Semana On

Sábado 24.jul.2021

Ano IX - Nº 453

Coluna

O mal é o que sai da boca do homem

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 09 de Dezembro de 2020 - Victor Barone

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No dia em que o país registrou em 24 horas mais 848 mortos por coronavírus e que o número de casos estava em alta em 21 dos 26 Estados e no Distrito Federal, bombou nas redes sociais um vídeo onde o presidente Jair Bolsonaro, em conversa recente com apoiadores à entrada do Palácio da Alvorada, fala da pandemia e dá conselhos. Alguns trechos:

“Em nenhum momento eu falei fique em casa. Muito pelo contrário. Sempre falei: o vírus e o desemprego devem ser tratados com a mesma responsabilidade e simultaneamente. O desemprego mata muito mais do que o vírus”.

“O pessoal fez um pânico terrível [com o vírus] e tem gente idosa em casa até agora”.

“Qual é a vitamina D mais barata? É na praia. O pessoal proibiu de ir à praia, uma ignorância sem tamanho”.

“Eu não inventei a cloroquina. Você liga para os embaixadores da África Subsaariana e pergunta: ‘Quando os caras chegam aí com malário e Covid, eles tomam cloroquina?’ Sim, cura as duas coisas. Mais de 200 servidores do meu prédio pegaram e tomaram cloroquina. Nenhum foi para o hospital”.

“Que preocupação com a vacina, hein? Pelo amor de Deus. […] Eu já peguei e não vou tomar. Quem não tomar, está sendo negligente com a própria vida, não com a vida dos outros”.

“A última coisa que falta eu acertar é a máscara. Quando você pega na máscara, já contamina… E aperta a mão do outro, e entra no ônibus. E essa máscara não tem muita eficácia, e tem muito médico dizendo isso.”

“Vou visitar Itajaí (Santa Catarina). Mas não vou tomar ozônio [que requer aplicação retal]. Ah,ah.ah… Sabe da história? O prefeito de lá falou que cura a Covid com ozônio… Tinha muita gente indo pra lá tomar ozônio. ‘Estou com covid’… Ah,ah.ah.ah…”

OUTRO PATAMAR

A crise sanitária mudou de patamar. Antes que o brasileiro pudesse comemorar o declínio do nível de contágio, o coronavírus voltou a agir. A média móvel de mortes registrou aumento de mais de 30% em dois meses. O país está a caminho de repetir a marca de mais de mil mortes por dia. O total de vidas perdidas desde o início da pandemia se encaminha rapidamente para a marca de 180 mil. É um flagelo sem precedentes na história.

Sejamos diretos: Jair Bolsonaro não está bem-posto na fotografia. Para se reposicionar, teria de reconhecer que seu governo caiu num buraco. O reconhecimento não resolveria todo o problema. Mas evitaria que o presidente continuasse jogando terra sobre si mesmo e em cima dos brasileiros. A julgar pelo que disse em viagem ao Rio Grande do Sul, Bolsonaro ainda não recebeu a visita da autocrítica. Declarou que "estamos vivendo o finalzinho de pandemia." Voltou a citar a hidroxicloroquina como elixir anti-Covid.

Sejamos didáticos: Até aqui, a fantasia de Bolsonaro era vista como uma esquisitice, uma extravagância, uma idiossincrasia. A paixão do presidente pela cloroquina era tratada apenas como uma evidência de que a diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites. No instante em que o Reino Unido inaugurou a fase da imunização, a encrenca ganhou novos contornos.

A esquisitice foi guindada à condição de incompetência. De repente, o país se deu conta de que faltam ao governo brasileiro vacinas, seringas e um plano nacional de vacinação. A obsessão pela cloroquina tornou-se um atentado contra o artigo 196 da Constituição. Nele, está escrito: "A saúde é direito de todos e dever do estado..." O negacionismo de Bolsonaro virou um descaso que empurra a inação do governo para dentro do Código Penal. Até ontem, o brasileiro morria de Covid. Amanhã, passará a morrer de falta de vacinas.

