Semana On

Segunda-Feira 21.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Poder

Bolsonaro tentou sabotar medidas contra Covid-19, diz relatório anual da Human Rights Watch

Em documento que analisa a situação dos direitos humanos em mais de 100 países, ONG internacional diz ainda que governo brasileiro enfraqueceu fiscalização de leis ambientais e incentiva violência policial.

Postado em 15 de Janeiro de 2021 - G1, Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

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A atuação negativa do governo do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia de Covid-19 e do desmatamento recorde na Amazônia foram destaques no capítulo sobre o Brasil do Relatório Mundial 2021 da ONG internacional Human Rights Watch, divulgado no último dia 13. O documento, em sua 31ª edição, avalia a situação de direitos humanos em mais de 100 países.

O relatório, bastante crítico ao governo brasileiro, menciona ainda políticas que contrariam os direitos das mulheres e das pessoas com deficiência, ataques a mídia independente e a organizações da sociedade civil.

"Nosso relatório mostra que a resposta do governo do presidente Bolsonaro à pandemia tem sido desastrosa, o presidente Bolsonaro, desde o começo, minimizou a gravidade da doença, publicou informação equivocada, tentou sabotar os esforços dos estados para tomar medidas contra a Covid-19 e, nesse momento, parece estar fazendo campanha contra a vacina", afirma um dos pesquisadores da ONG, Cesar Muñoz.

Por outro lado, a HRW ressalta esforços de instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Conselho Nacional de Justiça para reduzir danos causados por decisões governamentais.

Um exemplo foi a decisão do STF de barrar as tentativas federais de retirar dos estados a competência em restringir a circulação de pessoas para conter a propagação do coronavírus e de publicar dados completos sobre a Covid-19.

Já o CNJ é lembrado por ter recomendado a juízes que reduzissem prisões provisórias durante a pandemia e considerassem a saída antecipada de alguns detentos.

Também o Congresso foi citado em relação a ações adotadas no que diz respeito à pandemia, tratando de um grupo especialmente vulnerável a políticas do governo federal, a população indígena. O documento menciona um projeto de lei que obriga o governo a fornecer cuidados de saúde emergenciais para os povos indígenas.

Tudo isso enquanto, diz o documento, Bolsonaro “tentou sabotar medidas de saúde pública destinadas a conter a propagação da pandemia de Covid-19”.

“O presidente Bolsonaro minimizou a Covid-19, a qual chamou de “gripezinha”; recusou-se a adotar medidas para proteger a si mesmo e as pessoas ao seu redor; disseminou informações equivocadas; e tentou impedir os governos estaduais de imporem medidas de distanciamento social”, diz o texto.

Violência policial

Mais um aspecto negativo ressaltado é o crescimento da violência policial, que chega a ser incentivada pelo presidente, aponta a HRW.

No Rio de Janeiro, a polícia matou 744 pessoas entre janeiro e maio de 2020, o número mais alto para o período desde pelo menos 2003, apesar dos níveis de criminalidade terem diminuído em razão da redução do número de pessoas nas ruas. E, em São Paulo, mortes por policiais em serviço aumentaram 9% no período de janeiro a setembro, destaca o relatório.

Em todo o país, as mortes por policiais aumentaram 6% no primeiro semestre de 2020, de acordo com dados oficiais compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2019, a polícia matou 6.357 pessoas. Quase 80% delas eram negras.

Direitos desrespeitados

Violações de direitos de crianças, adolescentes, mulheres, integrantes da comunidade LGBT e pessoas com deficiência também foram incluídos nas críticas do relatório.

Um exemplo citado foi o de que, em setembro, o ministro da educação disse que gênero não deveria ser discutido nas escolas e que as pessoas que “optam” pelo “homossexualismo” muitas vezes vêm de “famílias desajustadas”.

Outro exemplo: ainda no mesmo mês de setembro, o governo editou uma nova política nacional que incentiva a criação de escolas segregadas para certas pessoas com deficiência, apesar do direito de todas as pessoas com deficiência a uma educação inclusiva.

Meio Ambiente

Além dos desrespeitos à população indígena – que vão além da falta de cuidados durante a pandemia de Covid-19 e incluem projetos que podem causar a exploração de suas terras por garimpo e projetos de grande impacto ambiental – também é ressaltado o desmatamento ilegal e as mortes que ele provoca na região amazônica.

O enfraquecimento da fiscalização de leis ambientais desde que Jair Bolsonaro tomou posse é citado e diversos exemplos são mencionados. Também são lembradas as queimadas no Pantanal, ambiente que teve sua maior destruição em duas décadas.

Com a cloroquina, Bolsonaro implementa maior show de ilusionismo do mundo

Enquanto dezenas de países correm para vacinar sua população a fim de frear as mortes por covid-19 e retomar a economia com segurança, o governo Jair Bolsonaro (sem partido) se dedica a entupir os brasileiros de "feijões mágicos": cloroquina e ivermectina. Implementa, com isso, o maior show de ilusionismo do mundo. E, mesmo sendo manjados, muita gente ainda cai nos truques.

