamações raramente são ouvidas. Inclusive, na imprensa.

O governo, pelo menos, deveria ter feito sua lição de casa e estabelecido fontes de recursos para renovar o auxílio ainda em dezembro. Mas, mesmo vendo o presidente promover aglomerações nas festas de final de ano, o que cobraria seu preço em vidas mais para frente, resolveu esperar. Ou melhor, enrolar e torcer, o que mostra o naipe de nossos planejadores.

Sim, há gente no governo Bolsonaro de dedos cruzados para que o número de mortos caia sem que um auxílio precise ser pago. Enquanto isso, corpos se acumulam.

Rodrigo Maia (DEM-RJ) era muito mais pró-mercado que Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco. Mas, como eu disse, tem gente que gosta de um autoengano e acha que a nova fase do Congresso será um parque de diversões neoliberal, como no Chile sob Pinochet. Ahã, Claudia, senta lá.

Se achava que o centrão iria se tornar simpático às suas pautas, ignorando sua necessidade de reeleição e seus interesses pessoais, o mercado realmente precisa de um bom calmante. Ou parar de usar drogas pesadas.

Em tempo: Há propostas no Congresso Nacional para taxar alguns tipos de fundos de investimento e cortar renúncia fiscal a fim de gerar recursos para o auxílio emergencial sem aumentar o rombo. Bora lá, mercado, apoiar.

Escravos do mercado

O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta sexta-feira (12) que o governo não pode "ser escravo do mercado" ao considerar uma possível repercussão negativa entre investidores do impacto nas contas públicas gerado pelo pagamento de uma nova rodada do auxílio emergencial.

O presidente Jair Bolsonaro, cobrado pelos novos presidentes da Câmara e do Senado, afirmou que o retorno do benefício, pago em 2020, está "quase certo". A ideia é retomar em março os pagamentos do socorro destinado a trabalhadores que perderam renda com a pandemia.

O governo federal estuda uma nova rodada do auxílio emergencial com quatro parcelas de R$ 250. O novo auxílio deve ser pago à metade do número de beneficiados das rodadas anteriores.

Mourão fez o comentário ao ser questionado se o aumento do déficit nas contas públicas para financiar o benefício seria bem recebido pelo mercado financeiro.

"Minha gente, a gente não pode ser escravo do mercado", respondeu o vice. "Nós temos aí uns 40 milhões de brasileiros que estão em uma situação difícil, a gente ainda continua com a pandemia, a gente acredita que mais uns três, quatro meses a gente tenha uma produção de vacina capaz de começar um processo de imunização consistente", afirmou.

Ele disse ainda que Bolsonaro é "obrigado a decidir" alguma forma para auxiliar essa parcela da população e que, qualquer que seja a decisão, o presidente "vai tomar pau".

"É uma situação difícil e julgo que ele vai buscar a melhor solução", afirmou.

Mourão afirmou que Bolsonaro, equipe econômica e parlamentares buscam uma saída para financiar a nova rodada do auxílio. A previsão do governo é que o déficit das contas públicas atinja R$ 247 bilhões em 2021, conta que não considera uma nova despesa com o auxílio emergencial.

"Em linhas gerais, ou você faz um crédito extraordinário, aí seria o tal do orçamento de guerra, ou corta dentro do nosso orçamento para atender às necessidade. Não tem outra linha de ação fora", disse o vice-presidente, durante entrevista no Palácio do Planalto.

Na quinta-feira (11), balanço feito por consórcio de veículos de imprensa, informou que 4.584.338 pessoas já receberam a primeira dose de vacina contra a Covid-19 no Brasil (2,16% da população). A segunda dose foi aplicada em outras 108.735 pessoas (0,05% da população).


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