Semana On

Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Quem nunca comeu, quando come se lambuza

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 28 de Janeiro de 2021 - Victor Barone

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As lideranças políticas estão a três dias da rendição ao presidente Jair Bolsonaro, o que se consumará ao elegerem o novo comando do Poder Legislativo. A confirmarem-se as prévias, estarão os parlamentares promovendo sua incorporação às vilanias do governo... A capitulação da Câmara significa muito mais do que engavetar o impeachment. O compromisso inclui a aprovação de políticas contrárias aos interesses da população... A rendição irrestrita da presidência da Câmara é armação política de um pacto que tornará o Executivo e o Legislativo um só bloco, indiferente à dor, ao luto e à indignação do povo.

Por Rosângela Bittar

As eleições para a presidência da Câmara acontecem na próxima segunda-feira (1°); o candidato apoiado pela oposição, Baleia Rossi (MDB-SP), promete apenas analisar “com equilíbrio” os pedidos de impeachment que se acumulam na Casa. A demanda popular ainda não parece suficientemente forte para mobilizar os parlamentares: a pesquisa Atlas divulgada ontem mostrou que 53,6% dos entrevistados são contra a abertura de um processo de impeachment, e 41,5% a favor. Mas não é uma diferença tão grande, em especial quando se considera que o apoio ao presidente está, mais uma vez, em declínio. O Datafolha confirmou outros levantamentos mostrando que a reprovação ao governo Bolsonaro subiu (foi de 32% em dezembro para 40% agora, enquanto a aprovação caiu de 37% para 31%). 

UM LORD

"Vai pra puta que pariu, porra. Essa imprensa de merda, é pra enfiar no rabo de vocês, de vocês da imprensa, essas latas de leite condensado aí". Foi esta a reação do presidente da República, Jair Bolsonaro, diante da revelação dos gastos alimentícios do governo federal em 2020, que somaram mais de R$ 1,8 bilhão. O ataque de Bolsonaro foi efusivamente celebrado pelo presentes, entre eles o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. As imagens foram feitas na churrascaria Nativas Grill, em Brasília. O ambiente estava lotado e as pessoas, inclusive o presidente e o chanceler, não usavam máscaras. Após o ataque, Bolsonaro justificou: "Não é para a Presidência da República essa compra de alimentos. Até porque nossa fonte é outra [...] para alimentar 370 mil homens do Exército Brasileiro e também programas de alimentação via Ministério da Cidadania, também alimentação via Ministério da Educação", afirmou.

Entre os milhões destinados pelo governo federal à compra de produtos de necessidade questionável destacam-se os R$ 31 milhões de reais em leite condensado, iguaria preferida do presidente Jair Bolsonaro, e batatas fritas

A professora Ivana Bentes, pesquisadora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), reforçou a polêmica ao publicar em suas redes sociais uma comparação entre esse gasto com leite condensado e o que o governo de Bolsonaro distribui através do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). No orçamento entregue pelo governo federal para o ano de 2021, a entidade ligada ao Ministério da Ciência e Tecnologia terá cerca de 22 milhões de reais para distribuir entre os diferentes projetos de pesquisa selecionados. Ou seja, leite condensado e batata frita mereceram 9 milhões de reais a mais do governo que o fomento à pesquisa científica.

Bentes ironizou dizendo que essas medidas são “do mesmo Presidente que diz que o Brasil está quebrado, do mesmo ministro da Economia que ameaça congelar o orçamento da Educação”. A professora também lembrou que “no governo Lula, em 2008, Rodrigo Maia acusou Orlando Silva, então ministro dos Esportes, por comprar uma tapioca de 8 reais com cartão corporativo, e fizeram uma CPI dos Cartões, um escândalo! E agora? Um escárnio!”. Para finalizar, a pesquisadora também disse que chamou a atenção o tipo de produto comprado. “Que nutricionista orienta as compras do governo? Não parece comida de adultos”, comentou.

PARECE MENTIRA

A cada ano, o Ministério da Economia define o valor de uma cota de produtos destinados a pesquisa científica que podem ser comprados de outros países sem impostos de importação – a chamada cota de importação. Depois de chegar a US$ 700 milhões em 2014, nos últimos anos três o valor máximo dessas compras ficou estabelecido em US$ 300 milhões. Mas para 2021 o governo Bolsonaro decidiu fazer um corte inacreditável de quase 70% e, com isso, serão só US$ 93,29 milhões.

