Semana On

Segunda-Feira 21.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Brasil

Após 6 anos, Brasil volta à marca de 14 milhões de famílias na miséria

Despreparado para governar, Bolsonaro culpa trabalhadores por desemprego

Postado em 07 de Janeiro de 2021 - Carlos Madeiro e Leonardo Sakamoto (UOL), Fabíola Salani (Fórum) - Edição Semana On

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O número de famílias em extrema pobreza cadastradas no CadÚnico (Cadastro Único para programas sociais do governo federal) superou a casa de 14 milhões e alcançou o maior número desde o final de 2014.

Segundo dados do Ministério da Cidadania, esse total de famílias equivale a cerca de 39,9 milhões de pessoas na miséria no Brasil. São consideradas famílias de baixa renda aquelas que têm renda de até R$ 89 por pessoa (renda per capita).

Além das famílias na miséria, havia em outubro outras 2,8 milhões de famílias em situação de pobreza, com renda per capita média de moradores entre R$ 90 e R$ 178.

Os dados do cadastro são atualizados constantemente pelos seus integrantes e refletem as mudanças na condição de vida no país. Ele serve para que o governo saiba a renda das famílias e pague um valor complementar para superação da extrema pobreza no valor de R$ 41 a R$ 205, caso a família esteja inscrita e aprovada no Bolsa Família.

Durante o governo Bolsonaro, por exemplo, o número de famílias cadastradas em extrema pobreza saltou em 1,3 milhão (eram 12,7 milhões em dezembro de 2018, último mês do governo de Michel Temer).

Para este mês, a tendência é que a pobreza cresça no país com o fim de auxílio emergencial e outros programas que auxiliaram pessoas, entes e empresas por conta da pandemia.

Segundo os dados mais atualizados do Bolsa Família, em novembro eram 14,3 milhões de famílias aptas e aprovadas no programa. A média do valor pago naquele mês foi de R$ 329,19. Agora, com o fim do auxílio emergencial (com valores que variaram de R$ 300 a R$ 1.200 por mês), essa média vai baixar para R$ 190, como era antes da pandemia.

O Ministério da Cidadania informou que ainda não possuía o número fechado de beneficiários da folha de janeiro.

Desemprego

O número de pedidos de seguro-desemprego atingiu 6,784 milhões em 2020, crescimento de 1,9% sobre o ano anterior (6,655 milhões), segundo o Ministério da Economia. Com um total de 2,779 milhões, o setor de serviços concentrou 41% dos pedidos.

Na sequência, o comércio respondeu por 26,6% do total. Depois vêm indústria (17,1%), construção (9,4%) e agropecuária (4,9%). No recorte por gênero, 59,8% dos pedidos de seguro-desemprego foram feitos por homens e 40,2%, por mulheres.

Em relação à idade, os dados seguem a tendência do mercado de trabalho brasileiro. Um terço dos pedidos (33,1%) foi feito por trabalhadores de 30 a 39 anos. Outros 20,6% se concentraram na faixa de 40 a 49 anos.

Com alguma melhora no mercado formal, a quantidade de pedidos diminuiu nos últimos meses. Em dezembro, foram 425.691, 4,6% a menos do que no mês anterior. O pico foi registrado em maio, na fase inicial da pandemia: 960.308 requerimentos.

A quantidade de parcelas vai de três a cinco, conforme o período trabalhado. E o valor depende de uma média salarial dos três meses anteriores à dispensa – em 2020, o teto foi de R$ 1.813,03. Com a crise, as centrais sindicais tentaram aumentar o número de parcelas, mas governo e patrões se uniram para derrubar a proposta no Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador (Codefat).

Quase 3 milhões de famílias viveram só com auxílio emergencial em novembro

Cerca de 2,95 milhões de domicílios brasileiros sobreviveram, em novembro passado, apenas com o auxílio emergencial de R$ 300. Ele foi pago a quem perdeu renda com a pandemia do novo coronavírus. O dado consta em estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) divulgado no último dia 6.

O benefício foi instituído inicialmente com o valor de R$ 600. Em setembro, ele foi cortado pela metade pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido), sob alegação de que não havia recursos para mantê-lo naquele valor. Ele foi encerrado em dezembro pelo governo federal.

Mesmo representando 28% do salário mínimo vigente em novembro, R$ 1.045, o auxílio significou para 4,32% dos domicílios a única fonte de renda naquele mês.

Outro dado revelado pelo Ipea dá conta de que 27,45% do total de domicílios do país permanecia sem nenhuma renda do trabalho efetiva em novembro.

