Semana On

Sexta-Feira 22.out.2021

Ano X - Nº 464

Brasil

Aplicativo do Ministério da Saúde indicava cloroquina para gato, dor nas costas, ressaca e recém nascidos

Ministro da Saúde se exaltou com jornalistas e negou que tenha indicado o uso da cloroquina, apesar dos muitos registros em que ele faz exatamente isso

Postado em 21 de Janeiro de 2021 - Guilherme Mendes (Congresso em Foco), Sarah Teófilo e Maria Eduarda Cardim (Correio Braziliense), Gabriel Valery (RBA), Felipe Betim (El País) – Edição Semana On

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O Ministério da Saúde retirou do ar na quinta-feira (21) o aplicativo TrateCov. A ferramenta indicava o “tratamento precoce” da Covid-19 com base em medicamentos sem eficácia comprovada para a doença, como a hidroxicloroquina, cloroquina, ivermectina, azitromicina, doxicicilina, sulfato de zinco e Dexametasona.

Uma pessoa isolada socialmente, sem contato com infectados pela covid-19, sem comorbidades, que sente apenas uma leve dor de cabeça - talvez fruto de uma ressaca - ainda assim poderia receber, deste formulário virtual produzido pelo Ministério da Saúde, um receituário ineficaz contra a doença

A forma de funcionamento do formulário virtual TrateCOV – que serviria para facilitar o diagnóstico de covid-19 mas, na verdade, receitava o coquetel do suposto "tratamento precoce" para quase qualquer caso – foi descoberta por programadores, que analisaram como o formulário funciona.

O funcionamento da plataforma, destinado em um primeiro momento a médicos de Manaus, corrobora a ação do presidente Jair Bolsonaro, do ministro da Saúde Eduardo Pazuello e de parlamentares da base bolsonarista, que insistem no uso do coquetel.

Segundo programadores ouvidos pela reportagem, o sistema atribui uma série de notas a sintomas que o paciente pode desenvolver e, com base no escore final, apontar o tratamento – que será composto apenas do mesmo conjunto de seis remédios (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, doxicilina e sulfato de zinco), com a opção de incluir Dexametasona. Acima de seis pontos, a única variação é quanto ao tamanho da dosagem, variando pelo peso do paciente.

O desenho do sistema, portanto, poderia gerar anomalias. Uma dor de cabeça seguida de náuseas por uma viagem de barco já geraria os seis pontos necessários para emissão de um receituário. Se o peso da pessoa for alterado para hipotéticos 5.000 Kg e sua altura para 300 cm, a receita passa a ordenar o consumo de 333 comprimidos de Ivermectina por dia.

No início da pandemia, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que entre outras atividades produz a vacina de Oxford no Brasil, já havia recomendado que não houvesse o tratamento de covid-19 com doses altas de cloroquina – o que pode estar se repetindo agora. “Os resultados apresentados servem como um alerta, oferecendo evidências mais robustas para protocolos de tratamento da covid-19”, explicou à época o pesquisador Marcus Vinícius Lacerda.

Já em abril de 2020, a Fiocruz alertava que nenhum estudo havia até então garantido a segurança do uso. Mesmo hoje, em janeiro de 2021, não há nenhuma garantia de que o uso de cloroquina e dos outros remédios receitados pelo Ministério da Saúde trouxessem resultado.

Questionado, o Ministério da Saúde disse apenas que "orienta opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada e oferece total autonomia para que o profissional médico decida o melhor tratamento para o paciente, de acordo com cada caso", ignorando o fato de que não há literatura científica que endosse o uso do coquetel.

O TrateCOV é uma ferramenta criada para auxiliar médicos na coleta de sintomas e sinais de pacientes e que está em fase de testes em Manaus, afetada por uma segunda onda de covid-19 nas últimas semanas e alvo de uma campanha presencial do ministro Pazuello pelo uso dos remédios ineficazes. "A expectativa é disponibilizar o sistema para todo o país de forma gradual", disse o Ministério.

A Associação Médica Brasileira informou que reitera à sociedade e aos médicos do país que as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no “tratamento precoce” para a covid-19.