Em um dos lances mais bizarros desde que começou a pandemia, terraplanistas biológicos do Ministério da Saúde pressionaram a Prefeitura de Manaus a distribuir hidroxicloroquina e ivermectina, remédios usados contra malária, lúpus e infestação por vermes, como tratamento precoce para a covid, como informou o Painel do jornal Folha de S.Paulo.

Como funciona o ilusionismo. Na esmagadora maioria dos casos, nosso sistema imunológico é capaz de dar conta da doença, produzindo anticorpos e eliminando o coronavírus de forma eficaz. Ao apontar um remédio ineficaz como solução para casos leves, o presidente está, na verdade, tentando roubar o mérito por algo que o organismo já faria por conta própria.

E isso cola em uma parte desavisada da população. Afinal, o que tem mais a cara de ser responsável por vencer uma guerra contra uma doença mortal: estruturas microscópicas que cada um tem dentro de si, os glóbulos brancos, ou um produto milagroso distribuído com pompa e circunstância pelo sistema de saúde que é alvo de elogios semanais do presidente em suas lives?

E não apenas entre os cidadãos comuns. Um médico de São Sebastião, cidade no litoral paulista, me relatou a empolgação com a qual colegas defendem o "kit covid", distribuído pela Prefeitura, com esses medicamentos. Questionados sobre a falta de comprovação científica, dão de ombros, como se sua fé estivesse sendo colocada à prova. Ciência? Ninguém sabe, ninguém viu.

Sem rodeios, o médico sanitarista e fundador da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Gonçalo Vecina, foi além e afirmou no Jornal da Cultura, do último dia 6: "na minha área tem muito médico burro, que ainda dá cloroquina".

E nos casos em que a doença evolui para a morte? Daí é a estratégia discursiva adotada pelo governo é a de que nada poderia ter sido feito.

"Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre", como disse o presidente em 28 de abril. Ou "Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", como afirmou em 2 de junho. E ainda o "Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas", como sentenciou em 10 de novembro. E, claro, o "Alguns vão morrer? Vão, ué, lamento. Essa é a vida", rosnou em 27 de março.

O problema é que poderia sim. E a prioridade em feijões mágicos ajudou a tirar o foco no que realmente importa.

Está faltando oxigênio para manter pacientes vivos em Manaus. Faltam remédios para intubar pacientes ou para amenizar seus sintomas em um rosário de municípios por todo o país. Faltam testes RT-PCR para identificar, rastrear e isolar os casos positivos, o que poderia limitar a infecção, enquanto milhões deles venciam em um depósito do governo federal em Guarulhos (SP). Faltam leitos de UTIs. Faltam respiradores. Faltam profissionais de saúde. E, é claro, falta vacina.

O que nos lembra que as estratégias presidenciais são atreladas umas às outra. Enquanto se dedicou com afinco a encontrar formas de livrar o pescoço de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos -RJ), de uma denúncia por desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Jair não trabalhou para garantir a imunização da população contra a covid-19.

Para reduzir as cobranças, resolveu compensar a falta de oferta reduzindo a demanda.

Tornou-se um incansável guerreiro contra as vacinas, atacando sua credibilidade. "A vacina, se é emergencial, ela não tem segurança ainda. Ninguém pode obrigar ninguém a tomar algo se não tem certeza das consequências", disse no dia 8. Dessa forma, também anima o naco de seguidores fanáticos de extrema direita que acha que a vacina desenvolvida na China tem nanochips 5G para que cavaleiros templários e bilionários pedófilos controlem a sua mente.

Com base em nada, disse que menos metade da população brasileira pretende tomar vacina. "Alguém sabe quantos por cento da população vai tomar vacina? Pelo que eu sei, menos da metade da população, pelo que eu sei. E esta pesquisa que eu faço, faço na praia, faço na rua, faço em tudo quanto é lugar", disse. O Datafolha, mais confiável que o DataMessias, de novembro, aponta que 73% querem se vacinar.

Mas a estratégia tem dado certo em certo ponto: já são 22% os que não querem o imunizante, frente a 9% em agosto. E 50% aqueles que não acreditam em vacinas desenvolvidas por laboratórios chineses - por mais que medicamentos que consumimos aqui diariamente tenham matéria-prima de lá.

Toda essa experiência de adoecimento da democracia por conta de um corpo estranho na Presidência da República nos lembra que apesar de não existir remédio eficaz para tratar a covid-19, temos uma boa vacina para evitar que outras tragédias continuem acontecendo. Ela é pública e gratuita, chegando ao mesmo tempo a ricos e pobres.

Mas ela só estará disponível em outubro de 2022.


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