E quais serão as instituições mais afetadas? Segundo um levantamento do CNPq, no ano passado os principais importadores foram as fundações de apoio ao Instituto Butantan e à Fiocruz, que consumiram respectivamente US$ 80,3 milhões e US$ 47,4 milhões. Só os projetos relacionados à pandemia beneficiados pela isenção consumiram cerca de US$ 108 milhões em 2020. A cota estabelecida pelo governo, portanto, não cobriria nem a manutenção desses projetos. O CNPq enviou um documento à Economia pedindo que o valor anterior seja restabelecido

A matéria da Folha lembra que tanto o Butantan como a Fiocruz têm projetos de pesquisa para o desenvolvimento de novas vacinas contra a covid-19 totalmente brasileiras (o que, se vingar, pode nos livrar de muita dor-de-cabeça relacionada aos acordos com farmacêuticas estrangeiras). Estes estudos, porém, ainda não estão na fase de testes em humanos, aquela em que são realizados os ensaios de fase 1, 2 e 3. Para essa etapa, são necessários recursos. E aí não se trata apenas de verba de benefícios fiscais, como é o caso da cota de importação, mas de investimento direto. 

O sempre confiante ministro da Ciência, Marcos Pontes, afirma que três dos projetos brasileiros de vacinas (desenvolvidos pela UFMG e pela USP) estão em “ponto de bala” para começar os testes com pacientes. Mas para cada um deles seriam necessários R$ 390 milhões, uma verba que ele diz não ter. 

A previsão orçamentária do governo para este ano corta em 34% a verba do Ministério da Ciência. De acordo com Pontes, a tesourada não tem relação com a falta de verbas para a pesquisa com vacinas. “Vamos ter de achar os recursos, porque é importante para o país, e vamos conseguir de alguma forma“, garante ele, no Estadão, completando ainda que “o presidente também está interessado, sabe a importância de ter essas vacinas no país”.

PAZUELLO NA MIRA

O procurador-geral da República, Agusto Aras, vinha sendo pressionado a tomar alguma medida que levasse à investigação da conduta do governo federal durante a pandemia. O clima começou a ficar insustentável na semana passada, depois da nota em que Aras dizia caber ao Congresso a apuração de crimes cometidos pelos chefes dos Poderes. Houve críticas por parte de procuradores, de ministros do STF, de conselheiros do Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) e da diretoria da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). “Está prevaricando, é caso para impeachment do próprio procurador-geral da República“, disse o jurista Walter Maierovitch ao UOL

No dia 23, finalmente, Aras pediu ao STF a abertura de um inquérito contra o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, para investigar sua omissão em relação à atual crise em Manaus. De acordo com ele, o pedido decorre de uma representação feita pelo partido Cidadania. O documento cita o cronograma das ações do Ministério na crise e sugere que, já de posse de informações sobre uma iminente falta de oxigênio, Pazuello distribuir hidroxicloroquina em vez de tomar alguma ação efetiva. No dia 14 de janeiro, dia que marcou o colapso, foram entregues 120 mil unidades da droga ineficaz. Quanto ao oxigênio, o general se limitou a vistiar a fábrica da White Martins, fornecedora do insumo. Ainda no texto, Aras diz que a apuração é necessária para saber se a conduta “pode caracterizar omissão passível de responsabilização cível, administrativa e/ou criminal”.

A imagem de Eduardo Pazuello, que já não andava das melhores, se desgastou ainda mais. No sábado à noite, horas depois do pedido da PGR, ele desembarcou em Manaus – segundo o Ministério da Saúde, “não tem voo de volta a Brasília” e “ficará no Amazonas o tempo que for necessário”. Ainda não se sabe direito o que ele pretende fazer por lá, além de marcar presença. A agenda oficial estava livre e, segundo disse a assessoria da pasta ao Estadão, até ontem não havia nenhuma previsão de compromissos.

Em tempo: apesar de toda a expertise de Pazuello em logística, estão escancarados os problemas do Ministério nesta seara. Ele então convidou um novo nome para assessorar o Departamento de Logística em Saúde da Secretaria Executiva da pasta. Trata-se de mais um general: Ridauto Lúcio Fernandes, “militar da reserva e patriota da ativa, graças a Deus”, como se define no Twitter. Em abril do ano passado, ele foi ao Facebook para defender estado de sítio, estado de defesa e intervenção federal na pandemia. “Em maio, junto a uma foto com as cabeças de governadores como se fossem pinos de boliche, ele postou uma mensagem com um convite a Jair Bolsonaro: ‘Vamos intervir, Presidente?'”, conta o colunista d’O Globo Jauro Jardim.

