Semana On

Quinta-Feira 05.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

Loucura, loucura, loucura...

Um conto sobre surtados, esposas, psiquiatras e candidatos

Postado em 16 de Dezembro de 2020 - André Miguel Lucidi

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A esposa levou o marido ao psiquiatra, pois ele estava com alguns estranhamentos e um comportamento esquisito. Mal entraram no consultório, o marido começou a falar.

_ Eu não tenho culpa disso não, talkey?

_ Culpa do que? Perguntou o psiquiatra.

_Disso tudo que está acontecendo.

Antes que o psiquiatra ficasse com mais expressão de indignação, a esposa esclareceu.

_ Doutor, ele começou a ficar assim em 2017, as vezes dandava das ideias, as vezes ficava normal... Eu achei que fosse por causa do momento do país, mas com o tempo ele piorou. Não aceita uma verdade, mesmo comprovada.

O médico parou um instante para pensar em alguns casos da medicina semelhantes sobre os quais ele houvesse lido.

_ Sei, compreendo. Já vi isso antes. Só não tinha tratado alguém assim. Mais algo de estranho que a senhora tenha notado?

_Sim, doutor... Ele agora só dorme com um pijama verde, e com o quarto iluminado em amarelo. Só lê certas mídias, digamos assim, duvidosas... Passa horas nas redes sociais, mas não socializa com ninguém, quer discutir o tempo inteiro. Os amigos se afastaram dele. Só resta eu, que também estou surtando com isso.

O médico compreendeu a esposa. Resolveu dirigir-se ao marido para testar algumas reações.

_Senhor, eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Gostaria que o senhor respondesse com a primeira coisa que lhe vier a mente, a cada palavra que eu disser.

_ Pois não, doutor. Pode começar.

_ Custo de vida ...

_Donald Trump.

O psiquiatra ficou assustado, mas continuou. Pensou uma mais fácil.

_ Verde, amarelo...

_ Azul e vermelho, cheio de estrelas!

_ A coisa estava mais complicada do que ele achava. Prosseguiu.

_ Alimentação.

_ Um revolver na mão e uma bíblia na outra.

 _ Filmes de faroeste.

_ Essa está fácil, doutor. Bandeira vermelha. Eu não suporto nada vermelho.

_ Seu sangue...

_ Meus filhos, a quem protegerei acima de tudo!

A esposa interrompeu.

_Doutor, nossos filhos não são dele, ele faz de conta que não sabe disso.

O psiquiatra calou-se por instantes, pensou em uma última.

_ Fogo no pantanal.

_ Dólares! Muitos dólares! Bilhões!

O Psiquiatra, viu que já estava bom de associação de ideias. Deu seu parecer, enquanto o paciente tentava morder a própria orelha.

_Seu marido tem transtorno bipolar, dissonância cognitiva, complexo de superioridade, crise de identidade e um pouco de psicose. Eu infelizmente, não tenho como tratar. Somente com internação, e bem demorada.

A mulher ouviu aquilo, consternada. Afinal, uma internação para tratar tudo isso podia sair cara. Resolveu, então, tentar uma última saída. Ser franca.

_Doutor, talvez eu não tenha tanto dinheiro para poder internar ele. Sei que ele já não se ajusta mais a sociedade dos dias de hoje, mas nós precisamos viver. Uma vez que ele não está apto a trabalhar normalmente, o que o senhor me recomenda?

_ O Psiquiatra olhou-a nos olhos e respondeu sinceramente.

_A senhora procure um partido político e peça para candidatarem ele nas próximas eleições. Pode ser que funcione.


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