Semana On

Sexta-Feira 17.set.2021

Ano X - Nº 460

Cultura e Entretenimento

10 discos memoráveis que completam 50 anos em 2021

Nem os Beatles nem Jimi Hendrix estavam mais por aqui, o rock se tornara maior e os músicos tinham vivido o suficiente para contar coisas profundas. Aos 27 anos, Chico Buarque surpreendia o mundo com o melhor da música brasileira. Bem-vindos à excelente safra de 1971

Postado em 22 de Janeiro de 2021 - Carlos Marcos – El País

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Em 1971, o rock havia crescido. Terminou uma década (os anos sessenta) que começou com a ingenuidade e alegria de Love Me Do e terminou com o pesadelo do festival de Altamont. Os Beatles, aquele grupo que transmitia alegria e boas vibrações, desabou entre censuras e situações desagradáveis. Era urgente inventar outra coisa. E assim foi feito. Alguns músicos provaram que tinham o que contar contar: eles não eram mais aqueles jovens de vinte e poucos anos que ganhavam dinheiro com melodias agradáveis. Eles sofreram desgosto, construíram uma consciência social comprometida, aprenderam a tocar e a cantar, alguns já eram até milionários... E as drogas, claro, as mesmas que mataram Jimi Hendrix, Janis Joplin, Brian Jones... Foi em 1971, meio século atrás, um ano que ofereceu uma colheita de discos memoráveis. Como estes...

THE ROLLING STONES, STICKY FINGERS

Quem são? O primeiro disco oficial de Mick Taylor como membro pleno dos Rolling Stones. No anterior, Let It Bleed, ele já participara timidamente, mas aqui sua guitarra se desdobra em sua melhor versão: virtuosa, mas com sentimento do blues. Richards comentou sobre o acréscimo à banda: “A música dos Stones mudou. A gente compõe pensando em Mick Taylor, sem nem perceber, porque sabe que ele pode fazer coisas diferentes”. Taylor tinha apenas 20 anos e estava embarcando no navio pirata dos Stones.

Por que Sticky Fingers é tão bom? Deixemos de lado que tem o começo perfeito para um álbum de rock and roll (Brown Sugar), que contém a melhor balada da história do grupo (Wild Horses) ou que inclui uma canção tão maravilhosa como Dead Flowers. E vamos nos concentrar nos atores coadjuvantes: o poder quase heavy de Sway, o blues arrastado de You Gotta Move, a empolgante Bitch ou a obscura Sister Morphine. Não há um segundo de gordura em Sticky Fingers, tudo é perfeitamente utilizável.

MARVIN GAYE, WHAT’S GOING ON

Quem é? Nos anos 60, Marvin Gaye foi um a mais na engrenagem que Berry Gordy montou para a gravadora Motown: um talentoso cantor especializado em peças românticas de soul. Mas ele já tinha 30 anos e queria mudar. Passava por terremotos emocionais: Tammi Terrell, sua parceira em muitos sucessos, acabara de falecer (março de 1970); seu casamento estava desmoronando; o relacionamento com seu pai (sempre explosivo) estava em um período deprimente, e seu irmão lhe escrevia cartas torturadas do Vietnã. Tudo isso foi o terreno fértil para What’s Going On’.

Por que What’s Going On é tão bom? Em 2003, a revista Rolling Stone fez uma lista dos 500 melhores álbuns da história. What’s Going On‘ ficou em sexto lugar (o primeiro foi Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles). Em setembro de 2020, a publicação atualizou a lista e o clássico de Marvin Gaye subiu para a primeira posição. Esse fato reflete a grandeza de um álbum que não é afetado pela passagem do tempo; e mais que isso, torna-se mais necessário. Porque os problemas de que fala ainda estão aí: as desigualdades sociais, a luta por um mundo mais ecológico, o problema das drogas, as guerras miseráveis e o desejo do ser humano de ver alguma luz em um mundo cheio de vazios. Musicalmente, Gaye canta de forma imaculada sobre camadas e camadas de instrumentação em uma obra de vanguarda ainda 50 anos depois. Ouvir esse álbum é entrar em um mundo tão turbulento quanto belo. E cada vez que se faz isso é uma aventura.