"Atualmente, aliás, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), entidade reguladora vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil. Só as vacinas têm o potencial de combater a covid-19 grave, evitando internações hospitalares, necessidade de oxigenioterapia, admissões em unidades de terapia intensiva e óbito", diz a nota enviada pela entidade.

Pouco depois do meio-dia, o formulário estava fora do ar. Ele ainda pode ser acessado em uma página própria do Ministério da Saúde, por meio de aba anônima do navegador.

Dor nas costas e recém nascidos

O aplicativo recomenda sempre o mesmo coquetel de medicamentos, independentemente dos sintomas relatados pelo usuário. Até quando foi indicado sintomas como dores nas costas, quando o “paciente” relata doença cardíaca grave, ou a simulação foi feita para sintomas em bebês, o receituário do governo Bolsonaro é o mesmo. E ineficaz, além de potencialmente perigoso para alguns casos, como os de cardiopatias.

Cloroquina até para o gato Moreré

O jornalista Felipe Betim, do El país, acessou a plataforma para ver como funcionava e preencheu a ficha médica com o nome de seu gato, Moreré, de 1 ano. Colocou alguns dados que poderiam ser de uma criança da mesma idade —8 quilos, 70 centímetros— e sintomas de febre e fadiga por apenas um dia. A página criada pelo Governo Jair Bolsonaro entendeu então que ele poderia estar com covid-19 indicou possíveis tratamentos precoces com remédios sem eficácia comprovada contra a doença.

De acordo com o Ministério da Saúde, o gato de Felipe, de 1 ano poderia receber, ao longo de cinco dias, 6 comprimidos de Difostato de Cloroquina 500 mg; 12 comprimidos de Hidroxicloroquina 200 mg; 1 comprimido diário de Ivermectina 6mg; 5 comprimidos de Azitromicina 500 mg; 10 comprimidos de Doxiciclina 100 mg; ou ainda 14 comprimidos de sulfato de zinco por 7 dias.

Um detalhe importante: na parte em que deveria indicar se o paciente possui alguma comorbidade, o jornalista marcou que ele possuía insuficiência cardíaca. De acordo com análises médicas, a cloroquina e hidroxicloroquina, usados contra a malária, pode afetar os batimentos do coração. Mesmo sabendo desse risco, o algoritmo da plataforma do Governo Federal indica os medicamentos.

O TrateCov não chega a pedir o CPF do paciente, mas indica um espaço para que o profissional da saúde preencha seus dados e coloque seu CRM. A plataforma é “um ambiente de simulação” que provisoriamente está “disponível, exclusivamente, para médicos e enfermeiros que atuam na Secretaria de Saúde do Município de Manaus, na Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas e Hospitais privados do Município de Manaus”, conforme está descrito.

Diante da repercussão negativa, o site foi atualizado no último dia 20 com a seguinte descrição: “O Ministério da Saúde esclarece que o TrateCov orienta opções terapêuticas disponíveis na literatura científica atualizada e oferece total autonomia para que o profissional médico decida o melhor tratamento para o paciente, de acordo com cada caso”, afirma. “A pasta também esclarece que a lista de medicamentos sugeridos na plataforma pode sofrer alterações de acordo com os estudos científicos em andamento”, explica. Também afirma que a plataforma é “uma ferramenta criada para auxiliar médicos na coleta de sintomas e sinais na presença dos pacientes, desenvolvida para uso exclusivo e facultativo de médicos cadastrados”. E conclui dizendo que “o diagnóstico e o tratamento sugerido pela plataforma sem a avaliação clínica pelo médico habilitado não possuem validade e não substituem o diagnóstico clínico realizado pelo profissional”.

Pazuello lançou a plataforma no dia 14 de janeiro, em meio a uma crise sem precedentes na capital amazonense, com pacientes internados com covid-19 morrendo asfixiados por causa da falta de oxigênio. Dias antes, o ministro havia estado na capital do Amazonas e afirmou que o “tratamento precoce” era um pilar de sua gestão. E deu a entender que o colapso no sistema sanitário da cidade poderia ter sido evitado se esse protocolo tivesse sido seguido.