Por Josias de Souza

NECROMODA

Na quarta-feira 7 de dezembro de 2020, ano da peste que assolou o planeta no início do século XXI matando mais de 1.532 mil pessoas e infectando pouco mais de 66 milhões, o excelentíssimo senhor presidente da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, em cerimônia no Palácio do Planalto, inaugurou com a pompa que tal momento exigia a exposição do terno completo que usou no dia da sua posse em 1º de janeiro de 2018, bem como o vestido que na ocasião portava Michelle de Paula Firmo Reinaldo, sua mulher.

O evento não constava da agenda do presidente. Passou a constar por exigência de Michelle. Diante de seis ministros e de funcionários do governo mobilizados às pressas, Michelle discursou com direito a transmissão ao vivo pela TV estatal: “Um dia memorável, né? Um dia memorável para a Nação”. Depois dela, falou a estilista Marie Lafayette, autora do vestido, uma carioca que afrancesou o próprio nome depois de um curso de alta costura que fez em Paris. O sonho de Marie Lafayette é vestir a Rainha da Inglaterra.

A estilista disse ter confeccionado o vestido “com muito amor” e descreveu Michelle como uma “pessoa iluminada”. O alfaiate Santino Gonçalves, autor do terno de Bolsonaro, sucedeu a Lafayette ao microfone e referiu-se ao seu cliente como o “presidente que Deus escolheu”. Então chegou a vez de Bolsonaro dizer alguma coisa. E ele fez questão de contar logo de saída que não pagou pelo terno, assim como Michelle não pagou pelo vestido. “De graça, até injeção marciana, né?” – gracejou. Mas não se deu por satisfeito.

Em seguida, em meio ao riso da plateia acostumada a sorrir quando o presidente tenta ser engraçado, Bolsonaro forneceu o endereço do alfaiate que tem ateliê em Brasília. E observou: “Quanto mais terno fizerem lá, mais eu ganho por aqui”. Ao fim da solenidade da roupa usada a ser tratada doravante como obra de arte, um ministro apressou-se em trocar cartões de visita com o alfaiate, e uma modesta funcionária do palácio especulou em conversa com outra sobre o preço de um vestido assinado por Marie Lafayette.

Os anais da história registrarão que naquele dia de pouco sol em Brasília e de trabalho ameno na sede do governo, o Covid-19 havia matado mais 426 brasileiros nas últimas 24 horas, elevando para 177.388 o número de óbitos desde o começo da pandemia há nove meses. A média móvel de mortes nos últimos 7 dias foi de 603, a mais alta desde 10 de outubro último. E crescia no Distrito Federal e também em 17 dos 26 Estados. As autoridades médicas concordavam que não era ainda a segunda onda do vírus, apenas o recrudescimento da primeira.

Por Ricardo Noblat

PELO PRAZER DE INTIMIDAR

Tudo começou com o ótimo documento publicado pela Sociedade Brasileira de Infectologia, com recomendações sobre a covid-19.  Explicitando os estudos em que se baseia, a SBI trata de pontos como diagnóstico e evolução dos pacientes, tratamento precoce e medidas de prevenção. Como não poderia deixar de ser, a entidade diz que não recomenda o tratamento precoce com medicamentos (apenas o uso de analgésicos e antitérmicos), já que não há nenhum com eficácia comprovada para administrar drogas como cloroquina, ivermectina e nitazoxanida.

Isso despertou a atenção do procurador-chefe da República em Goiás, Ailton Benedito de Souza – um bolsonarista explícito que, como lembra o G1já foi indicado pelo presidente para compor a Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos. Ele assina um ofício em que o MFP de Goiás dá cinco dias para a SBI apresentar “cópias” dos documentos que embasem suas recomendações. E pede ainda que a entidade informe se tem conhecimento da infeliz orientação do Ministério da Saúde sobre o tratamento precoce da covid-19; “em caso positivo, que esclareça se os estudos científicos que a embasam não têm valor científico para a SBI”…

BAGUNÇA E OPACIDADE

O Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas editou uma nota técnica apontando uma série de problemas de transparência na divulgação de informações sobre a pandemia de covid-19 no Brasil. Atrasos ou instabilidades foram identificados em várias fontes de informações oficiais. 

Uma questão bastante grave é que o Ministério da Saúde não atualiza o Painel de Vírus Respiratórios, que exibe o total de testes PCR realizados. A bagunça é tamanha que, segundo o documento, a plataforma não diz nem qual foi a data da última atualização.

