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Quarta-Feira 04.ago.2021

Ano IX - Nº 454

Coluna

A hora de Clarice no cinema

Adaptar é reorganizar narrativas concebidas sob a liberdade da literatura, calibrá-las com novas perspectivas, acrescentar os ingredientes da linguagem audiovisual e lhes dar outros alcances

Postado em 11 de Dezembro de 2020 - Clayton Sales

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Macabéa vivia uma não-existência. Magra de pena, feia como assombração, tola como porta, era uma não-mulher. Macabéa tinha a história vazia a ponto de o narrador Rodrigo S.M. se acanhar em contá-la. Era comiseração. Alívio também. Rodrigo S.M. parecia suspirar aos céus por ser quem é. Ou melhor, por ser, já que sua não-heroína simplesmente não era. Homem de alguma posse, aspirante a escritor, ele dizia que apenas narrou a saga fictícia de uma nordestina que larga o sertão para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Criada por uma tia malvada, morou com meretrizes em pensionato e arrumou emprego de datilógrafa, do qual seria despedida por ignorância e desleixo. Arrumou Olímpico. O sujeito alimentava sonhos de Macabéa, mas ele a trocou pela colega de trabalho. Então, conta Rodrigo S.M. com mais dedos nas mãos que estrelas no céu, sua não-heroína procurou Carlota. A cartomante previu um gringo louro e rico no coração de Macabéa. Transformação (explosão). Sorte dela, pois as cartas e os santos descortinaram para a cliente anterior um acidente de trânsito fatal. Encantada com o futuro arranjado para ela, ao atravessar a rua, Macabéa é atropelada por um carrão. O motorista louro de aparência gringa fugiu. Pois não é que a vida de Macabéa mudou? Finalmente, ela era alguém. Finalmente, ela era. Multidão se amontoou em torno de seu corpo agonizante de cara para a sarjeta. Passou a ter importância. Ao morrer na fossa, Macabéa virou nebulosa. Ganhou sua hora. A hora da estrela. 

Publicado em 1977, "A Hora da Estrela" é um drama dilacerante sobre ilusões e desconcertos de nordestinos na selva da metrópole. Também sobre a condição feminina na sociedade brasileira, especialmente da mulher pobre e ingênua. E ainda sobre o lugar do qual o narrador está deslocado. Esse foi o intuito de Clarice Lispector: mostrar a densidade das chagas íntimas de uma mulher que, sim, tinha o direito de ser. Macabéa era uma pessoa, mulher, fêmea, humana, alguém. Gostava de cachorro-quente e cola-cola. Nos seus desejos, escondidos como pérola na ostra, mas seus, constituintes de sua essência, Macabéa simplesmente era. Estava errado Rodrigo S.M. na sua condolência. Ele tinha o destino de Macabéa nas mãos, mas nem assim conseguiu controlar o desaguar dessa caminhada penosa. Essa era a ideia de Clarice Lispector ao contar a jornada de sua personagem pelos olhos de um homem. Mostrar que, embora a sorte feminina seja culturalmente pautada pelo sexo oposto, existem penumbras jamais alcançadas. Está na complexidade de Macabéa entranhada com os desatinos de Rodrigo, uma obra preciosa em poucas páginas e muita inquietação. Então, como transformar esse minúsculo frasco de aroma intenso em filme? 

Coube à saudosa diretora Suzana Amaral a tarefa de mergulhar na novela de Clarice Lispector e, ao lado do argentino Alfredo Oroz, escrever o roteiro da adaptação cinematográfica "A Hora da Estrela" (1985). Ela começou pela decisão mais ousada: subtrair Rodrigo S.M. O narrador-personagem construiu cenários e depositou impressões carregadas de juízos. Talvez os testemunhados pela própria Clarice, inspirados em suas memórias do Nordeste onde viveu e que amou. Porém, traduzidas por filtro masculino, olhando Macabéa como homem enxerga criatura semelhante, com ar de superioridade. Suzana Amaral extirpou o filtro e deu à Macabéa de Clarice Lispector um pouco mais de vida. Uma personagem sem a lente compassiva de Rodrigo, com rastilho de luz própria fluindo e exalando pelos próprios poros sua miséria e fantasias. Se os ricos detalhes da existência de Macabéa perdem sua totalidade, o que é usado no longa-metragem se soma a um conjunto orgânico de sentimentos. No livro, Macabéa desperta dó e uma dose de cômodo afastamento. No filme, Macabéa desperta empatia e uma vontade de acolher seu pequeno corpo. 

