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Sexta-Feira 03.dez.2021

Ano X - Nº 470

Poder

Que legado deixa Moro, anti-herói justiceiro, agora sem máscara?

De Witzel à Lava Jato, a tara justiceira por atingir pessoas na cabeça

Postado em 12 de Fevereiro de 2021 - Leonardo Sakamoto - UOL

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O lavajatismo deixou um legado não apenas de desrespeito ao devido processo legal, de corrosão do direito de defesa de acusados e de uso político de decisões judiciais, mas também de bonecos infláveis gigantes de "Super-Moro" - com todas as consequências éticas e estéticas que uma coisa dessa pode trazer à psique de uma nação.

O primeiro registro que tenho notícia da aparição da cabeça do então juiz federal transplantada no corpo do Super-Homem foi em março de 2016, em meio às manifestações de rua pela derrubada de Dilma Rousseff. Um grupo de Lucas do Rio Verde (MT) resolveu fazer uma vaquinha para encomendar um inflável com 12 metros de altura para demonstrar seu apoio ao "fim da corrupção".

Em 19 de junho de 2019, já como ministro da Justiça de um presidente eleito graças a ele ter sacado fora o principal oponente na disputa, Super-Moro foi inflado mais uma vez em frente ao Congresso Nacional. Ele falaria naquela manhã no Senado sobre as mensagens reveladas pelo site The Intercept Brasil, em parceria com outros veículos de imprensa, no que ficou conhecido como a Vaza Jato.

No último dia 9, 601 dias depois, a maioria da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal liberou o compartilhamento com a defesa do ex-presidente Lula da íntegra das mensagens trocadas entre procuradores da operação Lava Jato e Sergio Moro que haviam sido vazadas por hackers. Uma derrota que pode levar à anulação de processos julgados por ele, uma vez que as conversas indicam um conluio para condenar Lula.

Muito antes de Bolsonaro fritar Moro e empurrá-lo para fora de seu governo, o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, reforçou a mensagem do inflável chamando o então ministro da Justiça de "herói nacional", durante ato de defesa da Lava Jato em 30 de junho de 2019.

O problema é que heróis não recebem auxílio-moradia tendo imóveis próprios na mesma cidade, como escrevi na época. Não são chamados de "doutor", nem ficam irritados se interpelados. Não encaram a si mesmos como infalíveis, pois sabem que esse julgamento não lhes cabe, mas à História. Não precisam de jornalistas os defendendo. Pedem desculpas, reconhecem seus erros, creem que são menos do que são e não o contrário.

No seu apogeu, lavajatismo virou "religião" com direito a culto a Sergio Moro

Ao ser mitificado por uma parcela da sociedade, Moro acabou sendo alvo da projeção de muitas qualidades e de nenhum defeito - o que ele mesmo fez questão de incentivar. Construção que acaba tornando a pessoa, mais do que referência em uma certa área, um repositório de tudo o que é bom. O processo acaba por produzir santos. E as regras para os santos são diferentes. Eles podem subverter as leis dos seres humanos em nome de um "bem maior", mesmo que, ao fazer isso, possam usar métodos tão bizarros quanto o mal que afirmam querer liquidar.

"Eu vejo, eu ouço", tuitou Moro no dia 30 de junho em meio aos protestos a seu favor. A declaração faz referência ao livro Êxodo, capítulo 3, versículo 7, em que diz que Deus estava acompanhando o sofrimento dos judeus no Egito. Que, por um acaso, era seu povo escolhido entre todos na Terra.

"E disse o Senhor: Tenho visto atentamente a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheci as suas dores."

O Êxodo tem pragas e recompensas, leis e punições, e um povo sofrido e humilhado que não é libertado por sua própria mobilização, mas que precisa de um líder que o retire da escravidão - ação que conta com intervenção divina. Faz mais sucesso, portanto.

Naquele domingo de 2019, uma manifestação da avenida Atlântica, no Rio, uma faixa dizia a Moro: "O senhor nos livrou das trevas", segundo registro da Folha de S.Paulo. O senhor não era o Deus cristão, mas o então juiz federal. Mais explícito que isso só se ele tivesse usado, ao invés do Éxodo, o Evangelho de João, capítulo 14, versículo 6: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida".

Caminho obscuro e verdade velada, a bem dos fatos. Após os vazamentos das conversas entre Sergio Moro e os procuradores da força tarefa da operação Lava Jato, os envolvidos adotaram uma justificativa quântica, em que mensagens são verdade e mentira ao mesmo tempo. Dizem que podem ter sido adulteradas e não as confirmam mas, caso fossem verdade, não veriam nelas problema algum. As mensagens estão vivas e mortas ao mesmo tempo, tipo um "Moro de Schrödinger".

Um general associou Moro a Batman, o herói-justiceiro que opera nas sombras

Em 8 de julho de 2019, Augusto Heleno foi além, contradizendo o boneco inflável, e associando Sergio Moro à figura do Batman.

"Um homem desses ser colocado na parede por gente que tem pavor dele? O cara quando ouve falar em Moro quer morrer, né? Aquilo ali é o símbolo do Batman contra o Coringa", afirmou o general em um evento com empresários em Belo Horizonte.

(Considerando que, um ano depois, Bolsonaro se tornou inimigo mortal de Moro, pode-se afirmar que o general considera seu chefe um palhaço?)

Como já comentei aqui, Batman é um dos personagens psicologicamente mais complexos da DC Comics, com sérias questões internas a resolver. A psicóloga norte-americana Robin Rosenberg, doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de Mayland, é autora do livro "Qual é o Problema com o Batman? Um olhar clínico não autorizado sob a máscara do Cruzado de Capa".