Isso prejudica inclusive a análise da evolução dos casos no país. Aqui, o número oficial de casos inclui infecções confirmadas por testes PCR, testes de anticorpos e até por diagnóstico clínico, sem exame. Não dá para medir nada direito a partir disso. Quando há a informação sobre quantos exames PCR foram feitos a cada momento, a situação fica menos opaca, porque dá para analisar a evolução da taxa de positividade (o número de resultados positivos que voltam a cada 100 testes realizados). A desculpa do governo para não abrir os dados  é que isso prejudicaria a privacidade dos pacientes da rede particular, o que não se sustenta: a nota ressalta que é perfeitamente possível publicá-los sem identificar as pessoas, como, aliás, faz o openDataSUS.

Há outras coisas que o Ministério deixa de mostrar usando a justificativa da proteção à privacidade: o de etnia e CEP de residência dos infectados. Chega a ser engraçado, considerando que o mesmo ministério está envolvido em escândalos de vazamentos de dados de pacientes…

Tem mais. As informações sobre a distribuição de testes pela pasta ficou sem atualização durante 13 semanas (de agosto a novembro). As plataformas que informam sobre medicamentos hospitalares e equipamentos de proteção individual estavam sem atualização desde outubro. Os boletins epidemiológicos, que deveriam ser divulgados toda semana, não o são: no momento, o último disponível é sobre a semana que vai de 22 a 28 de novembro. E o anterior cobria o período entre 25 e 31 de outubro, o que significa que o Ministério ficou quase um mês sem produzir o boletim. A publicação do número de leitos disponíveis e ocupados, oriundos do Censo Hospitalar, é uma piada: só foi feita uma única vez, em outubro. Outro nó que o documento aponta é no Painel Coronavírus Brasil, que divulga o número de casos e óbitos no país e nos estados, e chegou a ficar fora do ar no meio do ano. 

Por fim, há grande falha na comunicação com a sociedade, materializada na escassez de coletivas de imprensa. De 23 de janeiro a 23 de maio (nas gestões de Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich) o intervalo médio entre duas coletivas era de 1,6 dia. Com Pazuello, passou a 4,3 – sendo que chegou a haver um período de 13 dias sem nenhuma. Mesmo quando acontecem, essas entrevistas são fracas. O ministro em pessoa é uma figura pouco presente nelas, e sempre sai sem responder a perguntas. 

O documento vai ser encaminhado para órgãos de controle do governo federal e para a Comissão Mista do Congresso Nacional Covid-19. Onze organizações o assinam: Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Transparência Brasil, Fiquem Sabendo, Instituto de Governo Aberto, Open Knowledge Brasil, ANDI – Comunicação e Direitos, Associação Contas Abertas, Inesc, ObjEthos – Observatório da Ética Jornalística (UFSC), RENOI – Rede Nacional de Observatórios da Imprensa (UnB), e Instituto Ethos.

NEM TÃO AMPLA

A Anvisa aprovou uma resolução com regras para conceder autorização emergencial de vacinas contra a covid-19. O conteúdo é o mesmo do Guia apresentado na semana passada, que já previa esse tipo de aprovação. A diferença, segundo relatora e diretora Alessandra Bastos Soares, é que agora há maior segurança jurídica. Os critérios continuam os mesmos. Entre eles: a vacina precisa estar na fase 3 dos ensaios clínicos, com voluntários testados no Brasil; e são necessários resultados de análise interina de desfecho primário da fase 3 demonstrando no mínimo 50% de eficácia. As vacinas irão apenas para públicos-alvo específico e não poderão ser comercializadas.

O movimento acalmou – por ora – os ânimos do presidente da Câmara Rodrigo Maia. “A Anvisa felizmente toma uma decisão que nos dá mais tranquilidade, porque estávamos caminhando para propor uma CPI de investigação dentro da Anvisa para que os responsáveis sobre esse atraso de uma decisão de uma agência que é de Estado, e não é de governo”, disse ele. 

Mas a sinalização da agência pode não ser tão abrangente quanto parece. Antes dela, já pairava no ar uma dúvida sobre a interpretação da lei 13.979/20, que há tempos previa a possibilidade de autorização emergencial. É que, de acordo com essa lei, produtos com registro em outros países poderiam ser autorizados no Brasil sem o aval da Anvisa, caso a agência não se manifestasse 72 horas após o pedido aqui. Mas ontem o diretor da agência, o contra-almirante Antônio Barra Torres, deixou claro que, em sua opinião, isso só vai valer quando o produto tiver o registro oficial, e não apenas a autorização emergencial, no exterior. A questão é que, por ora, todas as vacinas já em uso foram aprovadas apenas para uso emergencial.

