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Quarta-Feira 10.ago.2022

Ano X - Nº 499

Coluna

Não verás País Nenhum

A distopia de Loyola Brandão está mais atual que nunca

Postado em 03 de Fevereiro de 2021 - Ricardo Moebus

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O Escritor Ignácio de Loyola Brandão publicou em 1981 o romance “Não Verás País Nenhum”, uma verdadeira distopia brasileira, que se passava em um país fictício governado, no futuro século XXI, por um núcleo anônimo, entidade chamada “Esquema”, em uma sociedade decadente, caótica e autoritária.

Parece que a publicação visionária de Loyola Brandão está cada vez mais próxima de nossa triste realidade atual.

Os povos indígenas acompanham com atenção os acontecimentos no Congresso Nacional. Eles sabem que as coisas não são decididas ali, mas que é ali que os representantes dos donos do país articulam e realizam a modelagem de um país cada dia mais privatista, elitista, excludente, destruidor da sociobiodiversidade, no qual os privilégios avançam e os direitos retrocedem.

Os povos indígenas sabem que a eleição do deputado Arthur Lira recentemente para a presidência da Câmara dos Deputados pode aprofundar a crise socioambiental-humanitária que vivemos nestes últimos anos.

Sabem que Arthur Lira recebeu 200 mil reais para sua campanha eleitoral em 2014, a última com doação direta, da Rico Táxi Aéreo, empresa que atende por décadas os garimpeiros na Amazônia.

Sabem que o projeto de lei PL 191/2020, que libera a mineração dentro das terras indígenas, apresentado em fevereiro de 2020, não colocado em pauta por Rodrigo Maia, será agora pautado no Congresso Nacional.

O PL 191/2020 autoriza mineração, garimpo, exploração de petróleo e gás, construção de hidrelétricas, pecuária, agronegócio transgênico, nos Territórios Tradicionais Indígenas – TIs.

A consulta prévia prevista pela convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), passará a ser mera formalidade, os povos indígenas serão consultados, mas não terão poder de veto sobre nada.

O PL 191/2020 está entre os 35 projetos de prioridade máxima, enviados pelo presidente do Brasil aos novos detentores da pauta das casas legislativas nacionais.

Os deputados ligados à mineração, ao garimpo e a ampla bancada ruralista festejam o massacre anunciado.

Os povos indígenas possuem um único representante eleito no congresso nacional, a deputada Joênia Wapichana, mulher indígena guerreira aguerrida, enfrentando as piores circunstâncias legislativas imagináveis.

Também o PL 2633/2020 está na lista trágica da prioridade presidencial, o PL da “Regularização fundiária”, conhecido como “PL da Grilagem”, que também ameaça diretamente Territórios Indígenas, mesmo os regularizados, homologados, certificados.

Um festim macabro sem precedentes se anuncia sobre a sociobiodiversidade brasileira, sobretudo a amazônica. Os povos indígenas sabem disso, denunciam isso ativamente, divulgam isso o máximo que podem. Exemplo disso é a recente denuncia ao Tribunal Penal Internacional (TPI) feita pelo Cacique Raoni, já com noventa anos de idade.


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