Além disso, o estudo constatou que, no penúltimo mês do ano passado, os rendimentos médios da população corresponderam a 93,7% da renda média habitual. Os trabalhadores por conta própria foram os mais atingidos: receberam 85,4% do habitual naquele mês.

O estudo tem sido feito pelo Ipea para analisar os efeitos da pandemia de Covid-19 sobre o mercado de trabalho e o impacto do auxílio emergencial na renda dos brasileiros. Os pesquisadores do instituto usam como base os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Covid-19, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A culpa é do trabalhador...

Após afirmar que "o Brasil está quebrado, e eu não consigo fazer nada", e culpar a imprensa por isso, Jair Bolsonaro (sem partido) disse que um dos motivos do desemprego alto é que "uma parte considerável [dos brasileiros] não está preparada para fazer quase nada".

Com isso, ele se contradiz. Afinal, Jair é a prova viva de que mesmo alguém despreparado consegue não apenas se tornar presidente da República, como se manter no cargo demonstrando incapacidade técnica e falta de empatia.

Um dos segredos de seu sucesso é que, provavelmente graças a seu "histórico de atleta", o presidente é campeão invicto no Arremesso de Responsabilidade.

No caso do desemprego, que ultrapassou 14,3% da população, no trimestre encerrado em outubro, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, ele tenta convencer que a culpa é da baixa qualificação dos trabalhadores.

Vale lembrar que no trimestre encerrado em dezembro de 2013 o desemprego era de 6,2%. Ou seja, é possível criar condições internas para a geração de postos de trabalho, agindo de forma racional e pragmática no comércio externo. A questão é se ele e sua equipe sabem como fazer isso.

Não é a primeira vez que usa essa justificativa. Em maio de 2019, Bolsonaro afirmou que há milhões de trabalhadores desempregados "que não têm como ter emprego porque o mundo evoluiu" e eles "não estão habilitados a enfrentar um novo mercado de trabalho, a indústria 4G".

Provavelmente, se referia ao termo "indústria 4.0", que se refere a tecnologias de automação e troca de dados. Isso inclui inteligência artificial, big data, impressão em 3D, biologia sintética. Seria uma quarta fase da revolução industrial.

Os gigantescos problemas de qualificação que temos à nossa frente, contudo, são bem mais prosaicos e possíveis de serem atenuados pelo governo e passam por formação básica de qualidade. Desde que o governo estivesse realmente interessado, claro. Infelizmente, ele transformou o Ministério da Educação em trincheira de sua guerra cultural.

Por enquanto, o trabalho de "formação" bolsonarista resultou em um aumento no número de brasileiros que desconfiam de vacinas - saltou de 9% da população, em agosto, para 22%, em dezembro. Ou que prefere o voto em papel do que a urna eletrônica (23%). Dados do Datafolha.

Só por curiosidade: o número de brasileiros que acreditam que a Terra é plana é de 7%. Por enquanto.

Outra das famosas frases do presidente sobre a geração de empregos é: "Tenho pena, tenho. Faço o que for possível, mas não posso fazer milagre, não posso obrigar ninguém a empregar ninguém".

Ele não precisa ter pena, muito menos obrigar alguém, até porque empregar não é um favor, mas um negócio de compra e venda de força de trabalho em nome de salário e lucro.

Mas o governo deve adotar medidas e não ficar apenas apostando todas as fichas em mudanças legislativas e de normas regulamentadoras e no enfraquecimento da fiscalização para reduzir a proteção dos trabalhadores e, assim, os "custos".

Bolsonaro afirmava no primeiro ano de seu mandato que não tinha culpa pelo alto patamar de desemprego. Nisso ele tinha razão, uma vez que estávamos vivendo as consequências de decisões de governos anteriores.

Neste momento, dois anos depois de sua posse, contudo, o mimimi não deveria colar mais.

Ao lutar contra as políticas adotadas por governadores e prefeitos para o isolamento social visando ao combate do coronavírus, ele fez com que as quarentenas durassem mais. O que elevou o número de mortos e criou problemas para a retomada do emprego.

Isso sem contar que segue devendo uma política nacional para o emprego e para a qualificação de mão de obra que poderia ser chamada como tal.

No último dia 5, o presidente, ao reclamar de ações trabalhistas (em sua maioria, pedidos de pagamento 13º, férias e direitos não pagos em rescisões), afirmou que "ser patrão é uma desgraça".

Não. É difícil ser trabalhador e ser micro e pequeno empresário no Brasil. Desgraça é termos um presidente que terceiriza suas responsabilidades, deixando trabalhadores e micro e pequenos empresários praticamente à própria sorte.


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