E BOLSONARO?

A pressão sobre Augusto Aras não é apenas no sentido de que se apure a conduta de Eduardo Pazuello, mas também a de Jair Bolsonaro – e ao menos por ora o procurador-geral não fez nada que pudesse atingi-lo. Porém, é ao Congresso que se dirige uma palavra que voltou a crescer na boca do povo: ‘impeachment’. 

A mobilização vem por todos os lados. No dia 23, movimentos de esquerda e partidos de oposição puxaram carreatas em dezenas de cidades do Brasil, incluindo Brasília, Rio, São Paulo, Recife e Curitiba. No dia 24, novas carreatas se espalharam por São Paulo, Rio, Belo Horizonte e cidades do interior paulista, dessa vez convocadas por grupos de direita, como o MBL (Movimento Brasil Livre) e o Movimento Vem pra Rua. A hashtag #DireitaQuerForaBolsonaro foi uma das mais comentadas no Twitter.

Por Outra Saúde 

ROBÔS À TODA

A plataforma Bot Sentinel, que monitora a ação de contas inautênticas no Twitter, mostra que desde o dia 24 as hashtags bolsonaristas são as que mais registram a ação de robôs em todo o mundo. As principais hashtags utilizadas pelos apoiadores do presidente nos últimos dias são respostas aos diversos atos pedindo o impeachment de Bolsonaro que foram registrados em todo o país ao longo do fim de semana. 

No dia 24, a hashtag #TODOSCOMBOLSONARO fechou o dia na liderança da mobilização de robôs, com um total de 780 tweets feitos a partir de contas inautênticas, segundo dados do Bot Sentinel. Em segundo lugar ficou a #DERRETEVEMPRARUA, que critica o movimento que puxou um dos primeiros atos de grupos de direita pelo impeachment de Bolsonaro. 

O top cinco foi todo composto por hashtags bolsonaristas: em terceiro lugar, #FORADORIA; em quarto, #BOLSONAROTEMRAZAO; e, em quinto, #DIABOLSONARO2022.  

Nesta segunda (25), os robôs continuaram mobilizados. Na liderança mundial de publicação por contas inautênticas está a #DERRETEVEMPRARUA, seguida de #ESQUERDAQUERBOLSONAROATE2026 e #TODOSCOMBOLSONARO.

Além de serem impulsionadas por robôs e contas inautênticas, as hashtags também foram propagadas por parlamentares da base aliada

Os responsáveis pela plataforma definem contas inautênticas como “indivíduos nefastos que fingem ser algo que não são para enganar seus seguidores e público, ou contas automatizadas (bots) desenvolvidas para se comportarem da forma mais humana possível com a intenção de enganar os outros usuários das redes. Pessoas de má-índole usam contas inautênticas para semear discórdia e causar caos nas plataformas de mídia social, e costumam ser usados ​​para se envolver em assédio direcionado e trollagem tóxica".

POLÍTICA EQUIVOCADA

Embaixador do Brasil em Washington de 2016 a 2019, Sérgio Amaral diz que o País está isolado e colhe os frutos de uma política externa “equivocada”. “Não é o mundo que está contra o Brasil, é o Brasil que está contra o mundo. Precisamos fazer uma avaliação dos custos que essa política externa está trazendo. O Brasil está sozinho”, disse à Coluna. Segundo ele, as grandes nações já estão discutindo como será o mundo do pós-pandemia, e o Brasil, nessa toada, não fará parte dele porque ficou ao lado de uma minoria que inclui Hungria e Polônia.

Hora… Joe Biden (EUA) está com uma forte agenda ambientalista e, provavelmente, pedirá medidas concretas e quantificáveis do Brasil para impedir o desmatamento, avalia Amaral. “Mas será que o Brasil vai fazer isso?, questiona ele.

…de agir. “Os ministros Ricardo Salles (Meio Ambiente) e Ernesto Araújo (Itamaraty) não têm credibilidade para levar adiante um programa de mudança”, afirma Sérgio Amaral.

Será? A carta de Jair Bolsonaro para Biden nesta semana, na avaliação de Amaral, é positiva, embora tardia. “Sinaliza, se não uma mudança, pelo menos uma intenção de mudança.”

