Semana On

Quinta-Feira 05.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Saúde

Não há base científica sobre uso de Ivermectina contra Covid-19, diz fabricante do vermicida

Apesar disso, venda de remédios sem eficácia comprovada contra a Covid dispara

Postado em 05 de Fevereiro de 2021 - Raquel Torres (Outra Saúde), Carolina Dantas (G1), Adamo Idoeta (BBC News) – Edição Semana On

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A Merck, que fabrica a ivermectina, publicou ontem um comunicado avisando que não há dados que sustentem o uso do vermífugo contra a covid-19. O texto ainda alerta que há uma “preocupante falta de dados de segurança na maioria dos estudos”. 

Se as drogas do kit-covid funcionassem, o Brasil estaria bem demais: matéria do G1 mostra o quanto subiu a venda de várias delas nas farmácias do país. No caso da ivermectina, 8,1 milhões de unidades foram vendidas em 2019, contra inacreditáveis 53,8 milhões no ano passado. Para a hidroxicloroquina, as vendas mais do que dobraram, passando de 963 mil para 2 milhões de unidades. 

Para Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo e pós-doutora em epidemiologia pela Universidade Johns Hopkins, ainda não temos a exata dimensão do prejuízo do uso desses remédios na saúde das pessoas.

"Quem teve um problema cardiovascular devido ao uso indiscriminado? No caso da hidroxicloroquina, a gente ainda nem sabe, no meio de tantas mortes neste ano, quem pode ter sido prejudicado" - Ethel Maciel, pós-doutora em epidemiologia

A propósito, o presidente Jair Bolsonaro disse ontem que “tudo bem” se cloroquina não funcionar. “Deixa de ser otário. Estamos vivendo um momento de crise. São vidas que estão em jogo. Pode ser que lá na frente falem que a chance é zero, que é placebo. Tudo bem. Paciência, me desculpem, tchau. Mas pelo menos não matei ninguém”. Problema nenhum…

Para garantir, o MPF decidiu salvar os vídeos em que Bolsonaro e Pazuello aparecem defendendo o tratamento precoce com esse tipo de medicamento. Vão ser usados como provas em um procedimento aberto para investigar improbidade administrativa no uso de verba pública para distribuir drogas comprovadamente ineficazes. 

Risco de morrer de covid-19 no Brasil foi mais de 3 vezes maior que no resto do mundo

As quase 195 mil mortes por covid-19 oficialmente registradas no Brasil ao final de 2020 não só escalonaram rapidamente neste ano — hoje, essa cifra já passa de 225 mil — como fizeram do país um dos mais mortíferos da pandemia em todo o mundo, se levadas em conta a composição demográfica e etária brasileira.

Na prática, o risco de um morador do Brasil ter morrido de covid-19 em 2020 foi quase quatro vezes maior do que no resto do mundo, em média.

As conclusões são de um trabalho ainda em andamento do economista Marcos Hecksher, pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Segundo seus cálculos, 169 países de um total de 178 (ou seja, 95%) tiveram uma taxa menor do que a do Brasil em mortes por covid-19, quando comparam-se não só os números absolutos, mas o tamanho da população e os óbitos em cada faixa etária.

Isso quer dizer que, caso em todos esses países os cidadãos tivessem morrido na mesma proporção, por sexo e por idade, em que morreram no Brasil, só nove deles estariam em uma situação pior do que a brasileira — ou seja, nessa comparação, registraram mais mortes do que teriam tido.

Há meses o Brasil ocupa o segundo lugar do mundo em número absoluto de mortes por covid-19, atrás apenas dos Estados Unidos, que hoje contabilizam mais de 443 mil óbitos.

Quando a comparação leva em conta o número de mortes por 100 mil habitantes, porém, diversos países europeus, como Bélgica, Reino Unido, Espanha e Itália, passaram à frente do Brasil ainda em 2020. Afinal, têm um número proporcionalmente alto de mortes pelo novo coronavírus em relação ao tamanho de sua população.

