Semana On

Quinta-Feira 24.jun.2021

Ano IX - Nº 448

Brasil

Volta à escola: Bolsonaro e Mourão vêm perturbar debate que já era tenso

E se morrer? ‘A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo’, reforça o presidente na sua lógica de necropolítica

Postado em 03 de Dezembro de 2020 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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Após o presidente Jair Bolsonaro defender o retorno às aulas presenciais mesmo com a pandemia voltando a escalar no Brasil, o seu vice, Hamilton Mourão, apoiou o posicionamento do capitão com uma generalização grosseira.

"Acho que há uma certa hipocrisia nisso aí. A mesma turma que não quer voltar [para as aulas presenciais] vai para a balada, vai para bar... Então, vamos ser coerentes nas coisas. Se não pode, não pode, para tudo", disse no último dia 3.

O debate sobre o retorno às aulas presenciais já tem sido complexo e exaustivo envolvendo estudantes, famílias, professores, pedagogos e diretores de escolas que agem de forma racional, buscando a qualidade de vida da coletividade, entendo o que está em jogo. Pois há argumentos de ambos os lados. Agora, imagine quando envolvem políticos que colocam, em primeiro lugar, a agenda do governo para do qual fazem parte.

O que o vice fez, neste caso, foi anular a opinião de quem defende que um retorno agora pode espalhar ainda mais a covid entre as famílias - crianças e jovens apresentam baixa taxa de letalidade, o problema são os mais velhos que moram com eles. Ignora, dessa forma, o receio de milhões que nem vão para a escola, nem para a balada.

Ao colocar todos os estudantes em um mesmo balaio para tentar reforçar seu argumento, o general da reserva acaba legitimando generalizações bobas que fazem com membros das Forças Armadas, por exemplo. Como aquelas que dizem que todo militar considera torturadores da ditadura como heróis. Ou que todos são favoráveis, em determinados casos, a uma "intervenção militar" (a.k.a golpe).

(Essas, aliás, são opiniões do próprio Mourão, que já chamou o açougueiro Brilhante Ustra de "herói", em 2018, e afirmou que uma "intervenção militar" poderia ser necessária se Justiça não agisse contra a corrupção, intervenção a ser imposta através de "aproximações sucessivas", em 2017.)

Mas o vice tem razão em uma coisa: se não pode, não pode. Todos estamos esgotados, mas aglomerações deveriam ser combatidas pelo poder público. O problema é como fazer isso com um presidente que, o tempo todo, defende o "libera geral".

Bolsonaro disse a apoiadores, no último dia 2, que o governo estava tentando uma volta às aulas. "Conversei agora com o ministro da Educação. Queremos voltar às aulas presenciais em todos os níveis, mas os reitores agora chegaram nele... 'não, queremos só começar em 2022'. Aí, no meu entender, não tem cabimento".

O ministro da Educação, Milton Ribeiro, havia baixado, na terça (1º), uma portaria para que as universidades federais e particulares voltassem a ter aulas presenciais em janeiro. Diante das intensas reclamações por conta de UTIs lotadas com pacientes de covid e da falta de perspectiva de uma vacinação de professores no primeiro semestre de 2021, o MEC afirmou que revogaria a decisão.

O presidente, desde o começo, tem forçado a barra para que população retome o seu cotidiano - o que inclui a volta às aulas presenciais. Para isso, emprega todo o seu arsenal. No dia 10 de novembro, usou um xingamento homofóbico - "maricas" - para se referir aos brasileiros que têm medo de morrer de covid-19. Defende que, se ficarmos doente, é só tomar cloroquina, por mais que nada indique ela funcione contra a doença.

E se morrer? "A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", disse ele no dia 2 de junho. O governo federal segue acreditando que o impacto de 174,5 mil mortos (e contando) vai ser menor junto à população do que os 14,1 milhões de desempregados (e contando). Precisa das escolas e creches funcionando para que as pessoas possam sair e trabalhar.

O problema é que quem define o retorno da economia não é um capricho de médicos, mas a dinâmica do vírus. E o vírus pouco se importa com esses debates. Até porque, é um vírus.

Poderíamos já ter voltado às aulas se a situação estivesse melhor. Mas também é generalização boba culpar todos os prefeitos e governadores, como o presidente gosta de fazer, ou mesmo a própria população por isso. Se há um grande culpa, é ele, que se aliou ao vírus.