Por Outra Saúde

AMEAÇAS

O delegado responsável por conduzir as investigações da Polícia Federal sobre a facada em Jair Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018, Rodrigo Morais, decidiu distribuir 15 ações judiciais contra deputados e influenciadores bolsonaristas por ameaças e fake news.

Segundo reportagem de João Paulo Saconi, no portal Extra, alguns dos nomes processados por ele são os deputados Alexandre Frota (PSDB-SP) e Carla Zambelli (PSL-SP), assim como o advogado Frederick Wassef, que defendia a família do presidente Jair Bolsonaro, influenciadores e portais bolsonaristas.

O delegado afirma nos processos que os bolsonaristas acionados judicialmente teriam produzido ou replicado conteúdos que o associavam ao PT.

Os ataques alegam que Morais trabalhou em um cargo de terceiro escalão do governo de Minas durante a gestão do petista Fernando Pimentel e atuou no esquema de segurança de grandes eventos durante a presidência de Dilma Rousseff.

A defesa de Morais diz que, por causa dessas teorias, ele passou a ser “constrangido em seu próprio ambiente de trabalho, com ameaças de morte e xingamentos feitos por meio de telefonemas ao seu gabinete na PF”.

Morais passou a ser atacado após as investigações concluírem que o responsável pela facada, Adélio Bispo, agiu sozinho e sem mandantes. Adélio está internado em um hospital psiquiátrico em Barbacena, Minas Gerais. Ele foi diagnosticado com transtorno delirante persistente e declarado inimputável pela Justiça.

As conclusões contrariaram as expectativas de apoiadores do presidente de que o ataque contra o então candidato teve um mandante. Em diversas ocasiões, Bolsonaro tentou associar Adélio Bispo e o atentado ao PSOL.

BRUMADINHO, DOIS ANOS

Ontem o rompimento da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, completou dois anos sem reparação por parte da Vale. Há uma ação no valor de e R$ 54 bilhões (R$ 26 bi para os danos sofridos pelo Estado e R$ 28 bi pelos danos morais e sociais da comunidade), mas a empresa tenta negociar o valor – sem que os atingidos participem da discussão. 

Os efeitos do crime ambiental vão mais longe do que a morte de 272 pessoas e o desaparecimento de outras 11. Com o rio Paraopeba contaminado, a população não pode mais pescar ou cultivar vegetais para consumo ali perto. Mesmo a água a tratada pela Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) vem suja, de modo que é preciso comprar água mineral para beber. “As pessoas continuam a morrer diariamente. Pessoas que sequer fazem parte das estatísticas, mas que morrem de diversas doenças causadas de forma direta e indireta por esse crime da Vale, pessoas que sentem na pele, que morrem de depressão, muitas tentativas de autoextermínio e muitas doenças causadas por tristeza, porque as pessoas tiveram a sua dignidade abalada”, diz Joelisia Feitosa, uma das atingidas, ao Brasil de Fato.

CONDICIONANTES

Paulo Guedes disse que o governo pode até retomar o auxílio emergencial, desde que o número de mortes por covid-19 continue acima de mil por dia, a vacinação atrase e se chegue a um entendimento de que “falhamos miseravelmente”. Não parece faltar nada, mas, para o ministro da Economia, “temos que observar se é o caso ou não”. 

Mas aí alguém vai ter que pagar: “Quer criar o auxílio emergencial de novo? Tem que ter muito cuidado. Pensa bastante, porque se fizer isso, não pode ter aumento automático de verbas para a educação, para segurança pública, porque a prioridade passou a ser absoluta, é uma guerra, e durante a guerra, é fazer armamento bélico. Pega os episódios de guerra aí e vê se teve aumento de salário durante a guerra, se teve dinheiro para saúde, educação. Não tem. É dinheiro pra guerra. Aqui é a mesma coisa. Se apertar o botão ali, vai ter que travar o resto todo”, disse ele.

Por Outra Saúde

SÓ RINDO

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, respondeu com ironia um questionamento sobre Jair Bolsonaro, feito pela jornalista brasileira, Raquel Krähenbühl, correspondente da GloboNews em Washington. “Perguntei ao presidente Joe Biden quando ele vai falar com o presidente do Brasil. Biden riu”, escreveu a jornalista, em seu Twitter, na quinta-feira (28). Como será o relacionamento entre Brasil e Estados Unidos, após a vitória do democrata Biden, ainda é uma incógnita, uma vez que Bolsonaro se sentia mais do que um aliado, praticamente um fã do republicano Donald Trump.

