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Segunda-Feira 25.out.2021

Ano X - Nº 464

Coluna

Um dia todas as coisas serão esquecidas

‘Você acha que nunca vai acontecer com você. Que não pode acontecer com você’

Postado em 09 de Dezembro de 2020 - Theresa Hilcar

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Você acha que nunca vai acontecer com você. Que não pode acontecer com você. Que você é a única pessoa no mundo com quem nenhuma dessas coisas jamais há de acontecer. E, então, uma por uma, todas elas começam a acontecer com você, do mesmo modo como aconteceu com todas as outras pessoas.

Estas palavras são do escritor Paul Auster e estão no primeiro parágrafo do livro “Diário de Inverno”. Digamos que, grosso modo, peguei-as emprestadas de um dos meus autores favoritos, e com as quais me identifiquei sobremaneira.

A obra do escritor norte-americano é uma espécie de relato pessoal sobre o envelhecimento. É um retrato sensível com o qual boa parte de nós pode se identificar. Assim como eu, o autor, tem 63 anos. Ou tinha na época em que fez o relato.

Convenhamos que, ninguém imagina ficar velho. E quando isto acontece, ninguém imagina que o primeiro impacto será a nossa preciosa memória, caixa que armazena nossas informações, fatos e experiências. E é com as falhas desta caixa que teremos de lidar ad eternun.

Mas antes que ela me deixe vou recorrer a ela, a memória, para lembrar da infância quando eu, inadvertida e ingenuamente, costumava rir da minha avó por esquecer até os nossos nomes ou os lugares onde guardava as coisas.

Eis que é chegada a minha hora. E tal qual a avó querida, também sou motivo de várias risadas dos meus filhos e também de estranhos. Afinal, não é todo dia que se vê alguém procurando desesperadamente os óculos que estão em cima da cabeça. Fica difícil segurar o riso nessas horas. Eu sei.

E o que acontece quando esqueço quais remédios tomei? Fico olhando para a caixa em cima do balcão e tento, na maioria das vezes em vão, buscar as informações na outra caixa – a memória. Com as vitaminas o processo é mais fácil. Na dúvida, engulo outra pílula. Mas com aqueles que são prescritos o método não funciona, claro. Oh céus! 

Também ando perdendo coisas a exaustão. E não adianta procurar porque a visão não ajuda, mesmo com óculos. Por isto vou deixando para o universo cada coisa perdida. O livro, o vestido, o carregador de celular e até a placa dentária que fui obrigada a refazer. E essa, a bem da verdade, consegui encontrar muito tempo depois em lugar inusitado. Não me perguntem aonde.

Quando conto uma história, ou algum fato, tenho que prestar bastante atenção para não provocar aquela frase terrível: “Você já contou isto”. Foi mal. As contas ficam no débito automático por segurança. Do contrário corro o sério risco de ficar sem luz, água, internet, TV a cabo e celular.

Vai longe a época em que eu sabia de cor e salteado todos os números de telefones dos amigos, de empresas, e todos os nomes de ruas. Agora não sou capaz de ligar nem para os meus filhos sem a bendita agenda do celular. Datas de aniversário, ou de eventos importantes, já entreguei para Deus. E para determinada rede social que, felizmente, manda lembretes.

Ando até assistindo filmes repetidos — mais do que o usual — porque simplesmente esqueço do final. O mesmo acontece com as séries. Quase sempre preciso retomar as temporadas anteriores para acompanhar a atual.

Minha avó Maria, que gostava de fazer vaticínios costumava dizer: “2000 chegará, mas de 2000 não passará”. Confesso que a frase me assombrou durante bastante tempo. Mal sabíamos que o novo milênio chegaria sim, mas que 2020 não tem nenhuma pressa de ir embora. Por sorte, muito provavelmente iremos nos esquecer dele.

Publicado originalmente no Correio do Estado


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