Semana On

Segunda-Feira 27.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

Greta Garbo, quem diria? Pode estar morando no Retiro dos Artistas

Maria Lúcia Dahl sempre foi para mim uma musa, exemplo de beleza, talento e alegria

Postado em 20 de Janeiro de 2021 - Theresa Hilcar

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Foi nos anos 1990 que conheci Maria Lúcia Dahl. Ela veio a Campo Grande com a peça “Trair e coçar é só começar” cujo elenco contava também com o amigo, Tony Ferreira. 

A simpatia entre nós foi imediata. Era leitora assídua dos seus textos publicados no extinto Jornal do Brasil, enquanto dava meus primeiros passos na crônica publicada toda terça-feira no Correio do Estado.

Encerrada a temporada de quatro dias no teatro Glauce Rocha, sugeri que ficassem mais uns dias na cidade.  Hospedei Tony no meu apartamento e pedi ao saudoso amigo, Ciro Macuco, cuja casa era ampla, que hospedasse Maria Lúcia e Lú Mendonça, também parte do elenco.

Infelizmente Ciro não está mais aqui para contar a história. Mas lembro-me bem de uma viagem à Bonito e do flagrante triangulo amoroso que rolou na temporada de uma semana.

Fiquei constrangida com o episódio e acabei tomando as dores de Maria Lúcia. No entanto os envolvidos trataram o caso com civilidade e discrição. O fato acabou nos aproximando e ficamos amigas.

Tanto que tratei de convidá-la para lançar seu segundo livro aqui na cidade. E desta vez resolvi hospedá-la. A afinidade entre nós era tão grande que parecíamos duas amigas adolescentes, emprestando maquiagem, fazendo confidências e escrevendo textos. 

Tempos depois foi minha vez de ir ao Rio e conhecer o aconchegante refúgio de Maria Lúcia, no bairro de Botafogo, onde certa vez o cantor Rod Stewart tentou fazer uma balada, mas foi impedido pela dona da casa temendo o mesmo caos que ele havia provocado no Copacabana Palace. Lembro da casa abarrotada de artistas e de conversar apenas com Adriana Calcanhoto. 

Dia seguinte o telefone tocou cedo. Era o escritor Fernando Sabino nos convidando para um almoço. Eu era fã incondicional do cronista vinha trocando correspondência com ele há algum tempo.

 Maria Lúcia tinha um fusquinha cor de rosa, bem velhinho que volta e meia pifava. Lembro da aflição que senti durante o trajeto de Botafogo ao Leblon, onde ficava o restaurante Antiquários, que infelizmente não existe mais. Aquele almoço daria várias crônicas.

Estive com a atriz mais uma vez, anos depois, no teatro em Ipanema. Nos falamos rapidamente ao final da peça. Depois disto perdi seu telefone e seu contato. Volta e meia dava um Google no seu nome, mas não conseguia nenhuma informação particular. 

Numa dessas tentativas, encontrei dois vídeos no youtube, um deles mostrava a gravação de um bate-papo entre atrizes da mesma geração; noutro, uma entrevista concedida a um blog de um jovem e onde, para minha surpresa, Maria Lúcia revela, de forma quase irreverente, o tórrido romance com famoso cantor dos anos 80. Segredo que ela confiou a mim certa ocasião.

Esta semana, em mais uma busca aleatória, vejo a notícia desconcertante.  A bela e sofisticada atriz estava morando no Retiro dos Artistas, a instituição que de acordo com a descrição formal “abriga atores e atrizes em idade avançada e sem poder aquisitivo’.

Mal pude acreditar na notícia. Minha primeira reação foi entrar em contato com o Retiro. Disseram que sim, ela está lá, mas não dá para bater papo pelo telefone. Fiquei literalmente desolada. E ainda estou.

Maria Lúcia Dahl está com 79 anos e, pelas fotos que vi no site do Retiro, sua beleza ainda está visível no seu perfil aristocrático e nos belos cabelos louros. Custo a acreditar que justo ela, uma com carreira bem-sucedida em diversas frentes, com filha, dois netos e irmã conhecida no meio artístico, esteja naquele exílio. 

Será que se recolheu preventivamente, antes que a solidão da velhice lhe batesse à porta? Ou porque a casa de Botafogo tenha se tornado grande demais, insegura demais? Ou quem sabe não suportou o isolamento causado pela pandemia, a perda de amigos a privação do convívio familiar?

São apenas ilações de alguém que, há anos, nem sabe dos rumos que tomou a sua vida. São reflexões de alguém que teme, sim, a velhice desamparada. 

Maria Lúcia Dahl sempre foi para mim uma musa, exemplo de beleza, talento e alegria. Na falta de conhecimento dos fatos que a levaram ao recolhimento, devo imaginar que ela talvez tenha ido iluminar as bandas do retiro — por sinal, muito bem cuidado pelo ator Stepan Nercessian. 

Ou talvez, como a diva que sempre foi, tenha escolhido interpretar o derradeiro papel da sua vida: como Greta Garbo.


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