Semana On

Sábado 18.set.2021

Ano X - Nº 461

Poder

Delírios de Pazuello no Senado ampliam chance de CPI

Em depoimento de cinco horas, ministro inventa dados sobre vacinas, omite-se sobre negligência do governo e desaponta até governistas. Bolsonaro sugere que brasileiros engulam o choro

Postado em 12 de Fevereiro de 2021 - Raquel Torres (Outra Saúde), Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

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Os senadores iam decidir, a partir de uma audiência com o ministro da Saúde Eduardo Pazuello, se abrem ou não uma CPI para investigar a atuação do governo federal durante a pandemia. A reunião aconteceu ontem (11), estendendo-se por cinco horas. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), disse depois que ia conversar com os líderes da Casa para avaliar se as respostas foram “suficientes”. Segundo a Coluna do Estadãoaté governistas ficaram supresos (negativamente) com a performance do ministro. A oposição já tem assinaturas suficientes para o início da comissão parlamentar, e cabe a Pacheco dar o sinal verde. Sabe-se lá o que vai ser decidido, mas definitivamente não dá para dizer que a audiência tenha sido muito informativa.

Sob pressão, o general disparou informações que simplesmente não têm lastro no mundo real. Disse, por exemplo, que toda a população brasileira “vacinável” (isto é, maior de 18 anos) vai ser imunizada ainda este ano, e metade desse total até junho. Pode ser que milagres aconteçam, mas o próprio o Plano Nacional de Imunização estima, sem mencionar datas específicas, que isso só vá acontecer até 12 meses depois que os grupos prioritários estiverem cobertos. E, para o primeiro trimestre, o Brasil só conta com doses suficientes para vacinar 25% desses grupos… Até agora, as vacinas chegaram a 2,7% da população adulta. E só a primeira dose. Com estoques no fim, pelo menos sete capitais devem interromper as campanhas ou limitar ainda mais o público-alvo na próxima semana. 

O problema, segundo Pazuello, é que está difícil conseguir comprar vacinas de fora e as empresas agora oferecem poucas doses. Exatamente: ao longo dos últimos meses vimos o governo federal cruzar os braços enquanto vários países estabeleciam tantos contratos quantos fossem capazes. O general mencionou pequenas compras anunciadas, como as 10 milhões de doses da Sputnik V e outras 20 milhões da Covaxin (sendo que este imunizante ainda nem tem resultados de ensaios de fase 3), e voltou a desdenhar da Pfizer, porque em sua opinião o Brasil “não precisa se submeter” às cláusulas contratuais da farmacêutica – ao contrário dos EUA, do Reino Unido e dos países da União Europeia, que as aceitaram de bom grado.

A verdadeira aposta brasileira, disse Pazuello, está na produção nacional, a partir do Instituto Butantan e da Fiocruz. É… Só que essa produção depende de insumos de fora, e, como temos visto, o fornecimento anda muito menos veloz que o desejado. Mesmo assim, para o ministro, está tudo azul: o Brasil está “abrindo o leque para ter reservas” de vacina e exportar para outros países da América Latina (uma possibilidade que já foi mesmo levantada pelo Instituto Butantan – porque o Ministério da Saúde não decidia se ia ou não querer mais doses da CoronaVac para o SUS). 

Pazuello ainda ofereceu um estapafúrdio argumento contra a abertura da CPI. Usando uma comparação com a Alemanha de Hitler, ele disse basicamente que investigar os erros do governo na pandemia pode gerar mais mortes: “A Alemanha perdeu a guerra duas vezes porque ela abriu a frente russa. Não há como manter duas frentes. Nós temos uma guerra, é contra a covid. Se nós entrarmos numa nova frente nessa guerra, que é a frente política, vai ser mais difícil ganhar a guerra.  E o resultado disso, é óbvio, é perder mais gente”. 

Qual é a fonte?

Tem mais. Durante a audiência, Pazuello disse que a variante do coronavírus identificada em Manaus é “três vezes mais contagiosa”, mas “graças a Deus tivemos a notícia clara de que as vacinas têm validade com essa variante ainda”. São duas informações que nunca haviam sido divulgadas em lugar nenhum, mas foram jogadas assim, sem qualquer explicação adicional.