Para o advogado Daniel Dourado, isso indica que a agência poderia vir a negar, talvez seletivamente, alguns pedidos. “A diretoria da Anvisa dá a entender que aquele prazo de 72 horas previsto na lei da covid para manifestação só vai ser considerado quando houver registro definitivo em alguma das agências estrangeiras previstas na lei. (…) A agência indicou que está aberta a conceder as autorizações. Mas talvez não todas“, escreveu ele, completando: “meu palpite é que há grande chance de que esse problema da liberação das vacinas pela Anvisa seja mais um a ser resolvido pelo STF“. 

Em tempo: uma carta aberta, funcionários da agência dizem que agem com base em critérios científicos, e não servem “aos interesses de governos, de pessoas, de organizações ou de partidos políticos”.

CADA UM POR SI

O Ministério da Saúde afirmou que o acordo para as 70 milhões de doses da Pfizer foi assinado ontem, de modo que precisa da autorização emergencial da Anvisa para colocá-las na rua. Quanto à CoronaVac (cujos resultados de fase 3 estão prometidos para a próxima semana), nada feito.

O Instituto Butantan começou a produzir a vacina na quarta-feira. Seu diretor afirmou ontem que há a possibilidade de exportar o imunizante para outros países, como a Argentina. “Não apenas planos, mas inclusive negociações em curso. O Butantan, junto com a Sinovac, ofereceu ao Ministério da Saúde 100 milhões de doses até maio. Ao mesmo tempo foram anunciados 40 milhões adicionais para toda a América Latina”, disse Dimas Covas, em coletiva de imprensa. No Brasil, ao todo 12 estados e quase mil municípios estão negociando doses por conta própria, segundo o governador de SP João Doria (PSDB).

Não são apenas as vacinas que os governadores querem garantir. Pelo menos nove já abriram editais para a compra de seringas (ao todo, são 210 milhões de unidades), para não depender do Ministério da Saúde. É que, embora o governo federal tenha anunciado que pretende comprar 370 milhões, até agora não saiu nenhum edital para licitação. 

CHAMADA À RAZÃO

Cientistas que auxiliam o Ministério da Saúde na construção do plano operacional de vacinação publicaram uma nota pedindo que o governo federal abra imediatamente negociações com o Instituto Butantan, “que já teria condições de oferta de doses de vacinas, com outras empresas que trabalham com a vacina CoronaVac e com outras vacinas candidatas em fase final de estudos de eficácia”. Eles defendem que as decisões sejam baseadas em ciência em vez de “em eventuais cenários políticos de fundo” e que a vacinação comece “o quanto antes”. 

O documento não é assinado, mas foi escrito pelo grupo técnico do eixo epidemiológico que trabalha no plano, formado por especialistas da Fiocruz, da OMS, da Opas (a Organização Pan-americana de Saúde), de universidades como a USP e a Ufes e ainda de diversos conselhos e organizações. Entre suas atribuições, está a de definir os grupos prioritários que devem receber as vacinas. Seu argumento central é o de que as doses acordadas pelo ministério não são suficientes para imunizar nem mesmo estes grupos. “Nos causa preocupação constatar que, até o momento, a única alternativa à vacina da AstraZeneca incluída no planejamento seja aquela ofertada pela Pfizer, justamente a que apresenta o maior desafio logístico para incorporação à estratégia nacional de vacinação por conta da cadeia de frio necessária”, diz o texto.

A nota foi publicada pouco depois de o ministério anunciar a retirada das pessoas privadas de liberdade dos grupos prioritários para receber a vacina. A pasta retirou a população carcerária da lista, mas manteve agentes do sistema prisional. A justificativa é bizarra: os presos seriam jovens. Questionado, o ministério disse que “o Brasil e o mundo ainda carecem de mais estudos quanto à taxa de transmissibilidade e de letalidade para que se justifique a priorização do grupo daqueles privados de liberdade”. 