Ao dar forma e movimento a personagens da literatura, o cinema preenche grande parte do território imaginativo. Em "A Hora da Estrela", Macabéa vem pronta, sob a perspectiva de Suzana Amaral, que a vislumbrou na magnífica atriz paraibana Marcélia Cartaxo. Sua interpretação é pautada pela tristeza resignada que resulta numa ingenuidade cortante. Seu rosto e seu corpo são bonitos, embora mal alinhados, como propõe a obra original. O vazio de Macabéa vem de seu interior e suas expressões derrotadas mas inocentemente esperançosas são construções habilidosas da cineasta. O livro fornece uma Macabéa quase sem rosto, quase sem corpo, com descrições desabonadoras, permitindo que a experiência da leitura a desenhe de acordo com cada mente. Essa é a proposta de Clarice Lispector quando se referiu à "inocência pisada" na sua última entrevista antes de morrer em 1977 para a TV Cultura. Macabéa é a autodestruição inconsciente se arrastando numa vida de raras brisas. A Macabéa de Suzana Amaral ainda se ruboriza de êxtase sobre um futuro que ela acaba não tendo. 

No livro "A Hora da Estrela", a trama é desenvolvida em um baralho cronológico perfeito para súbitos fluxos de consciência. Usuais na escrita de Clarice Lispector, esses momentos dinâmicos que irrompem como relâmpago enviam a leitura para as entranhas da sua heroína sem heroísmo. Esse dentro é o espaço, mesmo caótico e sombrio. No filme, o enredo é metodologicamente conservador e mostra os limites óbvios do cinema. A Rádio Relógio que abre o longa-metragem e serve de companhia para a solidão de Macabéa é sua conexão com o mundo. Revela-se a vontade de saber, de saber para ser. É assim na novela de Clarice, mas a entrega à Macabéa é tanta que esse aspecto se dilui na enxurrada de elementos que a circundam. O livro cativa pela potência aflitiva da personagem. O filme causa o mesmo, mas com pitadas generosas de ternura. É o toque de Suzana Amaral, sem macular a essência de Macabéa e tudo o que ela dispara, como a fragilidade derrotada e submissa, dentro da paisagem desoladora da pobreza, da solidão e da situação da mulher na realidade comandada por homens. Suzana Amaral deu à Macabéa de Clarice Lispector uma clareira por onde alcançou novos corações, que provavelmente se instigaram em explorar mais a personagem, conhecer seus abismos e labirintos. Esses corações devem ter se lançado ao livro depois de se sensibilizarem com o filme. 

Outras obras de Clarice Lispector ganharam versões cinematográficas, três delas baseadas em contos. Uma é "Tentação" (1982), curta-metragem de Teresa Andrea e Edilson Vidal baseado no texto homônimo.  Já "O Corpo" (1991), de José Antônio de Barros Garcia, é um longa-metragem inspirado em "A Via-Crúcis do Corpo". Outro filme nascido do universo da escritora é "Ruído de Passos" (1996) de Denise Gonçalves, que teve como base o conto de mesmo nome. Deve ser lançada ainda em 2020, a adaptação do romance "A Paixão Segundo G.H.". Em comum, mulheres vasculhando suas estruturas mais subterrâneas para explodirem em epifanias. A escrita de Clarice Lispector é vulcânica. Projeta em bombardeios inesgotáveis rajadas de humanidade resgatadas das profundezas da alma. Transportar essa virtude para o cinema sempre será desafiador. Nascida em 1920 na Ucrânia, crescida no Brasil e naturalizada brasileira, ela morreu em 1977. Não teve tempo de assistir a qualquer adaptação de sua literatura. Se reprovaria, como Anthony Burgess rejeitou "Laranja Mecânica" (1971) de Stanley Kubrick, ou se adoraria, como José Saramago amou "Ensaio sobre a Cegueira" (2008) de Fernando Meirelles, nunca será sabido. Cinema e literatura são artes companheiras, mas cada uma tem seus tempos, seus processos e suas barreiras. Jamais um filme será "fiel ao livro", se o sentido dessa tal fidelidade for a reprodução. Adaptar é reorganizar narrativas concebidas sob a liberdade da literatura, calibrá-las com novas perspectivas, acrescentar os ingredientes da linguagem audiovisual e lhes dar outros alcances.


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