POR DENTRO DO CFM

“Estamos com uma pandemia dessas. Os conselhos de medicina o que poderiam dizer? Primeiro, a coisa mais simples e imediata: usem máscara e evitem aglomerações. Você viu o Conselho [Federal, o CFM] dar essa mensagem para a população? Uma coisa tão simples como essa”. A crítica de Drauzio Varella na última reportagem do Intercept traduz bem o quanto a atitude do CFM tem sido danosa durante a pandemia. 

Nem dá para chamar de inação: o Conselho até agiu, mas justo dando cobertura a Jair Bolsonaro em sua obstinação pelo “tratamento” com hidroxicloroquina. Em abril do ano passado, um parecer entregue pelo presidente do CFM, Mauro Ribeiro, autorizava os médicos a prescreverem a droga, incluisive nos casos leves, se julgassem necessário. A primeira fala da entidade contra os tratamentos precoces veio só recentemente, depois do escândalo do TrateCov. Mesmo assim foi tímida – e no fim de semana Ribeiro publicou um artigo na Folha dizendo que na verdade o Conselho vai continuar respeitando a “autonomia” dos médicos.

Voltando ao Intercepto repórter Leonardo Martins conversou com ex-presidentes de conselhos regionais e ex-conselheiros que, anonimamente, falaram do alinhamento ideológico entre essas entidades e Jair Bolsonaro. É uma matéria interessante, principalmente para quem não acompanha de perto esse terreno. Além do CFM, o texto também enfoca o Cremesp, maior conselho regional do país, e lembra detalhes da polarização política nas últimas eleições para a chefia. Elas aconteceram em outubro de 2018, junto com as eleições presidenciais, e tiveram o mesmo tom – com fake news e gritos contra petismo, socialismo etc. Venceu a chapa que era contra tudo isso aí.

Por Outra Saúde

RACISMO ESTRUTURAL

Após ser acusado de racismo nas redes sociais, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que organiza a prova, corrigiu o gabarito e disse que foi encontrada "uma inconsistência no material". "A autarquia verificou que uma modificação feita no gabarito após o retorno das provas para o Inep não foi salva no banco de dados. Em função disso, a área técnica providenciou uma revisão no material e o instituto já disponibilizou as versões corrigidas no seu portal", afirma a nota.

Questão sobre alisamento de cabelo:

A primeira pergunta em discussão faz parte da prova de inglês e traz um trecho da obra "Americanah", da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichi. No excerto, duas mulheres negras conversam em um salão de cabeleireiro. A profissional, Aisha, recomenda que a cliente, Ifemelu, alise os fios para "ficar mais fácil de penteá-los". A jovem não aprova a ideia: diz que gosta do seu cabelo natural, "como Deus o fez".

Em seguida, há o trecho, em tradução para o português: "Não é difícil pentear se você hidratar corretamente ", disse ela [Ifelemu], assumindo o tom persuasivo que ela usava sempre que tentava convencer outras mulheres negras sobre os méritos de usar seu cabelo natural".

O Enem, então, questiona o que os argumentos da cliente representam. No gabarito extraoficial e no programa de correção, professores apontam que a alternativa correta seria a "c": "revelam uma atitude de resistência". Mas, segundo o Inep publicou inicialmente, o certo seria "demonstram uma postura de imaturidade" (alternativa "d"). Depois do questionamento do G1, o gabarito foi corrigido para "c".

GENTE DE BEM

A enfermeira Nathana Ceschim está sendo investigada após publicar na internet vídeos em que aparece debochando da CoronaVac. Ela trabalha no Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES). Em um dos vídeos, a mulher aparece em seu ambiente de trabalho, de touca cirúrgica e em frente a um computador da unidade. Ela trata a pandemia com desdém. O hospital não informou em que área a gravação foi feita. Em outro vídeo, a enfermeira aparece em casa e tira ainda mais sarro da pandemia. “Como boa bolsonarista que sou, tomei por conta que eu quero viajar [sic], não para me sentir mais segura. Porque uma vacina que dá 50% de segurança para mim não é uma vacina. Tomei foi água”. Nathanna foi demitida da Santa Casa de Misericórdia de Vitória. O Conselho Regional de Enfermagem do Espírito Santo informou que não vai comentar sobre a demissão de Nathanna. Entretanto, no site, o Coren explicou que a profissional será investigada pelo Conselho de Ética da entidade.