Segundo os cientistas, na verdade deveria haver uma ampliação da população que precisa ser atendida, e não sua redução. “Nós [os especialistas] falarmos qual é a população que precisa ser considerada prioritária e então o ministério garante a vacina para eles. E não o ministério falar ‘a dose é essa’ e aí nós delimitamos quem é prioridade”, diz a epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo. Ela publicou a íntegra da nota em seu Twitter.

Por Outra Saúde

VERGONHA ALHEIA

PÉSSIMO EXEMPLO DESMASCARADO - Com um tubo de oxigênio no nariz por conta da Covid-19, a jornalista Leda Nagle falou que não passou por nada grave devido ao uso de ivermectina. Mas o filho a desmentiu dizendo que foi grave, sim, e que a mãe "bateu na trave".

COMO NO CARNAVAL

O Ministério da Economia está defendendo que a população volte às ruas de modo que o isolamento social volte ao mesmo patamar de fevereiro, mês do Carnaval. ‘Estudo’ da Secretaria de Política Econômica da pasta crava que a renda dos brasileiros só voltará ao habitual se essa taxa refluir a 29%, usando como base de comparação o mês de outubro, quando o distanciamento alcançava 37%. Tem mais: esse é o argumento da equipe econômica para sustentar que não há motivos para prorrogar o auxílio emergencial em 2021. 

O homem por trás da projeção é Adolfo Sachsida – que já havia atacado de epidemiologista em 17 de novembro, quando afirmou que a possibilidade de uma segunda onda no Brasil era baixa porque os estados teriam atingido ou estariam caminhando para “a imunidade de rebanho”. Na época, destacamos essa afirmação, tirada da cartola. Hoje, quando o país voltou a liderar a taxa de crescimento de casos no mundo, ela parece motivo mais do que suficiente para que a secretaria de Sachsida desista de fazer projeções sobre a pandemia. 

O outro epidemiologista fajuto, Paulo Guedes, afirmou nessa terça que só será convencido de que existe segunda onda caso o número de mortes bata a marca das mil por dia. Apenas diante dessa tragédia o ministro da economia afirmou que concordaria em defender a prorrogação do auxílio. 

Bom, de uma forma ou de outra a pasta está contribuindo para que isso aconteça.

HUCK E MANDETTA

Mais um vazamento programado das articulações de Luciano Huck para 2022. Desta vez, a conversa aconteceu com Luiz Henrique Mandetta. O ex-ministro da saúde foi à casa do apresentador de TV, no Rio, no dia 20 de novembro. Segundo a coluna Painel, a ida de Sergio Moro para os EUA mudou seu status na negociação de uma chapa de centro-direita – abrindo espaço para nomes como o de Mandetta.

FALANDO EM VIOLÊNCIA…

A Câmara de Comércio Exterior, vinculada ao Ministério da Economia, zerou a alíquota de importação de armas de fogo. O imposto era de 20% e deixará de ser cobrado a partir do ano que vem. Ninguém tem dúvidas de que a decisão é um aceno do presidente para sua base política. 

Por Outra Saúde

PÚBLICO E PRIVADO

O filho 04 do presidente Jair Bolsonaro, Jair Renan, ganhou de presente a cobertura em foto e vídeo da festa de inauguração de sua empresa. A questão é que a produtora que lhe conferiu o mimo presta serviço ao governo de seu pai, tendo recebido R$ 1,4 milhão neste ano. A história, trazida a público no último dia 10, pela repórter Constança Rezende, da Folha de S.Paulo, reforça o entendimento de que a meritocracia é hereditária no Brasil. Ou, pelo menos, no clã Bolsonaro. Pois é difícil imaginar que milhares de empreendedores sem um sobrenome luminoso seriam agraciados com esse presente.

A empresa de Jair Renan já havia sido alvo de matéria na Veja. Segundo a revista, o 04 solicitou ao gabinete da Presidência da República uma audiência para que um de seus patrocinadores tratasse de interesses comerciais de sua empresa. O ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, acabou recebendo o mecenas.

Bolsonaristas que tanto reclamaram das relações entre o empreendimento de um dos filhos de Lula com corporações que tinham interesses nas gestões petistas, agora questionam diante da notícia do 04: e o PT? Mas, considerando que o partido e o ex-presidente já foram longamente criticados por isso, inclusive levados à Justiça, a pergunta agora é outra: e o Jair?

