Semana On

Quinta-Feira 24.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Coluna

Para não dizer que não falei de flores e jardins

Nem todos os jardins, nem todas as flores do mundo serão suficientes para homenagear cada um deles. Nem para confortar os que ficaram

Postado em 28 de Janeiro de 2021 - Theresa Hilcar

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Reclamei com uma amiga que estou sem assunto para a crônica. Não me ocorre nada além do óbvio. E por não ser especialista nem comentarista política, fico apenas com as entrelinhas. A amiga, gentil, sugeriu então que eu falasse de flores. Mas ultimamente só vejo flores na TV.

Não tenho flores no meu jardim. Aliás, sequer tenho jardim.

O que tenho na minúscula varanda do apartamento são três ou quatro vasos de plantas. Um vaso de Espada de São Jorge, que mesmo morando num vaso quebrado sobrevive galhardamente. Também tenho um exemplar de boldo, meu pronto-socorro nas horas em que o fígado ou o estômago reclamam.

Bem agarradinha às suas raízes tem lá uma orquídea que de vez em quando me dá o ar da graça. E que graça! Quando ela floresce passo um bom tempo agradecendo à natureza por tamanho milagre e beleza.

Um outro vaso é sobrevivente de umas margaridas compradas no mercado há tempos. Acredito que dará flores em breve. E finalmente, aproveitando uma panela de barro que trouxe de Minas, plantei ali mudas de manjericão e alecrim.

Plantei, mas não vingaram. Já replantei outras dezenas de vezes e a coisa não vai para frente. Talvez seja o material de barro, mas no momento não tenho como sair para comprar um recipiente apropriado.

Portanto, meu jardim se resume a isto. Mas quase todas as manhãs, nas quais amanheço com alguma esperança, sento-me na cadeira com uma caneca de café na mão e lhes dou bom dia.

A bem da verdade, ultimamente não tenho feito isto. Mal tenho energia para regá-las. Por sorte a chuva que vem caindo todos os dias se encarrega do meu trabalho. Meu humor anda de mal a pior desde o dia em que tiraram a expectativa da iminente vacina. Desde o dia em que dormi com esperança e acordei vazia, desolada. Ao que tudo indica, a desfaçatez é uma conta que nunca fecha.

Justo quando já contava os dias, fazia planos, arrumava as roupas guardadas há meses no armário, colocava em ordem a maquiagem, tudo para voltar ao convívio social, ao trabalho nosso de cada dia. Já me via subindo as escadas, virando o corredor e entrando na redação com enorme sorriso - de máscara transparente.

Quero voltar a ouvir e ver os passarinhos, desviar dos quatis que me assustam na avenida, respirar o ar puro do Parque. Quero conversar. Quero respirar cada minuto, cada segundo de amizade, camaradagem e conhecimento. Quero caminhar sem medo.

Mas para que isto aconteça é preciso, antes, que muita coisa mude. Coisas que não compreendo, não assimilo, não aceito. Coisas, fatos na verdade, que me embrulham o estômago. Cidades e Estados inteiros à espera de um verdadeiro gesto de compaixão. E, claro, de competência. Já foram mais de 200 mil vidas ceifadas pelo vírus neste País.

Nem todos os jardins, nem todas as flores do mundo serão suficientes para homenagear cada um deles. Nem para confortar os que ficaram.

Artigo publicado originalmente no Correio do Estado.


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