GENTE DE BEM 2

Apoiador contumaz de Jair Bolsonaro (Sem Partido) nas redes sociais, Luciano de Castro Teixeira, que se declara “médico emergencista” do Hospital Osvaldo Cruz de Palmas, no Tocantins, reagiu com ataques homofóbicos ao ser criticado em uma publicação em que buscava causar terror na população sobre a vacina CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo. Na publicação, feita em seu perfil no Facebook, Teixeira diz ter atendido um paciente “que vomitava sangue a madrugada seguinte ao aplicar a CoronaVac (SIC)”. A declaração, sem detalhes, recebeu uma enxurrada de críticas. Na madrugada desta terça-feira (26), o médico voltou às redes e teve um chilique, desferindo uma série de ataques homofóbicos e expondo um dos seguidores que criticaram a publicação.

GENTE DE BEM 3

A médica Leanara Amaro Rocha foi duramente criticada após uma publicação no Instagram em que ela aparenta se divertir com o fato de entubar pacientes vítimas da Covid-19. “Dois intubados no mesmo plantão. Mais um eu peço música no Fantástico kakakaka”, postou Leandra Amaro, que trabalha na cidade de Guajará-Mirim (RO). Ela teve sua formatura antecipada em maio de 2020 devido à necessidade de profissionais para trabalhar na pandemia. A publicação, que continha um emoji de risadas, chegou até o vereador Rivan Eguez (PV). O parlamentar informou ter levado o caso às autoridades. “De imediato entrei em contato com o Plantão do Ministério Público”, contou. Após a repercussão do caso, Leanara Rocha divulgou uma carta aberta pedindo desculpas à população.

GENTE DE BEM 4

A companhia aérea Gol acionou a Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, depois que o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) se recusou a usar máscara de proteção facial num voo com destino a Brasília. Em um vídeo postado nas redes sociais em que dá a sua versão do episódio, o parlamentar afirma que pretende continuar "lutando contra essa focenheira ideológica", mas nega ter sido retirado da aeronave. O deputado, que costuma fazer postagens contra o uso de máscara com a alegação de que o equipamento não garante proteção contra o novo coronavírus, também afirmou que pretende processar a Gol por causa do episódio.  Procurada, a Gol não se manifestou. Policial militar, Silveira foi eleito em 2018 na onda bolsonarista. Ele ganhou notoriedade ao quebrar uma placa de rua em homenagem à vereadora Marielle Franco durante um comício.

FRASES DA SEMANA

“O leite condensado é um dos itens que compõem a alimentação por seu potencial energético. Eventualmente, pode ser usado em substituição ao leite. Ressalta-se que a conservação do produto é superior ao leite fresco”. (Nota do Ministério da Defesa sobre a dieta do governo)

 

“Se acha que o Exército está comendo muito bem e você não, aliste-se. Sirva a sua pátria e coma bem no Exército”. (Carla Zambelli, deputada federal bolsonarista, em mensagem postada no Twitter)

“A palavra é emergencial. O que é emergencial? Não é duradouro, não é vitalício, não é aposentadoria. Lamento muita gente passando necessidade, mas a nossa capacidade de endividamento está no limite”. (Bolsonaro, ao negar a prorrogação do auxílio emergencial contra a Covid-19)

“Voltemos ao trabalho, deixemos de viver conduzidos por aqueles que veneram a morte, que propagandeiam o quanto pior melhor […], o covarde e picareta da ocasião que afirma ‘fiquem em casa’”. (Carlos Eduardo Contar, presidente do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul)

“O golpe que levou ao meu impeachment foi liderado por políticos sabidamente corruptos, defendido pela mídia e tolerado pelo Judiciário. Um golpe que usou como pretexto medidas fiscais rotineiras de governo idênticas às que meus antecessores haviam adotado.” (Dilma Rousseff)

“Não salvou a economia, matou milhares de pessoas e infectou milhões de pessoas. Esse homem não pode continuar. Ele é a instabilidade. Com ele não sairemos dessa crise, não conseguiremos resolver os problemas do Brasil. Impeachment!”. (Gleisi Hoffmann, presidente do PT)

“Eu não posso obrigar ninguém a tomar vacina, como um governador um tempo atrás falou que ia obrigar. Eu não sou inconsequente a esse ponto. Ela tem que ser voluntária, afinal de contas, não está nada comprovado cientificamente com essa vacina aí”. (Jair Bolsonaro


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