NINA SIMONE, HERE COMES THE SUN

Quem é? Como diz o escritor Dave Marsh no prólogo das memórias da cantora, “para Nina Simone a arte estava intimamente relacionada com o desejo de viver como uma pessoa livre”. Lutou contra a segregação racial, cantou como os anjos, sofreu bipolaridade e seus níveis de dramatização na interpretação estão à altura de Billie Holiday.

Por que Here Comes the Sun é tão bom? O que dizem com tanta frequência nos programas televisivos de descoberta de talentos: “Faça com que a canção seja sua”. Nada a ver. A maneira como Nina Simone lida com essas versões, sim, dá sentido a essa frase. Simone desconstrói Bob Dylan, George Harrison, Frank Sinatra ... ela os esmiúça, os despedaça, e dos pedacinhos ergue canções que não são mais as originais: são dela, seja em seu lado comovente, ou lúdico, como a latinizada My Way.

DAVID BOWIE, HUNKY DORY

Quem é? Com apenas 23 anos, David Bowie já estava em seu quarto álbum. Embora Hunky Dory não tenha sido um sucesso imediato, foi o álbum que o tornou uma estrela do rock. Aqui começa a complexa e apaixonante história do Bowie ícone do pop. Assim ele se expressou logo após o lançamento, em 1971: “Vou ser alguém muito grande e isso é algo bem assustador de certa forma, porque sei que quando chegar ao topo e for hora de desaparecer, terei deixado minha marca”. Somente com essa confiança em si mesmo é possível chegar tão alto como ele chegou.

Por que Hunky Dory é tão bom? Recordemos que é o álbum que inclui Changes, Oh! You Pretty Things, Life On Mars? e Queen Bitch. Quatro canções soberbas. Hunky Dory é um manifesto pop pós-modernista com um paradoxo: belas canções melódicas, mas com letras obscuras e rebuscadas.

JANIS JOPLIN, PEARL

Quem é? Em 4 de outubro de 1970, Janis Joplin, a primeira estrela feminina na história do rock, morria de overdose de heroína. Tinha 27 anos. Três meses depois foi lançado Pearl, no qual ele estivera trabalhando nos últimos dias de sua vida. Foi o trabalho mais vendido de sua carreira. Ela perdeu isso.

Por que Pearl é tão bom? Joplin nunca teve uma banda à sua altura. Sempre antepôs os laços emocionais aos profissionais, e essa regra a privou de manter um grupo de músicos que pudesse acolher suas arrasadoras condições vocais como mereciam. Somente neste álbum póstumo ela consegue uma banda digna. É seu álbum mais cuidado, graças também ao produtor Paul Rothchild, conceituado por seu trabalho com os Doors. A grandeza de Joplin está nas baladas que são o testamento de uma mulher atormentada pela dor e pela falta de afeto. São canções em que Joplin se entrega até se partir em duas, demonstrações de sua interpretação selvagem. Acontece que tudo o que ela canta (e tudo significa tudo) você acredita. Lamentos como Cry Baby, A Woman Left Lonely, My Baby ou Trust Me ainda deixam os cabelos em pé.

CHICO BUARQUE, CONSTRUÇÃO

Quem é? Em 1971, Chico Buarque tinha 27 anos, tinha estado exilado na Itália (trabalhando com Ennio Morricone, entre outros) e estava pronto para retornar ao Brasil e enfrentar o desafio de contornar com sua arte a censura da ditadura brasileira.

Por que Construção é tão bom? Musicalmente é uma demonstração de toda a riqueza da música popular brasileira: samba, bossa nova, tropicalismo ... Liricamente é uma obra apaixonante, cheia de duplos sentidos, mensagens nas entrelinhas, versos com recados, acenos intelectuais ... É um disco comprometido que a censura engoliu: é preciso esmiuçar as letras para encontrar o verdadeiro sentido, que nada mais é do que a luta pela liberdade, contra a ditadura e em defesa da classe trabalhadora. Poucas vezes uma música tão ensolarada teve uma mensagem tão revolucionária.