Porém, depois que Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que não existem tratamentos contra a covid-19 que não seja a prevenção pela vacina, Pazuello vem repetindo reiteradas vezes que sua pasta nunca indicou nenhuma forma de tratamento precoce. Ele vem falando agora em “atendimento precoce”. O TrateCov mostra que o ministro mente. Segundo os números oficiais, a pandemia já matou mais de 212.000 pessoas no Brasil. Recentemente, o país voltou a registrar mais de mil mortes diárias provocadas pela doença. Nesta quarta-feira, foram 1340.

Repita a mentira até virar verdade...

O ministro da Saúde se exaltou em entrevista coletiva no último dia 18, ao falar que nunca orientou o uso de medicamentos contra a covid-19. Pazuello afirmou que nunca autorizou o ministério a produzir protocolos indicando medicamentos contra a doença. Entretanto, assim que assumiu a pasta como ministro interino, em maio do ano passado, o ministério elaborou um protocolo que indica uso de cloroquina contra a covid, procedimento que não tem comprovação científica.

“A senhora nunca me viu receitar ou dizer, colocar para as pessoas tomarem este ou aquele remédio. (...) Eu nunca indiquei medicamentos a ninguém. Nunca autorizei o Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos”, respondeu a uma jornalista. Antes de ser questionado, o general já havia citado a necessidade da adoção do atendimento precoce contra a covid-19. “Os senhores sabem o quanto nós temos divulgado desde junho o atendimento precoce. Não confundam atendimento precoce com definição de que remédio tomar. Por favor, compreendam isso e não coloquem mais errado”, pediu aos jornalistas.

Apesar de afirmar que a pasta apenas indica o atendimento precoce, sendo a prescrição de remédios de responsabilidade dos médicos, o Ministério da Saúde publicou — em 20 de maio, quando Pazuello ocupava o cargo de ministro interinamente — orientações para tratamento medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico de covid-19, que incluem a cloroquina, hidroxicloroquina e a azitromicina. Segundo o próprio documento da pasta, o protocolo foi publicado “com objetivo de ampliar o acesso dos pacientes a tratamento medicamentoso no âmbito do SUS”.

A publicação motivou a saída de dois ministros da Saúde do cargo: Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Ambos não concordavam com o protocolo cobrado pelo presidente Jair Bolsonaro, que defende os medicamentos.

Apesar de dizer que orienta apenas o atendimento precoce e não o tratamento, o ministro se contradisse quando afirmou ainda na coletiva que “vários remédios deram algum tipo de resultado''. “É preciso utilizar a técnica do atendimento precoce. Temos que difundir isso todos os dias em todos os meios de comunicação para que a gente possa permitir que as pessoas tenham chance de não agravar. Vários remédios deram algum tipo de resultado e os médicos sabem que o deve ser prescrito para os pacientes dele”, disse.

O ministro também já defendeu, em julho do ano passado, por exemplo, em Porto Alegre, o uso de medicamentos sem eficácia comprovada, como cloroquina e ivermectina, ao falar sobre o tratamento precoce da covid-19.

Questionado sobre cloroquina, ivermectina e azitromicina, ele disse que o ministério havia feito uma orientação quanto à medicação. "Não é um protocolo, nem uma diretriz. Apresenta quais são os medicamentos que estão sendo utilizados pelo SUS, quais estão dando resultado, qual a melhor dosagem e momento de uso. Temos aí a hidroxicloroquina, a azitromicina e a ivermectina já listadas nessa orientação”, afirmou na ocasião.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que não existe fármaco com eficácia comprovada contra a covid-19. A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço da OMS, afirma que "não há evidência científica até o momento de que esses medicamentos (cloroquina e hidroxicloroquina) sejam eficazes e seguros no tratamento da covid-19". A organização ressalta, apesar disso, que todo país é soberano para decidir protocolos clínicos de uso de remédios.

Mesmo assim, o Ministério da Saúde optou por lançar o aplicativo “TrateCOV”...


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