Não tivemos um líder que articulou a nação para atravessar um momento sombrio, o que tornou o isolamento social menos eficiente e o arrastou para muito além do necessário. Lamentamos todos.

Sob Bolsonaro, a pasta da Educação enferrujou

Desde que Milton Ribeiro chegou à Esplanada, tem-se a sensação de que o Nada despacha no principal gabinete do Ministério da Educação. Tenta-se alcançar o ministro com os olhos. Tenta-se enxergá-lo em seu assento. Inútil. O olhar atravessa o Nada e vai bater no couro do espaldar da poltrona.

Desejava-se um ministro menos espalhafatoso do que Abraham Weintraub. Mas Jair Bolsonaro exagerou. Agora, só de raro em raro o ministro da Educação abandona sua invisibilidade. Ressurge em grande estilo, como se desejasse provar que existe.

A portaria em que o professor Ribeiro mandou que as universidades federais retornem às aulas em janeiro revelou-se uma inutilidade intrigante e desmoralizante.

É inútil porque as universidades dispõem de autonomia administrativa. Intriga porque reabre as salas de aula em meio ao recrudescimento da pandemia. Desmoraliza porque o ministro descobre que a imposição da sua vontade pela força é seguida pela perda da força. A portaria, natimorta, durou poucas horas.

Há no MEC problemas de dois tipos. Os problemas do governo e os problemas da sociedade. O Brasil convive com o quarto ministro da Educação da Era Bolsonaro. E esses dois mundos ainda não se tocaram.

Imaginou-se que o ministro Ribeiro, egresso do meio universitário, interromperia a mania do governo de apertar o nariz de reitores. Com sorte, dialogaria. A edição da fatídica portaria mostrou que os canais continuam obstruídos.

Há dois meses, numa entrevista que concedeu ao Estadão, Milton Ribeiro disse concordar com a tese segundo a qual a pandemia escancarou as desigualdades educacionais. Mas achava que não tinha nada a ver a questão.

"Esse não é um problema do MEC, é um problema do Brasil. (...) Vai fazer o quê? (...) Não foi um problema criado por nós."

Recém-chegado ao cargo, o ministro também concordava que a má distribuição da internet é uma dificuldade. Mas avaliava que a encrenca não lhe dizia respeito.

"Esses são problemas sociais, que eu não tenho como responder. Vão afetar a escola, mas isso aí já é para um outro departamento, de assistência. Não tenho como resolver isso."

Entrando-se nos temas que o ministro avaliou que lhe dizem respeito, descobriu-se que ele quer valorizar os professores, mas não esclarece de que cartola vai retirar o dinheiro.

Ribeiro estava atento à base nacional comum curricular, que precisa ser atualizada até 2023. Mas os pontos que o inquietavam eram: a ideologia, um vídeo que dizia ter visto no YouTube exibindo meninas aprendendo a colocar camisinha com a boca e a "homossexualidade", que ele respeita mas não considera normal —é coisa de "família desajustada".

De resto, o ministro mandara revisar os livros didáticos. Não acha justo que a ditadura militar seja retratada pela historiografia como ditadura.

A entrevista do ministro provocou um certo tédio e algum espanto. Entediou porque repetiu, em timbre menos estridente, o lero-lero de antecessores.

Assustou porque imaginou-se que já estivesse entendido que essa conversa de guerra ideológica não resolve os problemas da Educação. Há no MEC problemas de dois tipos. Os problemas do governo e os problemas da população. Já estamos no quinto ministro da Era Bolsonaro. E esses dois mundos ainda não se tocaram.

No mundo real, há um país por fazer. Esse país clama por qualificação e produtividade. Coisas que não serão obtidas senão com uma educação de excelência. Mas o governo está preocupado com seus fantasmas ideológicos, com a camisinha, com a orientação sexual dos alunos e com a maquiagem da história.

Esse cenário se ajusta à célebre metáfora de Hegel, sobre a "Coruja de Minerva que só voa quando o crepúsculo chega", significando que só podemos entender o tempo em que vivemos quando ele já tiver se esgotado.

Mantido o cenário atual, em que o ministro da Educação imagina que pode mandar abrir universidades na pandemia sem conversar com os reitores, a compreensão só virá quando já for tarde demais. Sob Bolsonaro, o MEC enferrujou.


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