JONI MITCHELL, BLUE

Quem é? Foi assim que Joni Mitchell explicou como se sentiu durante a gravação de Blue: “Enquanto eu estava no estúdio, me sentia tão vulnerável que se alguém me olhasse nos olhos eu me punha a chorar. Curiosamente, meu pior momento emocional coincidiu com meu melhor momento de popularidade. Estavam me colocando em um pedestal, e eu estava desabando.” Pouco mais a acrescentar.

Por que Blue é tão bom? Se considerarmos os discos de rupturas sentimentais um gênero, Blue ficaria no top 5. Joni Mitchell captura a dor do fim de um relacionamento (com Graham Nash) e a esperança do florescimento de outra (com James Taylor). Todo esse turbilhão de sentimentos se reflete em letras cheias de verdade. A interpretação é o outro ponto forte do álbum. Com instrumentação austera (piano e violão acústico), as inflexões da voz de Mitchell levam o ouvinte por uma jornada plena de sobressaltos.

THE WHO, WHO’S NEXT

Quem são? Um grupo liderado pelo irrefreável Pete Townshend de 30 anos. Ele havia concebido Tommy dois anos antes (1969), uma obra complexa (que entrou para a história do pop como ópera-rock), tanto intelectual como musical. E se via com forças para fazer outra semelhante, chamada Lifehouse. Mas o mundo não seguia na mesma velocidade que sua mente hiperativa.

Por que Who’s Next é tão bom? O conceito e o enredo de Lifehouse eram tão intrincados que, quando Townshend se sentou com o produtor Glyn Johns para explicá-lo, este lhe disse: “Pete, não entendi uma única palavra do que você me contou”. “E isso porque eu me esmerei”, disse Townshend em suas memórias, Who I Am.. O guitarrista descartou Lifehouse, mas ficou com várias canções que já havia esboçado. Elas comporiam o esqueleto de Who’s Next. E que material: Baba O’Riley, The Song Is Over, Behind Blue Eyes, Won’t Get Fooled Again... Mesmo a única canção das nove não composta por Townshend, My Wife, do baixista John Entwistle, não fica fora de compasso. Um álbum poderoso, melódico, com substância, variado ... Uma obra-prima.

SLY AND THE FAMILY STONE, THERE’S A RIOT GOIN’ ON

Quem são? Uma banda em estado de choque em paralelo com o que acontecia em seu país, os Estados Unidos. As drogas da era hippie já não caiam bem, o Vietnã era um cemitério nacional e a violência era a única maneira que alguns viam para resolver as diferenças raciais. Sly Stone não estava com humor para compor algo agradável.

Por que There’s a Riot Goin’ On é tão bom? Greil Marcus, um analista preciso da cultura norte-americana, disse sobre este álbum em seu livro Mystery Train: “É uma obra áspera e perturbadora que pode ser ignorada e até mesmo menosprezada, mas que não pode ser deixada de lado”. Nebulosa, incômoda, audaz e paranoica, esta descarga de funk-rock é hoje, com o mundo trêmulo e medroso, tão essencial como em 1971.

LED ZEPPELIN, IV

Quem são? Quatro músicos fantásticos colocando seu talento (e abrindo mão de parte de seu ego) a serviço de uma causa: tornar-se a maior banda de rock pesado da história.

Por que IV é tão bom? Chamamos esse disco de IV, mas na realidade ele não tem nome. É a dedução lógica depois das edições de I, II e III, este último um álbum inclinado ao folk que decepcionou o público roqueiro do grupo. Eles se reconciliaram com este trabalho, que ficará para a história por conter Stairway to Heaven, mas que é muito mais: Black Dog, Rock and Roll, When the Leave Breaks ... Energia, experimentação (ouça atentamente Four Sticks) e fidelidade a seu adorado blues. Bandas como Foo Fighters, Guns N’Roses, Greta Van Fleet, AC/DC e uma longa lista teriam sido diferentes sem essas oito canções.


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