Semana On

Quinta-Feira 05.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

A sucuri que mordeu o leão

Em 2020, foram completados 30 anos do sucesso de ‘Pantanal’. No mesmo ano, a Globo anunciou a realização da refilmagem da novela

Postado em 10 de Fevereiro de 2021 - Clayton Salles

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Cramunhão era o nome do demônio. Não a criatura mítica de cornos pontudos e cauda proeminente. Era entidade manifesta no andarilho misterioso que vivia nas águas da Bacia Platina, emitindo esturros e se transformando em serpente. Pastor das piranhas, guardião das onças-pintadas, cuidador dos jacarés, protetor de homens e mulheres conectados àquelas raízes. Um dia, o violeiro Trindade, de capa felpuda, chapéu de palha e cabelos libertos, acudiu o andarilho das águas, aguapés e camalotes, ferido de bala. O artista solitário revelou que tinha acordo com o diabo. "Pois você está falando com ele", respondeu o Velho do Rio, pedindo para Trindade lhe extrair o projétil cravado em seu corpo senil. Depois, se misturou aos tuiuiús e lesmas. Tempos depois, no casamento de Joventino e Juma, o velho esfuziante atrapalha o sermão do padre e começa a tocar um berrante contínuo e poderoso. Zé Leôncio reconhece a melodia grave e longínqua. "É meu pai". Era sua benção, mais forte que reza, mais divina que versículo. A sagrada unção da natureza. Anjo rústico, capeta bucólico, o Velho do Rio é o ícone sobre o qual converge parte do conjunto de lendas nativas da exuberante paisagem pantaneira. Pelo menos, no personagem criado por Benedito Ruy Barbosa para a atuação memorável de Cláudio Marzo, que ainda viveu o fazendeiro e peão Zé Leôncio, homem de juventude pretérita movimentada, entre o concreto carioca e a lida nas comitivas de boiadas. Personagem que ganhava o coração do Brasil, ao lado de outros, quando, entre 27 de março e 10 de dezembro de 1990, a então ativa TV Manchete exibia a novela "Pantanal". A emissora carioca não somente colocava no ar um produto de sua qualificada teledramaturgia. Ela iniciava um fenômeno midiático tão caudaloso como inundação pantaneira e tão fulminante como bote da boca-de-sapo.

Ironicamente, o ventre que geraria "Pantanal" era a TV Globo. Em 1984, o roteiro estava pronto para ganhar vida e a pré-produção chegou a ser iniciada. Porém, esse não parecia o desejo das forças pantaneiras e a época de cheias na região alagou os planos da emissora. A realização da novela foi cancelada e o projeto voltava para as gavetas da Central Globo de Produções. A década de 1980 foi um período próspero para a cadeia produtiva dos folhetins televisivos, na qual a líder absoluta de audiência expandia sua hegemonia com obras de sucesso inconteste. Aproveitando o vagalhão novelesco da época, a Manchete ingressa nessa selva sedutora, concebendo alguns sucessos como "Dona Beija" e "Kananga do Japão". Nada que fizesse frente à Globo. "Pantanal" parecia condenada à obliviedade quando Benedito Ruy Barbosa deixa a emissora e se muda para a Manchete. Levava na pasta, o projeto abandonado pela antiga empregadora. Contratado, a nova casa encampou a ideia, Jayme Monjardim assumiu a direção e as produções começaram em 1989, com a maioria das locações na Fazenda Rio Negro, localizada na região de Aquidauana (MS) e outras no Rio de Janeiro e São Paulo. Finalmente, em 1990, a caminhada da onça, o bailado da cobra e a nudez de Nani Venâncio sobre a canção de Marcus Viana sinalizavam que um marco da televisão brasileira ganhava os lares do país. "Pantanal" estava no ar. 