Isso continua valendo em 2021. No levantamento mais recente da Universidade Johns Hopkins, o país com mais mortes por 100 mil habitantes é o Reino Unido, seguido pela República Tcheca e a Itália. O Brasil aparece em 12° lugar.

Mas essa conta tampouco pinta um quadro completo.

Hecksher lembra que países europeus (e os EUA também) têm uma população com maior porcentagem de idosos do que a brasileira, portanto muito mais suscetível a adoecer gravemente quando infectada pelo coronavírus.

"O número de mortes de covid-19 por 100 mil habitantes indica o risco de uma pessoa qualquer em uma população ter morrido por causa da doença. Essa taxa é influenciada pela demografia de cada país. Como os idosos têm risco muito maior de morrer de covid-19 do que os mais jovens, é esperado que países com população mais envelhecida tenham mais mortes por 100 mil habitantes", explica o pesquisador.

Uma das formas de corrigir isso para fazer uma análise comparativa com o desempenho do Brasil na pandemia, diz Hecksher, é incorporando ao cálculo a mortalidade por faixa etária e sexo.

Em seu trabalho, o pesquisador levantou portanto não só a quantidade de mortes de cada país por covid-19 e sua população, mas também a composição da população em cada país analisado, a partir de dados da OMS, da ONU e do Ministério da Saúde brasileiro.

É nessa conta que o Brasil aparece pior que 169 países.

Hecksher calculou que, se os demais países do mundo tivessem, com as suas respectivas pirâmides populacionais e divisões por sexo, repetido o padrão brasileiro de mortes em cada faixa etária e sexo, apenas nove deles teriam tido menos mortes do que de fato tiveram.

São eles: Peru, México, Belize, Bolívia, Equador, Panamá, Colômbia e — os únicos não latino-americanos da lista — Macedônia do Norte e Irã.

"Entre os 179 países analisados, o Brasil fica na 10ª pior posição do ranking. Isso significa que 95% dos países (analisados) tiveram resultado melhor que o Brasil no combate à covid-19 em 2020 quando se leva em conta a demografia de cada um", aponta Hecksher.

O Peru, que em junho e julho do ano passado começou a enfrentar uma crise semelhante à vivida agora por Manaus — com colapso do sistema de saúde e escassez de cilindros de oxigênio —, acabou se tornando um dos países com mais alta taxa de mortalidade por covid-19 em todo o planeta.

No outro extremo dessa comparação está o Vietnã, que até esta semana contabilizava um total de apenas 35 mortes por covid-19, segundo a OMS.

"No Vietnã, morreram apenas 0,05% do que se esperaria se o país replicasse o padrão de mortalidade brasileiro. Em outras palavras, dados o sexo e a idade de uma pessoa, o risco médio de morrer em 2020 de covid-19 foi 2 mil vezes maior no Brasil do que no Vietnã", compara Hecksher.

Na prática, a cada morte por covid-19 no Brasil em 2020, o Peru registrou 1,42 morte — levando-se em conta o ajuste por faixa etária e sexo. Ou seja, cada cinco mortes no Brasil equivaleriam a cerca de sete no Peru.

O Vietnã, enquanto isso, registou apenas 0,0005 morte a cada pessoa que perdeu sua vida para o coronavírus no Brasil. Ou seja, para 2 mil mortes brasileiras, o Vietnã contabilizou apenas uma.

É bom destacar que os cálculos são feitos com base nos dados oficiais da pandemia em cada país, sem levar em conta a subnotificação de mortes por covid-19 — por exemplo, de pessoas que não foram testadas para covid-19 e cujo atestado de óbito consta apenas que ela morreu de problemas respiratórios.

Aqui no Brasil, diferentes especialistas estimaram em dezembro que a subnotificação foi tão grande que o número de mortes por covid-19 no ano passado pode ter sido 50% maior do que o registrado oficialmente. Isso faria o número absoluto de mortes subir dos quase 195 mil oficiais em 2020 a mais de 290 mil.


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