O presidente e sua família nunca entenderam muito bem sobre a saudável separação entre cargos públicos e interesses privados. Não são os únicos políticos a fazerem "confusão", mas insistem nela com frequência. Isso faz com que o mimo recebido por Jair Renan seja entendido não como um deplorável desvio pontual, mas como evidência de problema estrutural.

Evidências, aliás, não faltam. Seu pai recebia auxílio moradia tendo imóvel próprio, em Brasília, quando era deputado federal; deu carona para familiares em helicóptero das Forças Armadas no casamento do filho; abusou do nepotismo ao tentar indicar o próprio filho 02 para embaixador nos Estados Unidos - indicação que, por bem das nossas já maltratadas relações internacionais, não foi para frente.

Enquanto isso, o presidente tem sido visto comendo instituições de fiscalização da República, como a Receita Federal, o Coaf, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal em nome de seu projeto de poder e do bem-estar de sua família.

Na já icônica reunião ministerial de 22 de abril, cujo vídeo foi divulgado por decisão do Supremo Tribunal Federal após ter sido apontado pelo ex-ministro Sergio Moro como prova da interferência de Bolsonaro na PF, disse o presidente: "eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar. Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira". Ele tratava de indicações para o órgão no Rio de Janeiro.

Após a demissão de Marcelo Álvaro Antônio, ministro do Turismo e dono de "laranjal", também há uma denúncia do Ministério Público do Rio apontando que o filho 01 teria comprado imóveis através de recursos públicos desviados. O ex-assessor Fabrício Queiroz gerenciava as "rachadinhas" do gabinete do então deputado estadual e, hoje, senador Flávio Bolsonaro, recolhendo parte do salário de servidores públicos, alguns deles fantasmas e com relação com milicianos.

O presidente, ao menos, já deixou claro o que pensa do favorecimento da própria prole. Diante das críticas pela indicação do filho 02 à Embaixada nos EUA, disse em 18 de julho do ano passado: "Pretendo beneficiar um filho meu, sim. Pretendo, está certo. Se puder dar um filé mignon ao meu filho, eu dou." Pena que "sinceridade" não enche a barriga dos milhões que deveriam ser prioridade do governo e ficarão sem auxílio emergencial e sem emprego muito em breve.

Por Leonardo Sakamoto

GENTE DE BEM

Dois policiais militares em serviço protagonizaram uma briga hoje no centro de São Paulo, em frente a pedestres. Um PM chegou a apontar a arma da corporação para o rosto do colega de farda. O desentendimento ocorreu na esquina das ruas dos Timbiras e Santa Ifigênia. O local é um dos principais pontos da capital paulista do comércio popular de tecnologia e estava cheio no momento da briga. Enquanto um dos PMs aponta a arma para o colega, pessoas gritavam: “mata ele”, “pega ele!” e “atira na bunda dele!”. Em dado momento, o policial que estava com a arma apontada para o rosto tenta desarmar o colega de farda. Nesse momento, as pessoas que assistem à briga se distanciam, assustadas, e as gravações tremem ou param de ocorrer.

GENTE DE BEM 2

O empresário Tiago Zouain Gonçalves, de 40 anos, humilhou e ameaçou matar um manobrista de 30 anos durante uma discussão por causa de uma vaga de estacionamento irregular. O caso aconteceu no último dia 28 no bar Seo Rosa, localizado em um bairro de classe alta de Campinas (SP), mas só agora imagens da discussão foram publicadas na internet. Um boletim de ocorrência foi registrado.

GENTE DE BEM 3

Apoiador de Jair Bolsonaro é preso por humilhar, espancar, registrar e compartilhar nas redes um vídeo em que tortura um mecânico por conta de uma suposta dívida. Além de socos, chutes e tapas, agressor chega a quebrar uma garrafa na cabeça do trabalhador

GENTE DE BEM 4

O fotógrafo Igor do Valle usou as redes sociais para expor a agressão do pai à irmã, de apenas 9 anos, que estaria sendo espancada por dizer que “gostava de uma amiga”. “Bom, esses são meus pais, espancando minha irmã só porque ela disse que estava “gostando da amiga”, diz o fotógrafo em texto que acompanha o vídeo. O caso aconteceu no Rio de Janeiro. Nas imagens, Igor entra no quarto onde a irmã estava sendo agredida e começa a gravar. O espancamento da criança parece ter o aval da mãe. “Se filmar, é pior”, grita o agressor. Igor chega a implorar: “não bate nela, por favor”, enquanto é possível ver um cinto na mão do agressor. A mãe do fotógrafo parece tentar impedir a gravação. Em seguida, ouve-se gritos de “vamos embora” e “faltam mais duas” ditos pelo pai da menina.