Como foi feita a análise sobre a transmissibilidade (se é que foi feita)? Que vacinas foram testadas contra a nova variante, quando foi isso, que resultados foram colhidos (se é que isso aconteceu)? O ministro não deu detalhes, e nos parece altamente improvável eles existam. O irônico é que que se a pasta realmente descobriu que a P.1 é 200% mais contagiosa e não fez nada a respeito, isso é nada menos que um atestado de omissão. O Reino Unido viu que sua variante é cerca de 40% mais transmissível e tem sido uma grande correria para impedir o espalhamento. O território inteiro está em lockdown, mesmo que um quinto da população já tenha tomado a primeira dose de alguma das vacinas.

A propósito, o Brasil registrou ontem 1,4 mil novas mortes por covid-19, que é o maior balanço diário desde julho. Em transmissão ao vivo, Jair Bolsonaro disse que não adianta ficar em casa chorando, pois a economia não pode parar.

Cloroquina, Fiocruz, Ministério

Uma reportagem da Folha sobre a fabricação de hidroxicloroquina na Fiocruz gerou várias críticas e uma nota de esclarecimento por parte da instituição. O jornal afirmou ter obtido documentos mostrando que o Ministério da Saúde usou a Fiocruz para produzir quatro milhões de comprimidos dessa droga, além de Tamiflu, para pacientes com covid-19. Para completar, isso teria sido feito com recursos públicos emergenciais voltados a ações contra a doença: um dos papéis, de junho, informa textualmente que o crédito extraordinário liberado pela MP nº 940 fora usado para esse fim.

A Fundação diz que produziu hidroxicloroquina como faz há duas décadas, a partir de solicitações do Ministério para o  Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária; as últimas remessas à pasta foram feitas em março de 2020 e janeiro de 2021, ambas para atendimento ao programa. Segundo a nota, os recursos emergenciais não foram usados nisso, mas sim para financiar ações como ampliação da capacidade de testagem, ensaios clínicos de novas drogas e a construção de um centro hospitalar voltado para covid-19. Parte da verba foi usada para a produção do Tamifu, mas visando ao tratamento da influenza. 

O Ministério também publicou nota dizendo que não usou os recursos emergenciais alocados à Fiocruz para comprar cloroquina, e que a aquisição realizada em 2020 tinha sido programada ainda em 2019, portanto antes da pandemia. 

Só que outra matéria, também na Folha, mostra um ofício da pasta justificando, no dia 4 de fevereiro, uma mudança de rumo em relação às drogas que seriam usadas contra a malária. “A aquisição desse medicamento foi planejada e instruída para atendimento ao programa de malária. Entretanto, com o advento da pandemia pelo novo coronavírus e dadas as orientações de uso pelo Ministério da Saúde, este medicamento passou a ser disponibilizado no SUS, em 27/03/2020, também para uso no contexto Covid-19″, diz a pasta, respondendo a questionamentos da Procuradoria do Distrito Federal, que investiga improbidade administrativa por parte do general Eduardo Pazuello. O documento detalha: “As distribuições foram realizadas aos estados, Distrito Federal e municípios conforme o número de casos de Covid-19 registrados no boletim do Ministério da Saúde e também com base nas solicitações enviadas pelas secretarias estaduais e municipais de Saúde”.

Ou seja: os ofícios do Ministério se contradizem. Ao que parece, a pasta pode não ter usado verbas da pandemia para pedir à Fiocruz que produzisse cloroquina contra covid-19 – talvez tenha “apenas” desviado esses remédios que são eficazes contra a malária, precisavam ser usados por pacientes com tal doença e foram fabricados com essa finalidade.

Deputados do PT, PSB e PSOL protocolaram ontem uma representação na PGR para que o caso seja investigado.

Análise: Bolsonaro sofre espancamento verbal e Pazuello evita defendê-lo

Jair Bolsonaro foi submetido a um espancamento verbal durante a audiência convocada pelo Senado para ouvir explicações do ministro Eduardo Pazuello (Saúde). O general escutou calado o capitão ser chamado de "genocida", "patético", "incompetente" e "negacionista".