Entre os quadros clínicos que ele poderia ser associado, ela enxerga o Transtorno de Personalidade Antissocial. De acordo com Rosenberg, Bruce Wayne espiona e invade. Resolve problemas por conta própria, perseguindo e atuando de forma ilegal. Mas não age dessa forma por prazer, como um psicopata, mas por acreditar estar em uma missão de prender criminosos. E tem que cumpri-la, custe o que custar. Sugiro uma matéria de Diego Assis, no UOL, para saber mais sobre o livro.

Super-Moro retorna ou era história curta mesmo, de temporada única?

Alguém que faz Justiça do seu próprio jeito, adotando uma moral na qual o fim justifica os meios, é um sucesso de público e de audiência. Na ficção, mas também na vida real.

Não sabemos quantas vezes o Super-Moro ainda será inflado após a derrocada da Lava Jato uma vez que, agora, ele divide o posto de presidenciável com o de investigado pelo STF por suas ações como juiz. Mas é grande a quantidade de fãs que veem nele o herói, o mito, o santo e que vão agir como cães de guarda da biografia alheia, interditando qualquer debate que envolvem seu ídolo em nome dos fatos.

Moro ainda mantém patrimônio eleitoral. Pesquisa XP-Ipespe, desta semana, mostra que ele venceria Bolsonaro em um segundo turno por 36% a 32%. No segundo turno, seria o único a vencer o atual presidente. Lula não foi incluído na pesquisa.

Alguns diriam que ele está vivendo seu calvário e vai renascer em glória. A história atual do Super-Homem é de um pai que enviou o seu único filho para salvar a humanidade, copiando o mito fundador da cristandade. Que, por sua vez, encaixa-se no arco narrativo da jornada do herói - que precisa cair para triunfar. Afinal, parta uma parte da direita e da extrema direita, nem todo Messias é Jair.

Difícil isso acontecer. Mas com a ajuda da TV, tudo é possível. Inclusive inflar o boneco que está murcho.

Ao final disso, o legado do lavajatismo poderia ser útil para nos repensarmos como sociedade. E percebermos o quão importante é a defesa dos preceitos civilizatórios mais básicos, como o direito a um processo justo. Mas não só.

Seria ótimo entendermos que não precisamos de heróis da extrema direita, da direita, do centrão, da esquerda. Não precisamos que ninguém nos salve além de nós mesmos.

Mas, provavelmente, o legado vai servir para reafirmar que cada sociedade merece mesmo os heróis que constrói para si.

Na cabeça

"Precisamos atingir Lula na cabeça (prioridade número 1)." Em uma troca de mensagens entre membros da operação Lava Jato, uma procuradora da República deu a sugestão acima, em 5 de março de 2016, logo após a repercussão negativa pela desnecessária condução coercitiva do ex-presidente.

Mesmo em sentido figurado, não deixa de ser chocante.

Também disse que se os colegas tentassem "atingir ministros do STF", a corte se juntaria contra a operação. Portanto "tá de bom tamanho" atingir "o ministro mais novo do STJ [Superior Tribunal de Justiça]". E reafirmou que Lula e o senador Renan Calheiros (MDB-AL) eram essenciais para "vencermos as batalhas já abertas".

A defesa de Lula levou essa troca de mensagens ao conhecimento do Supremo Tribunal Federal, através de uma petição, segundo informou a coluna de Monica Bergamo, na Folha de S.Paulo.

Até guerras são regidas pela Convenção de Genebra. Contudo, no dia a dia do Brasil, vale tudo - o que ficou registrado ao longo da publicação dos diálogos da Lava Jato pelo site The Intercept Brasil e outros veículos da imprensa e, agora, com uma quantidade muito maior de mensagens obtidas por hackers e apreendidas pela operação Spoofing.

Essa história de atingir alguém na cabeça lembra a declaração de outro operador do sistema de Justiça acusado de ter desrespeitado a lei, alguém que, em 2018, decidiu deixar a toga de juiz federal para assumir um cargo público na esteira da vitória do bolsonarismo. Não, não é Sergio Moro.

"A polícia vai mirar na cabecinha e... fogo! Para não ter erro." A icônica frase de Wilson Witzel, dita em novembro de 2018, reforçou que o então governador eleito do Rio de Janeiro acreditava tanto em justiça sumária quanto em figuras que misturam os papeis de investigador, acusador, magistrado e carrasco. Referindo-se ao direito ao "abate" de criminosos que portassem fuzis, expôs sua visão de mundo. 

A frase criminosa foi um salvo-conduto para policiais que se achavam acima da lei. Vale lembrar que PMs haviam matado, dois meses antes, Rodrigo Alexandre da Silva Serrano, de 26 anos, na favela do Chapéu Mangueira, ao confundirem seu guarda-chuva com um fuzil. Ele não havia feito nada de errado, mas, para uma parcela dos autointitulados "homens de mulheres de bem", se foi morto é porque era culpado de algo.

Aliás, para alguns "homens e mulheres de bem", declarações sobre acertar a cabecinha devem dar um tesão louco.

É paradigmático como membros do sistema de Justiça usam, com facilidade, a ideia de execução física ou simbólica. O que reforça a percepção de que não é a busca por fatos o que guia suas intenções, mas a tentativa de destruição do outro.

No meio do caminho, abatem-se culpados e inocentes, passando por cima do devido processo legal e, portanto, reduzindo a democracia que prometeram defender.

E, ironicamente, tal comportamento justiceiro deixa marcas em quem é abatido, mas também em quem abate.

Witzel foi afastado devido a um escândalo de corrupção. Moro perdeu o cargo após bater de frente com os interesses do presidente que ajudou a eleger e, hoje, enfrenta as críticas decorrentes de um banho de sol sobre suas decisões. E a Lava Jato se tornou uma sombra do que era, menos pelos ataques de seus inimigos e mais por seus próprios erros.


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