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Segunda-Feira 20.set.2021

Ano X - Nº 461

Coluna

A necropolitica manicomialista do bolsonarismo

É preciso ampliar a luta antimanicomial

Postado em 11 de Dezembro de 2020 - Emerson Merhy

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Se Machado de Assis vive-se hoje no Brasil poderia ter escrito o Manicomialista em vez do Alienista. Agudo como era em sua escritura, este autor de tantas obras polemiza com o nascimento de um modo de pensar na sociedade do seu tempo sobre o normal e o não normal, tomando como referente a maneira como o pensamento psiquiátrico (alienista) ia dando diagnóstico para cada tipo de comportamento que um outro qualquer apresenta-se.

Não sobrava um, todes tinham possibilidades de ser enquadrades em algum diagnóstico de anormalidade psiquiátrica, e como premiação por isso era retirado do convívio das suas redes de familiaridades e aprisionado em uma cela (puro manicômio). Neste texto, Machado chega ao ponto de mostrar que só ficava fora da cela o próprio alienista, pois todes outres eram anormais, sob a sua perspectiva.

Ora, hoje parece que, depois de um século, o problema persiste, mesmo que com nuances distintas. Vivemos a todo instante habitados por olhares que agora já nos pertencem também e não só a um especialista (psiquiatra, por exemplo). Vamos dando valor ao modo de outre viver e catalogando o que fazer com isso, aproximar-se, afastar-se, retirá-le de circulação, deixá-le morrer por si, entre muitos outros modos de agir, quase sempre destituindo o outre, muito fora do meu próprio horizonte do viver de um valor positivo, no seu próprio viver.

Entretanto, o pior disso é quando um governo assume esse lugar de exclusão de todes que não considera do seu time, dando a eles e elas o status de anormal e como tal de serem eliminades de qualquer possibilidade de serem potencializades nos seus modos singulares de viver suas vidas, através de políticas sociais positivas nessa direção.

Ao contrário, opera no caminho de dificultar a vida dessas vidas tidas como de menor valor, criando um agir governamental que tem como base um olhar necropolítico sobre essas vidas, que podem morrer, que não farão falta para os projetos desse governo, bem como uma maneira de cuidar desses que ainda estão vivos excluínde-es do convívio de uma vida coletiva enriquecedora das mesmas, em liberdade.

É só olhar as políticas que vêm sendo geradas nesses últimos dois anos e temos a certeza desse modo necropolítico e manicomialista de agir. Na Pandemia o governo é declaradamente necropolítico, inclusive por saber que os corpos vulnerabilizados pelo contexto de desigualdade social têm chances bem diferenciadas de viver e sobreviver sob o acometimento da tal “gripezinha”.

Além disso, quando propõe políticas para jovens infratores, crianças e adolescentes com qualquer tipo de deficiência, loucos e loucas, viventes de rua, entre muitas outras formas de viver, a marca principal destas políticas é enclausurar, aprisionar, criar serviços, celas de dar inveja ao alienista machadiano.

Nesse movimento é que aponto que agora, nesse momento da vida brasileira, lutar por vidas não manicomializadas deve ser uma das possibilidades de construção de comuns entre diferentes coletivos sociais brasileiros, ampliando a própria LUTA ANTIMANICOMIAL para além dos muros da SAÚDE MENTAL.

Ampliar essa luta incrível que se construiu nessas décadas de luta, desde o processo de democratização da sociedade brasileira, nos anos 60, me parece um imperativo para avançarmos socialmente com uma pauta de luta, inclusive de enormes contingentes de vidas desprezadas, que segundo o governo nacional não merecem ser cuidados em liberdade.


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