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Sábado 24.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Coluna

Sobre vinhos, risos e a busca por uma crônica engraçada

Em tempos quando os abraços foram suprimidos, as ausências se tornaram rotina e a casa sempre vazia, a tristeza, esse sentimento tão difícil de explicar, acaba se instalando nos cantos de todos os cômodos

Postado em 03 de Fevereiro de 2021 - Theresa Hilcar

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Um dos meus cronistas favoritos, Rubem Braga, a quem sempre recorro quando preciso de inspiração, escreveu em 1967:

“Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse - ‘ai meu Deus, que história mais engraçada!’. E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história, e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de casa), enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – ‘mas essa história é mesmo muito engraçada!’”.

Lembro agora de Braga porque eu também adoraria escrever uma crônica, senão engraçada, ao menos leve, otimista. Mas difícil ignorar que os últimos meses têm sido uma batalha contra a desesperança. E a ignorância.

Eu tento fingir e, às vezes, até dá certo. Vez por outra uma taça – ou mais – de vinho me traz a sensação da alegria perdida num canto qualquer. A anestesia, contudo, dura pouco e os efeitos colaterais são imensos. O álcool sempre cobra a fatura. Velha ou nova.

Certa vez, ouvi comentário sobre o tema, dito por um chileno simpático, companheiro de meditação na Índia: “Enquanto envelhecemos, o álcool vai deixando a gente aos poucos”. Já tinha ouvido a frase anos antes, mas não sei precisar o autor.

Por esses dias recebi mensagem fazendo menção à saúde e longevidade da Rainha Elizabeth como resultado de quatro drinques por dia. Não é fácil ser rainha neste mundo onde tantos falam tanto.

Outra lenda urbana que se conta é que a Rainha-mãe consumia algumas taças de champanhe todos os dias – da marca Cristal. Porque, é claro, não basta ser da realeza, é preciso ter bom gosto.

Quando criança, cansei de ouvir que todo bebum arruma motivo para beber.  Se está triste, para afogar as mágoas, se alegre para comemorar, se não tem motivo ele inventa.

Na Pandemia o consumo de vinho aumentou exponencialmente. Nunca tantos beberam tanto. Fala-se em aumento de 26% a 30% no consumo. O mercado online foi lá para as alturas. “Vou tomar um vinhozinho agora” tornou-se um mantra para muita gente.

Boa parte dos filmes (americanos e espanhóis adoram!) costuma usar a clássica cena: personagem chega em casa depois de um dia cansativo e pega um drinque. Ou diz para alguém “tudo que eu preciso agora é de um drinque”.

Mas a tristeza, o desconforto e o desalento, infelizmente, não passam com um drinque ou uma taça de vinho. Muitas vezes não passam nem com reza braba. Com remédio, às vezes, também não passam. Talvez a única cura seja o afeto, este sentimento cada vez mais distante.

Em tempos quando os abraços foram suprimidos, as ausências se tornaram rotina e a casa sempre vazia, a tristeza, esse sentimento tão difícil de explicar, acaba se instalando nos cantos de todos os cômodos. É um vazio que não se vê, apenas se sente.

Adoraria saber se Braga conseguiria ver algum alento nessas fissuras.


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