Pazuello deixou que o chefe apanhasse indefeso. Mal conseguiu defender a si mesmo. Articulada com o propósito de esvaziar um requerimento de instalação de uma CPI sobre a pandemia, a audiência revelou-se constrangedora.

O mais embaraçoso não foi o lote de críticas e interrogações formuladas pelos senadores, mas as respostas que o general não foi capaz de prover. Restou a impressão de que o Planalto terá de ralar mais do que gostaria para deter a CPI.

Num dos ataques que Pazuello suportou em silêncio, o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) bateu abaixo da linha da cintura: "Eu tenho fé em Deus que tanto o senhor como o presidente da República irão responder por genocídio, seja aqui no Brasil, seja no Tribunal Penal Internacional."

Contarato prosseguiu: "O senhor deve ser responsabilizado criminalmente, como o presidente, porque vocês estimularam aglomeração, o não distanciamento social, a não utilização de máscaras e o uso de medicação sem nenhuma comprovação científica".

Desculpando-se por usar "palavras duras", o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) disse ter identificado na exposição feita por Pazuello na abertura da sessão "um misto de ignorância e mentira." O general não esboçou reação.

Para Alessandro, Pazuello soou ignorante ao declarar que o governo surpreendeu-se com a escalada de contágio que provocou o colapso do sistema hospitalar de Manaus. "Não surpreendeu a quem estava acompanhando o cenário técnico", declarou. "Fazia parte do roteiro traçado pelo vírus inclusive na Europa."

O senador considerou mentiroso o trecho em que Pazuello declarou que o governo agiu com rapidez e proatividade. Só houve agilidade no instante em que o governo minimizou a pandemia, avaliou Alessandro. Ele tachou de "patética" a previsão de Bolsonaro segundo a qual a pandemia seria uma "gripezinha".

Médico sanitarista, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) também mirou em Bolsonaro. Declarou que a "incompetência vem do centro do poder, da forma criminosa como, do ponto de vista sanitário, o presidente se conduziu." Na sua avaliação, o "grande responsável" pelo elevado número de mortos "foi o presidente, que não foi capaz de assumir a ciência". Pazuello reagiu com um silêncio de cemitério.

No comando da sessão, o novo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), adotou um formato que favoreceu a fuga de Pazuello. Divididos em blocos de cinco, os senadores empilharam críticas e indagações. Ao responder coletivamente, o ministro desviou de interrogações incômodas e desconversou quando lhe pareceu mais cômodo.

Mesmo parlamentares com tendência governista crivaram Pazuello de críticas. Após ouvir a explanação em que o ministro negou ter sido alertado com antecedência sobre o colapso no fornecimento de oxigênio hospitalar no Amazonas o senador amazonense Eduardo Braga, do MDB, rodou a baiana:

"Não está tudo bem, não está tudo certo, e não foi feito tudo o que poderia ter sido feito", declarou Braga a Pazuello. "Eu estive com vossa excelência no seu gabinete, em dezembro. Eu já dizia que nós iríamos enfrentar uma onda no Amazonas muito grave."

Evitando fazer menção explícita à CPI da pandemia, Pazuello fez um "alerta". Traçou uma analogia inusitada entre o Brasil do coronavírus e a Alemanha de Adolf Hitler. Evocando os infortúnios de Hitler, insinuou que a abertura de uma frente de batalha política pode produzir mais mortes.

"Queria fazer o meu alerta: A Alemanha perdeu a guerra duas vezes porque ela abriu a frente russa", declarou o general. "Todo mundo avisou ao ditador que não devia abrir a frente russa - e ele abriu. Não há como manter duas frentes."

Pazuello engatou uma segunda marcha e foi adiante: "Nós temos uma guerra, é contra a covid. Ela é técnica, de saúde, não é política. Se abrir uma segunda frente, política e técnica, vamos apertar. Se nós entrarmos numa nova frente nessa guerra, que é a frente política, nós vamos ficar fixados. Se fixarmos a tropa que está no combate, vai ser mais difícil ganhar a guerra. O resultado disso é morrer mais gente."