GENTE DE BEM 5

O casal que agrediu a médica Ticyana Azambuja em maio deste ano, no Grajaú, zona norte do Rio de Janeiro, foi condenado para uma indenização R$ 12 mil ao casal de vizinhos Marco Antônio Guimarães Cardoso e Juliana Castro Martins Cardoso, que tentou ajudar a médica na ocasião. De acordo com a sentença de ontem do juiz do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio) André Ricardo de Franciscis Ramos, Rafael Henrique Del Iudice Ferreira terá que pagar R$ 10 mil a Marco Antônio, enquanto Ester Mendes de Araújo pagará R$ 2 mil para Juliana. Os agressores eram acusados de lesão corporal leve e ameaça. "Rafael pagará quatro parcelas mensais, a partir de 5 de janeiro de 2021, no valor de R$ 2.500,00 (dois e quinhentos reais) cada uma em conjunto a ambos os ofendidos pelos crimes de lesão corporal leve que lhe são imputados", diz um trecho da decisão. Pelo acordo, Ester pagará quatro parcelas de R$ 500 a Juliana, também a partir da mesma data. A médica foi agredida depois de voltar de um plantão e reclamar devido ao barulho a aglomeração causados por uma festa clandestina em sua rua. Após quebrar o retrovisor de um veículo estacionado irregularmente de um dos integrantes da festa, ela teve as mãos pisoteadas, um dos joelhos fraturados e foi enforcada até perder a consciência.

O veículo pertencia a um PM que presenciou as agressões, mas não ajudou a médica. Ele é um dos seis denunciados por agressão pelo MP (Ministério Público).

FRASES DA SEMANA

“Quando o pessoal fala em ‘Centrão’, eu já integrei o PP, PTB, PFL, atualmente DEM, e PSC. Fui de outros partidos extintos, o PPB e PPR. Então ficar cada vez mais satanizando partidos não existe.” (Bolsonaro, que já definiu o Centrão como “a nata do que há de pior no Brasil”)

“Sinto muito, realmente do fundo do meu coração. Mas se o preço que pagamos é 590 mortes diárias, então isso é inaceitável.” (Angela Merkel, a primeira-ministra alemã, ao defender a adoção de novas medidas de restrição social no combate à pandemia)

“Temos que acreditar que podemos vencer. Vamos ter fé. Tudo vai passar. […] Erguer a cabeça e dar a volta por cima é o padrão brasileiro”. (Eduardo Pazuello, general, especialista em logística, ministro da Saúde. Em sua gestão, o número de casos do vírus aumentou 30 vezes)

“São três moleques!” (Hamilton Mourão, vice-presidente da República, sobre Flávio, o Zero Um, Carlos, o Zero Dois, e Eduardo, o Zero Três, seus desafetos e filhos de quem são. Não citou Renan, o Zero Quatro, que se dedica a fazer lobby por empresários que o ajudam em negócios) 

“Por que não tenho simpatia pelo voto impresso? Em primeiro lugar, pelo fato de que ao tempo que tínhamos voto impresso é que havia muita fraude. Desde 1996 nunca se noticiou uma fraude sequer. O voto em cédula é de um anacronismo.” (Luís Roberto Barroso, presidente do TSE)

“A hermenêutica não permite endosso a práticas heterodoxas que adulterem o real sentido da Constituição, ou de exegeses capciosas que estiquem o sentido semântico das palavras até que expressem qualquer coisa, e a Constituição já nada signifique”. (Rosa Weber, ministra do STF)

“O PT foi fundado num mundo que está indo cada vez mais embora. Por isso é que falo que precisamos de uma mudança geracional. Óbvio que eu acompanho tudo isso, mas minha neta está cem vezes na minha frente”. (Jaques Wagner, senador do PT pela Bahia)


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