Como explicar o êxito de uma obra contextualizada distante do eixo Rio-São Paulo e produzida por uma concorrente da soberana Globo, com estupendos números de audiência e a calorosa recepção da crítica? Uma pista é a posição de "Pantanal" na grade de programação da Manchete. Diferente do que se pensa, a novela não disputou diretamente com o carro-chefe da Globo no horário nobre, no caso, a novela "Rainha da Sucata", veiculada às 20h (fuso de Brasília) e sim, com os programas de entretenimento seguintes. Assim que o folhetim global terminava, em média 22 por cento mudava de canal para a Manchete e às 21h30, "Pantanal" começava. A abundância de cenas sensuais desfrutadas nas águas de lagoinhas e riachos pantaneiros empurrava a novela para essa hora mais avançada, o que ajudou bastante. Como a linha de novelas da Globo terminava no ápice com a "novela das oito" e o que vinha depois praticamente não tinha concorrência nas demais emissoras, o vácuo foi ocupado por "Pantanal", turbinada, em parte, pela curiosidade das cenas quentes. A isca dos programadores da Manchete era jogada com sabedoria de pescador ribeirinho. Assim que mordiam, cabia ao roteiro diferenciado, ao carisma do elenco que misturava rostos famosos de novelas - da Globo - como Cláudio Marzo, Cássia Kiss, Ítala Nandi e Angela Leal com revelações como Marcos Winter, Cristiana Oliveira, Angelo Antônio e Luciene Adami, e a direção consistente entregar histórias que envolviam encontros do universo inóspito e harmonioso do viver pantaneiro com a monotonia colorida e turbulenta da metrópole. Telespectadores habituados aos cenários de classe média urbana que predominavam nas novelas globais, encontravam em "Pantanal" uma espécie de saída da zona de conforto. Era como se a atração os agarrasse pelos olhos para sair do apartamento e os atirasse numa selva linda e desconhecida. "Pantanal" deu sabor de aventura ao exercício trivial de assistir a novelas. Isso foi fatal. 

Os frutos que caíram da frondosa árvore de "Pantanal" foram notáveis. Carreiras de veteranos, revigoradas. Carreiras de novatos, impulsionadas. Um novo frescor passaria a ocupar espaço no repertório de ideias dos roteiristas, tanto da Manchete, que nunca mais experimentaria tão avassalador êxito até sua extinção em 1999, quanto das concorrentes. Em 2006, a Globo comprou os direitos de "Pantanal" e se preparava para movimentar seu maquinário teledramatúrgico quando o SBT exibiu travessamente a novela em 2008. Claro que os tribunais entraram em cena. A emissora de Silvio Santos alegou ter comprado as fitas originais da novela de um empresário que adquiriu o material do espólio da Manchete. O SBT foi processado, perdeu na primeira instância, venceu na segunda e foi derrotado no STJ. O homem do baú ficaria 100 milhões de reais menos rico e a Globo voltava a ser a dona definitiva. Briga de onças famintas pela suculenta presa televisiva. 

Em 2020, foram completados 30 anos do sucesso de "Pantanal". No mesmo ano, a Globo anunciou a realização da refilmagem da novela para 2021. Segundo reportagem veiculada no Fantástico em setembro, as adaptações e atualizações já estão sendo feitas pelo escritor Bruno Luperi, neto de Benedito Ruy Barbosa. Novos temas deverão ser inseridos, como a devastação no Pantanal nos últimos anos e o homem pantaneiro na era digital. Novos atores e atrizes deverão dar vida à Juma, Joventino, Zé Leôncio, Tadeu, Trindade, Guta, Muda, Filó, Bruaca, Velho do Rio. Velhos coadjuvantes também devem preencher a telinha: onças, jacarés, tuiuiús, sucuris e piranhas. Desafio e tanto para a Globo. Em tempos de oferta abundante de conteúdos audiovisuais graças à internet, as cifras de audiência chegarão perto daquelas gloriosas noites de 1990? A hipnose em massa causada pelos encantos de três décadas atrás alcançará o mesmo efeito? Os personagens destilarão a mesma força irresistível que paralisou milhões de brasileiras e brasileiros diante da televisão? Isso é um mistério. Não tão fascinante quanto a noite cobrindo o Pantanal de lua e estrelas. Mas se o espírito da viola de Almir Sater, projetado ao país graças a sua música e a seu personagem na novela, o sombrio Trindade, for mantido, pode-se esperar uma boa releitura contemporânea. Afinal, a natureza é isso: sem medo, nem dó, nem drama. 


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