Autor do pedido de CPI, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) deu de ombros para o "alerta" do general: "A fala do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, aqui no Senado, não convence", anotou no Twitter. "O país ainda precisa de muitas respostas e soluções. A CPI da Covid-19 continua sendo INDISPENSÁVEL!"

Guindado ao comando do Senado com o apoio de Bolsonaro, Rodrigo Pacheco planeja cozinhar o pedido de CPI em banho-maria até pelo menos quinta-feira da semana que vem.

Pacheco parou o relógio para matar o tempo e oferecer ao Planalto a oportunidade de convencer senadores a retirarem suas assinaturas do requerimento. Até a noite de quinta-feira (11), havia no documento 31 jamegões. Para enviar a CPI ao arquivo, o Planalto precisa passar na lámina pelo menos quatro assinaturas.

Após 1.452 mortes em 24h, Bolsonaro sugere que brasileiros engulam o choro

"Não adianta ficar em casa chorando, não vai chegar a lugar nenhum", afirmou Jair Bolsonaro, na quinta (11), quando o país registrou 1.452 óbitos por covid-19 em 24 horas. Em outras palavras, esqueça os mortos e pare de chorar.

É insensibilidade? É. Mas pelo menos, desta vez, o presidente da República não marcou a chegada de um número alto de mortes andando de jet ski no lago Paranoá, como fez em 9 de maio do ano passado, quando ultrapassamos 10 mil óbitos.

"Vamos respeitar o vírus, voltar a trabalhar, porque sem a economia não tem Brasil", disse na sequência. Só faltou completar dizendo que o trabalho liberta.

Durante a primeira fase da pandemia, a irresponsabilidade de alguns frigoríficos, mantendo a produção sem se preocupar com a saúde de seus empregados, fez com que se tornassem focos de disseminação de mortes por covid em municípios do Sul do país. Moral da história: sem a economia não tem Brasil, mas sem brasileiro não tem economia.

Enquanto isso, o auxílio emergencial, que poderia estar amenizando o aperto de muita gente que não consegue emprego porque há um vírus assassino, à solta, dançando com o diabo no meio na rua, não parece ser urgente. Prova disso é que o Ministério da Economia continua condicionando o seu retorno à aprovação de um ajuste fiscal.

Nesta quinta, mais balões de ensaio com propostas para o auxílio vieram a público, todas vinculadas a cortes de gastos que atingem em cheio o andar de baixo. No cinema, isso teria o nome de "Dr. Guedes ou Como Aprendi a Parar de me Preocupar com o Povo e Amar o Ajuste" - uma versão pornochanchada da comédia de guerra apocalíptica de Stanley Kubrick. Por aqui, é chantagem mesmo.

"Tem muito médico que usa a hidroxicloroquina, a ivermectina para o tratamento precoce", afirmou também o presidente na mesma live desta quinta. O Brasil havia acabado de descobrir, através de uma reportagem da Folha de S.Paulo, que o seu governo segue despejando milhões de reais em cloroquina na população, com a reiterada mentira de que o remédio funciona contra a doença. Enquanto isso, falta até remédio para transplantados.

Plantando feijões mágicos, ele vai colher uma população com problemas cardíacos e hepatite, efeitos colaterais dos dois medicamentos. O povo quer vacina? Que engula cloroquina e depois carregue uma comorbidade.

As ações de Bolsonaro permitiram que o Brasil atingisse 236.397 mortos. Se tivéssemos um hamster na Presidência da República, correndo dentro daquela rodinha o dia inteiro, a tragédia não teria sido tão grande. Pois o problema não foi apenas o que ele deixou de fazer, mas o que ele efetivamente fez para atrapalhar a prevenção ao vírus e atrasar a vacinação da população. O hamster não ia ajudar, mas também não ia provocar um morticínio.

O número de mortes desta quinta é o terceiro maior desde o início da pandemia, perdendo para os 1.554, de 29 de julho, e os 1.470, de 4 de junho. Quinta foi o 22º dia consecutivo com média móvel de óbitos acima de mil. Se ele continuar se esforçando em promover aglomerações, teremos um recorde muito em breve.

Sabe o que Jair fará quando atingirmos 1.500 mortos em um só dia em 2021? Vai preparar o terreno para chegarmos a 2 mil.


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