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Segunda-Feira 06.dez.2021

Ano X - Nº 470

Coluna

Davi Kopenawa

Com Ciência Indígena

Postado em 26 de Dezembro de 2020 - Ricardo Moebus

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O líder indígena Davi Kopenawa Yanomami foi eleito agora em dezembro como membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Pela primeira vez em sua história, desde 1916, reunindo pesquisadores das mais diversas áreas de conhecimento, os membros da ABC reconheceram, por unanimidade, uma liderança indígena, os saberes indígenas, em seu rigor de eficácia e empiria, como uma ciência.

O fato é da maior relevância para todos os povos indígenas, mas, mais ainda para todos os povos científicos, para os povos da ciência oficial, hegemônica, globalitária, que se acreditam donos de um saber acima de todos os outros.

Se no ano de 1550, o dominicano Bartolomé de Las Casas precisava defender veementemente que os povos indígenas do novo mundo possuíam, igualmente aos europeus, uma alma, porque era isto que garantiria a eles o estatuto de acesso a algum direito humano, o estatuto de respeitabilidade como ser humano, ou, até mesmo, o direito à vida. Ora, em nosso tempo, no qual a ciência é agora a detentora do critério da verdade, detentora da validação dos saberes, o reconhecimento das ciências dos povos indígenas é igualmente fundamental para que possamos escutá-los e considerá-los e respeitá-los com o mesmo apreço que dedicamos aos maiores cientistas de nossa história.

Talvez isto não signifique grande coisa para a vida densa e intensa de Davi Kopenawa, absolutamente desinteressado de qualquer sucesso, reconhecimento pessoal ou título honorífico, mas para a Academia Brasileira de Ciências é um passo gigantesco, em direção a uma ecologia dos saberes, um passo gigantesco atravessando, talvez superando, o que Boaventura de Sousa Santos chamou de “o pensamento abissal”, o afastamento dos círculos científicos de todas as outras formas de produção de saber, ignorando todos os outros modos de produção de saberes e fazeres que acionam verdadeiras produções de mundos.

Claro que a liderança indígena, o xamã Davi Kopenawa não tem currículo lattes, não é professor de universidade, não é autor de artigos de revistas científicas catalogadas e classificadas como confiáveis fontes de conhecimento, nada disso.

Davi Kopenawa é uma grande liderança em luta contínua há décadas em defesa do direito à vida do povo Yanomami, em defesa do direito ao Território Indígena Yanomami, em defesa do direito à vida interligada e indissociável de tudo que brota e respira na Amazônia, enfrentando toda a estupidez dos projetos da ditadura militar de “ocupação” e “desenvolvimento” da Amazônia, desde as décadas de 60 e 70 do século XX, até o presente momento, atualidade agravada pelo descaso do governo federal pelos direitos indígenas. 

Na década de 90 do século XX, Davi Kopenawa tornou-se ainda mais reconhecido mundialmente por sua luta pela criação do Território Indígena (TI) Yanomami, um dos maiores e mais importantes territórios indígenas do Brasil, hoje sob franca ameaça, estando invadido neste momento, por, calcula-se, cerca de 20 mil garimpeiros, em plena pandemia do novo coronavírus, que torna esta invasão ainda mais letal.

Mesmo sendo um Território Indígena estabelecido legalmente, demarcado e homologado, isto não tem garantido a defesa constitucional destas terras que são patrimônio público do povo brasileiro e que deveriam ser defendidas pelo poder público, que tem se furtado em cumprir suas obrigações constitucionais. Calcula-se um aumento de aproximadamente 1.600% de área desmatada por invasores no território Yanomami em 2018 e 2019, em comparação com anos anteriores.

É  a primeira vez na história que a Academia Brasileira de Ciências se abre para o reconhecimento dos saberes dos povos originários deste lugar, saberes seculares ou milenares, um sopro de esperança de que a Ciência possa vir a ser cultivada como uma diversidade de epistemes, uma ecologia de saberes e viveres, bioepistemediversidade, afastando-se da “monocultura das mentes”, como nomeou acertadamente a ambientalista Vandana Shiva.

Mais que nunca, o momento grave que atravessamos no Brasil, exige de todos nós, nossa declaração ativa e ressonante, de nosso reconhecimento da importância dos povos indígenas, seus saberes, seus modos de viver, seus modos de produção de mundos, para a nossa existência coletiva, para a continuidade da diversidade da vida nesta interestrelar canoa.


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